Noite Sem Fim, nova parceria do astro Liam Neeson com o diretor Jaume Collet-Serra, tem ares de tragédia quase shakespeariana. É uma história sobre como os pecados dos pais podem ter consequências sobre os filhos. Neeson vive Jimmy Conlon, um assassino da máfia irlandesa em Nova York. Conlon já viveu dias melhores e é quase um alcoólatra quando o filme começa – e logo cedo vemos um dos momentos mais emblemáticos da carreira atual do ator, quando ele, bêbado, é forçado a se vestir de Papai Noel para tentar divertir algumas crianças. Quem disse que Neeson, capaz de se reinventar como herói de ação na meia idade, não tem senso de humor?

Enfim… Conlon é amigo do gângster Shawn Maguire (o veterano Ed Harris), que hoje leva uma vida honesta. É então que a tragédia se abate sobre ambos os homens: naquela mesma noite, o filho de Jimmy, Mike (Joel Kinnaman), testemunha o filho de Shawn, Danny (Boyd Holbrook), assassinando alguns traficantes albaneses. Mike começa então a ser caçado por mafiosos e policiais corruptos, e apenas seu pai, com quem ele nunca teve um bom relacionamento, pode ajudá-lo.

No fim das contas, Noite Sem Fim acaba contando a mesma história de Estrada para Perdição (2002), filme de Sam Mendes meio esquecido hoje em dia (injustamente), apenas substituindo a ambientação dos anos 1930 para a época atual, a reflexão pela ação, e Tom Hanks pela versão herói bonzão de Liam Neeson. E há bastante ação: uma perseguição de carros muito boa, uma luta violenta num banheiro, tiroteios dentro de um prédio… Não falta nem o já obrigatório momento no qual Neeson ameaça alguém pelo telefone, tão comum nos seus filmes recentes desde o primeiro Busca Implacável (2008).

Collet-Serra aproveita o fato de a história ser contada no decorrer de 16 horas para injetar o máximo de dinamismo possível a ela. Às vezes esse dinamismo parece forçado: as transições de uma localidade para a outra, no qual a câmera sobrevoa a cidade, são frequentes e em alguns momentos parecem um efeito meio de videogame ou mesmo do Google Earth. A câmera está sempre em movimento e a montagem é bem rápida, às vezes até demais, especialmente no começo do filme. No entanto, apesar de toda essa movimentação, são as atuações de Neeson e Harris que trazem um pouco de substância ao filme.

É interessante notar como os personagens dos dois atores possuem justificativas para suas ações, deixando o tema da família muito forte dentro do filme. Tanto Conlon quanto Maguire agem do jeito que agem na história porque não foram bons pais. O primeiro viu seu filho se afastar desse mundo para iniciar carreira como boxeador, mas o incidente da história o traz de volta e ameaça a sua nova família. Já o segundo deixou o crime para trás, mas se vê forçado a voltar por um senso de culpa com relação ao comportamento do filho.

Neeson e Harris levam a sério seus papeis, a ponto do espectador acreditar que são amigos mesmo quando tentam matar um ao outro. Em comparação com eles, o resto do elenco não tem muito a fazer – a participação de outro veterano, Nick Nolte, este bem parecido com um Papai Noel de verdade, é meio desnecessária. Mas pelo menos o rapper Common se destaca em alguns momentos pela frieza do seu personagem, um assassino a mando de Maguire.

Apesar de haver genuíno drama aqui, trazido à tona pelas performances dos dois enrugados atores que encabeçam o elenco, no fim das contas o diretor Collet-Serra se contenta em fazer o óbvio. Ou seja, ocasionalmente esse drama dá lugar aos esperados momentos dedicados a mostrar Liam Neeson como herói de ação, uma verdadeira “máquina mortífera”. Pode-se considerar Noite Sem Fim até mesmo como repetitivo em relação a Busca Implacável – afinal, é mais um filme cuja moral pode ser resumida por “não mexa com a família do Liam Neeson”. Há diversão aqui e o filme é um bom entretenimento, mas a história é uma tragédia divertida, suavizada pelas sequências de ação. Mas quem pode culpar Neeson e Collet-Serra, quando até o próprio Shakespeare fazia algumas tragédias divertidas no seu tempo?

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