Quando Julia Leigh lançou “Beleza adormecida” (2011), ela contou com o apoio de uma importante realizadora de sua terra natal: Jane Campion. A “benção” da diretora de “O piano” (1993) gerou grandes expectativas para com a estréia de Leigh, uma vez que Campion conseguira o feito de colocar a Austrália no mapa quando concorreu ao Oscar nos anos 1990. Esse background todo foi uma dádiva e uma armadilha, pois, apesar de ter chamado a atenção para “Beleza adormecida”, ele ajudou a frustrar o que crítica e público esperavam do filme.

De fato, “Beleza adormecida” é um filme estranho, difícil de criar empatia tanto por conta de seu enredo insólito quanto pelas qualidades de sua protagonista. Na trama, Lucy (Emily Browning) trabalha incessantemente nos mais variados ramos, de garçonete até cobaia para experimentos farmacêuticos. A motivação da jovem é desconhecida, pois apesar de ela viver num ambiente modesto, não se melindra ao gastar dinheiro de maneira supérflua ou mesmo queimá-lo! Ela então arruma um emprego bizarro, no qual servirá de acompanhante para homens poderosos, mas sob uma condição: estará sedada durante todo o encontro.

Leigh traz um interessante paralelo com sua atividade anterior, a de escritora, ao roteirizar “Beleza adormecida” partindo do mesmo fio condutor que dois grandes livros: “Memórias de minhas putas tristes”, de Gabriel Garcia Márquez, e “A casa das belas adormecidas”, de Yasunari Kawabata. No entanto, a diretora parte do ponto de vista feminino, ao contrário dos livros, nos quais a narração é dada pelos homens que usufruem dos corpos dormentes. Ainda assim, ela não apostou em soluções fáceis para o espectador se identificar com sua protagonista.

A incompletude de diálogos e situações insiste em manter mente e desejos de Lucy distantes, ao passo que seu físico é exposto e molestado. O pouco de sua personalidade que se mostra tangível ao espectador serve apenas para expor que ela, apesar de pequena e aparentemente delicada, não é nenhuma princesa da Disney (ao qual o título ironicamente remete): ela bebe, consome drogas ilícitas e sente mais curiosidade que nojo de saber o que acontece durante os encontros que lhe rendem tanto dinheiro e nenhuma lembrança. Tais características provavelmente seriam mais bem digeridas ao público num jovem personagem masculino; numa jovem mulher, tamanha a ambição e desprendimento geram estranheza. Não por acaso, a profunda frieza de Lucy fora bastante criticada à época do lançamento de “Beleza adormecida”, isso num ano em que “Drive” trouxe o herói monossilábico interpretado por Ryan Gosling.

Sendo sua protagonista como é, Leigh poderia facilmente descambar o filme para discussões de empoderamento feminino ao permitir que Lucy fizesse o que lhe desse na telha com o próprio corpo. Mas isso também não interessou à diretora, tornando mais difícil ainda entender o que, de fato, “Beleza adormecida” quer dizer. Porém, o que para muitos foi considerado uma falha na condução da trama é justamente uma das características marcantes do filme: o não dar respostas prontas ao expressar um mundo em que se exige a jovens como Lucy e a velhotes como seus clientes a busca de prazeres e recompensas imediatas, como se nada tivesse conseqüência. Criticar negativamente essa faceta do filme é abrir a porteira para chamar um “Amor” de Michael Haneke, um “Um estranho no lago” de Alain Guiraudie ou um “Détruire, dit-elle” de Marguerite Duras de filmes “menores”, embora tais diretores tenham tido mais tempo e experiência para refinar seus estilos que a estreante Leigh.

“Beleza adormecida” também fora criticado pelos longos planos e fotografia focada em tons frios. Acusados por muito como “clichês”, essas características foram vistas como ferramentas para arrastar uma história que não dizia o que Lucy pretendia com seu estranho emprego. Nada mais equivocado, uma vez que a frieza expressa na visualidade casa perfeitamente com a frieza demonstrada pela personagem, assim como pelo ambiente que a cerca e que, de certa maneira, moldou-a de tal maneira. Verdade seja dita, alguns filmes valem a pena mais pela imersão de ambiente que ele propõe ao espectador ao sobrecarregar-se de estranhezas especialmente no plano visual, mas esse não chega a ser o caso de “Beleza adormecida”, pois sua trama instiga tanto quanto rompe expectativas.

É dessa maneira que “Beleza adormecida” merece uma revisita. Ainda que não seja livre de falhas, elas não são tão cabulosas quanto público e crítica fizeram parecer na época de seu lançamento, e certamente garantirá uma sessão mais interessante que muito filme em cartaz hoje.

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