Tom Hanks é reconhecidamente um dos sujeitos mais legais de Hollywood. E quem analisa um pouco a carreira dele percebe o seu grande interesse pela Segunda Guerra Mundial. Hanks “serviu”, ou seja, estrelou O Resgate do Soldado Ryan (1998) – pelo qual foi indicado ao Oscar de Melhor Ator – e foi “general” também, ou seja, trabalhou como produtor das premiadas minisséries da HBO Band of Brothers (2001) e The Pacific (2010), junto com seu amigo e também fanático pela Segunda Guerra, Steven Spielberg. Greyhound: Na Mira do Inimigo continua esse interesse, agora até de forma mais próxima: além de estrelar o filme, Hanks foi também o roteirista, adaptando o livro “The Good Shepherd” de C. S. Forester. O astro é a verdadeira voz por trás do filme e a razão para sua existência. Se fosse outra pessoa, poderíamos até suspeitar de que se trata de um autêntico projeto de vaidade. Mas não é o caso: Tom Hanks é um cara legal.

No filme, o astro interpreta o capitão Ernest Krause, que comanda o destroier norte-americano USS Keeling, apelidado de Greyhound. Estamos na Batalha do Atlântico em 1942, e o Greyhound é um dos navios de guerra que tem a missão de defender um comboio de embarcações aliadas dos U-boats, os perigosos submarinos alemães. Apesar de ser um comandante experiente, Krause nunca esteve numa situação de combate. Em meio ao mar revolto, as batalhas e escaramuças se sucedem e o capitão precisa usar dos seus nervos e inteligência para vencer.

Em teoria, é uma boa: uma aventura aquática com doses de suspense ambientada na Segunda Guerra, seguindo os passos de obras como O Mar é Nosso Túmulo (1958) de Robert Wise, ou O Barco: Inferno no Mar (1981), de Wolfgang Petersen. É impossível até não se lembrar dessas obras durante a duração de Greyhound. O problema é que o filme dirigido pelo relativamente inexperiente Aaron Schneider é muito… impessoal. Nele, tudo é voltado para a trama, para a situação de guerra. Quase todos os diálogos só têm tecnicalidades. Todos os tripulantes, fora o capitão, são indistintos – o longa coloca Stephen Graham no papel do imediato, mas não dá nada para este bom ator fazer. E no início, temos uma cena entre Krause e sua esposa, interpretada por Elisabeth Shue, que visa a dar mais profundidade ao personagem dele, mas só resvala no clichê.

FRIEZA EXCESSIVA

Ainda assim, o protagonista é o único que recebe ao menos um pouquinho de caracterização. Descobrimos que ele é temente a Deus, não gosta de palavrões e as tentativas do oficial de entregar comida para ele acabam virando quase uma minitrama dentro do filme, os únicos momentos de leveza na narrativa. Mas é só isso. Não existem personagens. Torcemos pelo Tom Hanks porque é o Tom Hanks, porque gostamos dele. Não porque o roteiro nos mostra um personagem interessante ou à altura do ator. Isso deixa Greyhound bem frio, apesar das bombas e tiros. No fim das contas, não nos importamos com as pessoas a bordo do navio.

Só resta admirar a reconstituição da época: dos procedimentos navais ao jargão a bordo, tudo parece autêntico – palmas para a produção, mas é o mínimo do que se espera no projeto concebido por um especialista em Segunda Guerra. Ou admirar a qualidade da fotografia, dos efeitos de computação gráfica e do trabalho de som. Porém, mesmo nesses aspectos, Greyhound não impressiona tanto: talvez se tivesse passado nos cinemas, mas, em casa, ele parece pequeno frente a filmes de guerra recentes como Dunkirk (2017) e 1917 (2019), cujos cineastas criaram imagens grandiosas e com um tom de naturalismo elevado. O longa de Schneider – que dirige tudo com eficiência, mas sem personalidade – deveria ter sido lançado nos cinemas, mas foi uma das vítimas da pandemia de Covid-19 e acabou indo mesmo para o streaming da Apple TV. Frente aos seus parentes próximos que viraram referência do gênero aos olhos do público moderno, a guerra em CGI de Greyhound impressiona bem menos.

No fim, Greyhound é um filme ok, nem ruim nem maravilhoso. Mesmo que o roteiro contenha lá seus exageros dramáticos – como os vilões alemães zombando dos heróis pelo rádio, faltando só a risada malvada – é um exemplar bem conduzido e bem produzido de guerra, nada memorável, mas capaz de entreter, graças à presença de Tom Hanks e ao senso de despretensão. Essa despretensão até se revela na duração do projeto: Com apenas uma hora e meia, Greyhound nunca chega a deixar que seus defeitos aborreçam o espectador.

Frequentemente comparado a alguns astros do passado, Tom Hanks parece estar seguindo a mesma linha que tantas outras carreiras da era de ouro de Hollywood seguiram: trabalho duro na juventude, consagração e, depois, a transformação numa instituição na fase madura da vida. O papel do capitão Krause, sinceramente, Hanks consegue fazer dormindo, e sabemos disso. A última atuação realmente memorável dele, lá em Capitão Phillips (2013), já tem alguns anos. Mas quando se pensa neste filme, chegamos à conclusão de que só Hanks poderia ter feito Greyhound. Não é um projeto de vaidade; é, na verdade, o típico filme de alguém já acomodado e, acima de tudo, confortável no mundo do cinema.

‘After the Winter’: drama imperfeito sobre amizades e os novos rumos de um país

"After the Winter", longa de estreia do cineasta Ivan Bakrač, é uma ode à amizade e ao amadurecimento. A co-produção Montenegro-Sérvia-Croácia, que teve sua première mundial na seção Leste do Oeste do Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary deste ano, retrata...

‘Batman Begins’ e o renascimento do Homem-Morcego

“Por que caímos? Para aprender a nos levantar”. Essa frase é dita algumas vezes pelos personagens de Batman Begins, inclusive pelo pai de Bruce Wayne. Ela se aplica dentro da história, mas também é possível enxergar aí um comentário sutil a respeito da franquia Batman...

‘O Marinheiro das Montanhas’: Ainouz em viagem intimista e modesta

"O Marinheiro das Montanhas", novo filme de Karim Aïnouz, é uma mistura de diário de viagem e tributo familiar que leva o espectador para o coração da Argélia - e do diretor também. O documentário, exibido na seção Horizontes do Festival Internacional de Cinema de...

‘O Espião Inglês’: cumpre missão mesmo sem inovar

Filmes de espionagem quase sempre ostentam um ar noir, como uma ode aos filmes antigos da Era de Ouro de Hollywood. Com clima denso, a tensão toma conta, as intrigas são o plot principal nesses enredos frios e sem espaço para o humor e, via de regra, quase sempre...

‘Mirrors in the Dark’: drama de demasiados passos em falso

Uma dançarina à beira do abismo é o foco de "Mirrors in the Dark", filme tcheco que teve sua estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary deste ano. O longa de estreia de Šimon Holý, exibido na mostra Leste do Oeste do evento, capricha no visual...

‘The Card Counter’: Oscar Isaac simboliza a paranoia de um país

“The Card Counter”, novo filme do diretor Paul Schrader (roteirista de clássicos como “Taxi Driver” e “Touro Indomável”), possui certas semelhanças com seu último filme, “No coração da escuridão”. Ambos partem do estudo sobre um personagem masculino que se percebe...

‘Nö’: anticomédia romântica dos dilemas da geração millenium

O medo do fracasso, as pressões contemporâneas e as estruturas sociais colocam uma parede no meio de um casal em "Nö", nova produção alemã que teve sua estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary deste ano. Premiado com o Globo de Cristal de...

‘O Culpado’: Jake Gyllenhaal caricato em remake desnecessário

O cinema é uma arte que permite constante reinvenção. E isso facilita a compreensão da prática comum de Hollywood que perdura até os dias de hoje. É natural vermos a indústria norte-americana reexplorar a ideia de uma produção audiovisual de outros países, seja ela...

‘Mother Schmuckers’: anarquia niilista repleta de deboche

"Mother Schmuckers" é um filme que desafia palavras, que dirá críticas. A produção dos irmãos Harpo e Lenny Guit é uma comédia de erros que envolve drogas, violência e todo o tipo de perversão sexual. Exibido nas mostras de meia-noite de Sundance, onde estreou, e do...

’007 – Sem Tempo para Morrer’: fim da era Craig volta a abalar estruturas da série

A franquia de filmes do agente secreto James Bond, o 007, já quase sessentona, virou uma instituição cinematográfica. E quando algo vira uma instituição não se pode mexer muito nela. Não é possível adentrá-la e começar a mudar as coisas de lugar ou fazer diferente do...