ATENÇÃO: TEXTO CONTÉM SPOILERS
Rumo à Felicidade (Till glädje), 1950

Definido por Ingmar Bergman como um ‘melodrama impossível’, “Rumo à Felicidade”, roteiro original do sueco, narra a vida de um casal da ascensão ao declínio do relacionamento. Stig Eriksson (Olin) e Marta Olsson (Maj-Britt Nilsson), são dois violinistas integrantes da Orquestra de Helsingborg, colegas desde a academia de música, acabam se apaixonando. Marta fica grávida antes do casamento com Stig, apesar da fúria do músico pela possível interferência da gravidez na carreira, os dois se casam. Sem demora, a relação dos jovens é bombardeada pela infidelidade do marido, constantemente em conflito pessoal oriundo do fracasso como solista na orquestra. Entre separações e reconciliações, o destino tenebroso aniquila as chances de pleno recomeço do casal.

Inspirado pelas memórias dos concertos da pequena Orquestra da cidade portuária de Helsingborg, especificamente a execução da Nona Sinfonia de Beethoven pelos músicos, Ingmar teve a ideia para o filme. O título de “Rumo à Alegria”, o que se perdeu na tradução para o português, foi nomeado em razão do movimento final da sinfonia do alemão, cunhado de “Ode à Alegria”, brilhantemente orquestrado na abertura e fechamento do longa. Aliás, durante todo película o espectador é brindado com belíssimas sequências de concertos das obras de Beethoven e Mozart. Dono de íntima relação com a música, o trabalho é um manifesto interessante dessa paixão de Bergman.

No entanto, a música funciona como segundo plano para o desenvolvimento dos personagens. A frustração de Stig pela sua mediocridade enquanto músico, espelho do próprio entendimento do cineasta quanto a sua arte, provoca a ruína do único aspecto genuíno na vida do jovem, o casamento com Marta. Aos poucos Bergman expõe os demônios do protagonista, seus também, quanto sua eterna condição de comum, a qualidade mediana da sua arte. O tormento interno impulsiona o insucesso de tudo na vida dele. As relações com a esposa ou até mesmo a amante são fadadas ao fracasso pela personalidade egocêntrica do músico. É só com a compreensão do dever de continuar seu ofício, mesmo sem nunca atingir a genialidade, que leva Eriksson a buscar consertar seus erros com Marta.

A partir disso, o longa trabalha de certa forma o destino da mulher na sociedade patriarcal. A representação é um óbvio produto do contexto do período em que o filme foi feito, em todos os seus absurdos. Marta se culpa pela desgraça emocional de Stig ou até mesmo busca desculpar a atitude egoísta do marido quando ela entra em trabalho de parto. A naturalização típica dessas ações não deixa de permitir a existência de uma visão interessante de Bergman sobre o aspecto. O diretor parece se preocupar em enfatizar determinadas atitudes para facilitar um exame crítico, mais pelo espectador que pela execução da obra. As situações são feitas para desenvolver relacionamento complicado dos músicos, em contrapartida expõe um retrato da mulher. A questão é expressa em diversos momentos, especialmente na fala do maestro Söderby (Victor Sjöström) no início da película: “Nós temos uma mulher na orquestra. É um pouco tolo e contra a natureza. Mas ela é muito talentosa.”. Marta é excepcional no que faz, tanto que ela é a única na orquestra formada por homens. Mas logo após o casamento, a jovem abdica do sonho para seguir o que o matrimônio determina para a mulher.

Infelizmente, o desfecho desastroso dado aos personagens, a morte trágica de Maj ou a “epifania” de Stig quando o filho o assiste executar junto a orquestra a famosa sinfonia de Beethoven, tira força da possível interpretação crítica do longa. Ainda assim, o argumento de Bergman prospera em evidenciar as relações humanas, além da reflexão do próprio diretor sobre sua condição como artista. Ainda que só estivesse engatinhando, é um trabalho que demonstra muito bem a qualidade do cinema de Ingmar quando ele é autoral.


Isto Não Aconteceria Aqui
(Sånt Händer Inte Här), 1950

Ao longo da carreira, Ingmar Bergman sempre foi muito crítico dos próprios trabalhos, nunca poupou adjetivos negativos para falar daquilo que o desagradava na filmografia. Contudo, poucos filmes provocaram tamanha vergonha e aversão no diretor, “Isto Não Aconteceria Aqui” foi o primeiro.

Entre o fim dos anos 40 e início dos 50, a indústria do cinema sueca vivia um período turbulento com a implementação de altas taxas sobre produções fílmicas. Por essa razão, a Svensk Filmindustri teve a ideia de produzir um filme que garantisse retorno financeiro, além de sucesso internacional. A tacada contava em realizar um thriller de espionagem com a presença da atriz sueca Signe Hasso, carreira em ascensão em Hollywood. O roteiro baseado em um famoso romance da época ficou por conta de Herbert Grevenius, e Bergman assumiu a direção do longa.

O tiro não poderia ter saído mais pela culatra. A repulsa de Bergman ao suspense foi tão instantânea que antes mesmo de finalizar a primeira semana de desenvolvimento do projeto o diretor pediu seu cancelamento. Com a negativa dos executivos a produção continuou (ladeira a baixo). Nada colaborou para o sucesso do longa, o lançamento comercial foi um fracasso. A crítica especializada foi em sua maioria negativa, muitos consideraram o trabalho uma verdadeira piada.

Vera Irmelin (Signe Hasso), uma química envolvida em um grupo de rebeldes exilados com objetivo de resgatar outros nacionais da ditadura vivida no país fictício Liquidatzia. A mulher recebe a visita do seu ex-marido Aktä Natas (Ulf Palme), agente secreto integrante do regime totalitário, que veio a Suécia com o propósito de vender uma lista dos nomes de agentes infiltrados no país para Embaixada Americana. O encontro entre os dois acaba em uma tentativa de homicídio por Vera, depois de descobrir a falsa promessa do espião em libertar seus pais dos horrores do lugar de origem. Enquanto a polícia investiga o assassinato de um refugiado, o policial Björn Almkvist (Alf Kjellin) envolve-se na trama da amante Vera e do agente secreto Natas.

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De fato, o filme não possui tantos destaques. Construído nos moldes americanos, o longa tece uma alegoria política da União Soviética, mas que acaba caindo em propaganda política. A exceção é a direção de fotografia de Gunnar Fischer, parceiro de Bergman, e o papel de Signe. Ainda que abominado por Bergman, o trabalho de Fischer consegue estabelecer na sequência a tensão inerente ao gênero. O clima de mistério associado aos personagens dúbios é plenamente finalizado pelo sueco, que consegue remeter muito bem aos film-noir do cinema americano. Já a personagem Vera é o elemento que mais tem conexão com trabalho de Bergman, o “enfoque” no drama interior da protagonista revela bastante sobre a característica existencialista do cineasta.

O grande renegado na filmografia do mestre sueco pouco se relaciona com o resto dos seus trabalhos, porém não deixa de ser um interessante extrato da história de construção do diretor, além de destacar bem quais seriam seus interesses artísticos ao longo da carreira.

CURIOSIDADES 

  • “Isto Não Aconteceria Aqui” foi pouco comercializado depois do seu lançamento, posteriormente o próprio diretor proibiu a veiculação do filme. Mesmo com a sua morte, os produtores mantiveram o veto. Só recentemente o filme foi restaurado e esse ano exibido no Festival Ritrovato.
  • As filmagens de “Isto Não Aconteceria Aqui” foram desastrosas. Durante o processo, Bergman teve um bloqueio criativo logo nos primeiros quatro dias de execução do projeto. Depois, foi pego por um forte ataque de gripe e sinusite que o atormentou até o fim. Com humor sobre esse fato, o cineasta disse no livro Imagens se tratar da “sua própria alma resistindo ao filme”.

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