Como escrever um artigo sobre o fenômeno e a importância das videolocadoras sem cair no saudosismo? Essa foi a dúvida que me fez começar este texto que você está lendo agora, caro leitor. Porque eu não sou saudosista. Nem nostálgico. Bem, não muito, pelo menos.

Por isso mesmo, vamos esgotar logo o estoque de saudosismo nestes próximos dois parágrafos: Eu adorava ir à videolocadora, leitor! Meu pai comprou nosso primeiro videocassete em 1986: Alugou ‘A Gaiola das Loucas’ (1978) e ‘A Mosca’ (1986), e não me deixou ver nenhum dos dois. A primeira locadora foi a Vídeo Cine Cupido, lá na Rua Pedro Botelho, Centro. Ela ficava perto do trabalho dele. Só algum tempo depois eu vi meu primeiro filme do começo ao fim, na fita locada: ‘Os Caçadores da Arca Perdida’ (1981). Acho que ali meu destino foi selado, naquela tarde de sábado, vendo aquele filme – eu seria para sempre um obcecado por cinema, para o bem e para o mal. Algum tempo depois a empresa mudou de endereço e nós, de locadora. Fui para a Lok Vídeo, que ficava ali na Paraíba. Aluguei muita coisa. Descobri filmes que moldaram meu gosto cinematográfico. Não me esqueço da minha mãe falando para eu não pegar ‘O Massacre da Serra Elétrica’ (1974), e peguei mesmo assim – tirando aquele momento inicial, meus pais ficaram meio liberais com o que eu e meu irmão víamos…

Pelo final dos anos 1980 e década de 1990, a locadora foi minha igreja e minha escola. James Bond, Jason Voorhees, Jean-Claude Van Damme, a tripulação da Enterprise (Clássica e Nova Geração) e alguns outros se tornaram meus amigos. John Carpenter era soberano: Filme novo com o nome dele na capa? Pegava na hora. Passar um tempão andando pelos corredores, olhando e pegando nas caixas e imaginando os filmes, era realmente uma experiência maravilhosa. Foi nas locadoras que vi pela primeira vez Pulp Fiction, Veludo Azul, A Morte do Demônio, O Iluminado, Os Eleitos, Fargo, O Exorcista, Os Imperdoáveis, Duro de Matar, De Volta para o Futuro, Aliens, Boogie Nights – todos hoje fazem parte do meu DNA cinéfilo.

E então veio a mudança da fita para o DVD e eu parei de ir. Ela fez o negócio resistir por mais alguns anos, mas com o tempo o hábito do consumidor de filmes mudou. A TV por assinatura já fazia estragos na atividade econômica das locadoras e a internet veio para sepultá-las de vez, a princípio com os torrents, depois com o streaming. Não achei tantos dados oficiais quanto gostaria sobre o tópico, mas de acordo com o IBGE, em oito anos se notou a tendência: em 2006, 82% dos municípios brasileiros tinham ao menos uma vídeo-locadora; em 2014, eram apenas 53% . Para sobreviver, muitas se diversificaram, oferecendo lanches, recarga de celular e outros serviços. Enquanto isso, os serviços de vídeo on demand, sob demanda, como Net Now e Netflix, hoje os dois principais, só cresceram. A Ancine, agência nacional do cinema, atualmente estuda como regulamentá-los.

Revendo hoje, foi realmente uma boa época, mas a arte é tecnológica e tecnologia só vai pra frente. Não dá para se sentir saudade das fitas VHS, da imagem e som bem limitados que elas tinham ou do fato de que elas estragavam facilmente. Não dá para se sentir falta do gasto com deslocamento e aporrinhação da devolução de fitas ou DVDs. Não quando se tem tantos conteúdos ao alcance de um clique em casa, seja na Netflix, na Amazon, no Net Now, na HBO GO, na Claro Vídeo ou o que quer que seja. A oportunidade de contato humano, de conversar com o atendente ou mais alguém na hora da escolha de um filme, também se perdeu. Mas o que se ganhou em termos de qualidade e comodidade superam essas pequenas perdas, em minha opinião.

Porém, por mais que eu reconheça que não há razão para saudosismo daquela época, uma coisa é certa: a locadora me deu uma cultura cinematográfica, me despertou a cinefilia. Esse foi um fenômeno da minha geração. Hoje, temos muitas opções, é verdade, mas não se pode construir uma cultura cinematográfica apenas com Netflix e Net Now. Eles são bons para se manter atualizado com a produção de hoje; mas quase não há clássicos ou obras mais cults no catálogo de ambos, e sem conhecer o passado e as obras-primas do cinema, não se pode formar um repertório cinéfilo, não se pode conhecer realmente a arte.

Felizmente, hoje há ferramentas para isso e o negócio é ir atrás, pessoal. Surpreendentemente, uma das maneiras mais eficazes é a boa e velha mídia física. Hoje em dia o mercado de mídia física no Brasil – e no mundo, aliás – se sustenta nem tanto com os grandes lançamentos, mas com selos especializados em lançar filmes mais cults e obscuros, e alguns clássicos ignorados pelos grandes estúdios. Estou falando da Versátil Home Vídeo no Brasil, e da Criterion Collection, Scream Factory, Arrow Video e várias outras nos Estados Unidos e resto do mundo. Aliás, a Criterion, que conta com o melhor acervo de filmes mundiais, tem seu próprio serviço de streaming nos EUA, o FilmStruck – uma coisa assim na terra do Michelzinho seria o sonho molhado de qualquer cinéfilo, o melhor dos dois mundos.

Enquanto isso… Nos EUA, chamou atenção recentemente uma matéria do site GeekWire sobre as últimas lojas ainda ativas da outrora gigante rede de locadoras Blockbuster. Por aqui, eu ainda tenho ficha na Take Vídeo, a última sobrevivente do mercado de videolocadoras em Manaus. Minha última ida lá foi no fim de 2016, para pegar uns títulos a fim de compilar minhas listinhas de fim de ano aqui para o Cine Set. Ainda gosto de ir lá, olhar as capinhas, os pôsteres… A loja está menor, e eu gostava daquele anexo tipo “caverna” que a Take costumava ter, onde ficavam os filmes de ação e terror, e até os pornôs. A loja mudou, mas sobrevive, com seu acervo de cerca de 35 mil DVDs e Blu-rays. Admiro a Take por se manter e, embora não tenha precisado, de vez em quando penso que seria bom ir lá. É quando sinto a pontada do saudosismo. Mas não vou porque comodidade é bom e eu adoro.

Porém este sou eu, pessoal, e repito: Não dá para se viver só de Netflix. Recomendo a todos os interessados em cinema a assistir ao máximo que puderem: se sentirem que a Take pode contribuir para isto, vão lá e sejam felizes, experimentem um pouco daquilo que as pessoas da minha geração viveram. As videolocadoras ainda existentes devem se manter, em boa medida, pelos seus acervos de clássicos e obras que não são tão fáceis de achar na internet. Em todo caso, entrar numa locadora hoje é como entrar numa máquina do tempo, e como Marty McFly nos mostrou naquele clássico da era do VHS, viajar no tempo tem seus encantos. Que o digam os saudosistas.

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