Conflitos familiares determinaram os desenvolvimentos da terceira temporada de Better Call Saul. Durante toda a temporada o que se vê são personagens entrando em confronto, ou em posições até perigosas, por causa das suas famílias ou das suas pessoas mais próximas. E, claro, a relação entre Jimmy McGill (Bob Odenkirk), futuro Saul Goodman, e seu irmão Chuck (Michael McKean) é levada ao limite nestes episódios. São dois irmãos que deviam se amar, mas infelizmente isso não acontece. Coisas de famílias… E afinal, não é por elas, ou em decorrência delas, que fazemos quase tudo o que fazemos, para o bem e para o mal?

Antes de abordar a relação Jimmy/Chuck, vamos ver os casos dos demais personagens. Esta terceira temporada foi um pouco mais badalada na imprensa por causa da chegada do inesquecível Gus Fring, que foi prometida no final do segundo ano. Pois bem… Depois de alguns anos impressionando os espectadores de Breaking Bad, Fring e seu intérprete Giancarlo Esposito chegam a Better Call Saul, a série prequel, graças às ações de Mike (Jonathan Banks). Quando encontramos Fring aqui, ele já é o gerente da rede de restaurante Pollos Hermanos e principal responsável pela distribuição das drogas do cartel de Juárez dentro do território do Novo México.

Crítica – “Better Call Saul” – Primeira Temporada

Mike, pouco a pouco, se vê adentrando a órbita desse homem aparentemente normal e super-calmo, cujo exterior esconde uma mente estrategista e com a qual não se brinca. E por que Mike, outro pragmático, faz isso? Por causa, sobretudo, da sua família. Ele sente que não tem escolha para lavar seu dinheiro e proporcionar uma boa vida para a sua nora e sua neta. E conhecendo o destino do personagem em Breaking Bad, sabemos como isso vai terminar para ele.

Gus Fring também já está em conflito com Don Hector Salamanca (Mark Margolis). Ao ser passado para trás pelo “homem dos frangos”, Don Hector começa a armar um esquema que coloca o jovem Nacho (Michael Mando) em rota de colisão com o chefão, também por motivos familiares. É fascinante ver como Nacho se torou, ao longo das temporadas, uma figura tão importante dentro do seriado, e a atuação de Mando é notável: deliberada, precisa e bastante interiorizada. É com Nacho que experimentamos o momento mais tenso da temporada no episódio 8, um envolvendo um frasco de comprimidos… Aliás, esta é mais uma temporada brilhante de televisão também do ponto de vista visual. Esta cena é conduzida quase sem diálogos, assim como a longa sessão de “espionagem” de Jimmy a serviço de Mike dentro do Pollos Hermanos no episódio 2. São longas cenas nas quais as imagens, os planos, a montagem, o som e os pontos de vista dos personagens são utilizados da forma mais cinematográfica possível para nos fazer sentir a tensão das situações. E há até uma grande homenagem ao clássico A Conversação (1974) de Coppola no episódio final…

Crítica – “Better Call Saul” – Segunda Temporada

E tensão é o que ocorre entre Jimmy e Chuck. O final da temporada anterior já indicava a explosão futura do relacionamento entre eles, e ela ocorre nesta, quando ambos se veem em lados opostos de um processo judicial. O confronto chega ao ápice no episódio 5, que provavelmente deve render indicações a prêmios importantes para Odenkirk e McKean. A história de Jimmy e Chuck é uma das pequenas tragédias que compõem a tragédia maior de Better Call Saul. Afinal, sabemos o que Jimmy vai se tornar: manipulador, cínico e vazio. Um dos pilares do Saul é o fato de o seu irmão, seu único familiar ainda vivo, ter entrado em guerra contra ele. Por motivos egoístas, afinal Chuck é controlador e só se vê como “o certo” da história. Mas, ao mesmo tempo, ele demonstra um conhecimento preciso da personalidade do irmão. “Você nunca vai mudar!”, diz Chuck a Jimmy, num momento chave da temporada.

Aliás, Chuck também é o pivô de outro momento importante da temporada, e que também tem um subtexto familiar. Ao longo da série vimos a relação quase paterna entre ele e Howard (Patrick Fabian). Por isso mesmo é um choque, e é também comovente, vermos o antipático Howard demonstrando ser superior a Chuck ao cuidar da firma de advocacia no episódio final.  Os personagens de Better Call Saul são tão bem concebidos, e os roteiros tão bem escritos, que a série consegue fazer essas reviravoltas de forma crível: Qualquer espectador das duas primeiras temporadas nunca esperaria se comover com figuras tão frias e antipáticas quanto Howard e Chuck, mas nesta temporada isso acontece de maneira fácil e orgânica.

O que nos traz de volta ao Jimmy. Nesta temporada vemos o nascimento de Saul Goodman (“It’s all good, man!”, é de onde vem o nome) em mais um esquema do protagonista. Quem diria, Saul nasceu como diretor amador de cinema numa espécie de caricatura do visual de Steven Spielberg.  Mas o fato é que Saul sempre esteve lá, dentro do nosso herói. Chuck pode ser um babaca orgulhoso e incapaz de amar o irmão, mas os episódios finais dão razão a ele ao vermos Jimmy usando algumas pessoas em seu benefício, e depois mudando de ideia. A esta altura da série, ele só tem a Kim (Rhea Seehorn) como esteio. Mas sabemos que em Breaking Bad, ela também terá sumido. Provavelmente o passo final na perdição de Jimmy McGill envolva perder sua outra família.

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