O Nome da Morte é um filme sobre o faroeste brasileiro. Na trama, o jovem Júlio, que vive sem perspectivas na fazenda da sua família perdida nos rincões do Brasil, é mandado para viver e trabalhar com seu tio, policial militar, na cidade grande. Porém, Júlio logo descobre qual o verdadeiro e mais lucrativo trabalho do seu tio: ele é pistoleiro de aluguel e coloca o rapaz para seguir o caminho do assassinato por dinheiro. Não demora muito e vemos Júlio matando uma pessoa, e outra, e mais outra… Um número na tela aparece de vez em quando contra um fundo preto, e esse número com o tempo vai ficando cada vez maior.

O filme do diretor Henrique Goldman – o mesmo de Jean Charles (2009) – é uma assustadora visão a respeito de um homem cuja vida é intimamente ligada com a morte. Júlio é o anti-herói por excelência: na superfície um homem amoroso e pacato, mas abaixo disso é uma pessoa profundamente assombrada por seus demônios, e incapaz de parar de matar, porque, afinal, as contas do dia-a-dia precisam ser pagas; seu filho precisa comer e estudar; sua família precisa de uma casa.

O brilhante trabalho de Marco Pigossi, estreante nas telonas, ancora o filme. Despertando a empatia do público desde o início, o ator nunca perde completamente a aura de inocência do início do filme. Tem uma característica ligeiramente infantil na interpretação dele, que amplifica a tragédia do seu personagem.

O trabalho de Pigossi é muito inteligente, assim como o do resto do elenco: Fabíula Nascimento se mostra sempre verdadeira ao encarar as mudanças pelas quais passa a sua personagem, e André Mattos consegue fazer do tio de Júlio uma figura ora assustadora, ora divertida, e sem dúvida seu personagem contribui para o senso de absurdo presente na história. Além deles, Mateus Nachtergaele torna um papel pequeno em algo memorável, dando vida à figura mais estranha e assustadora num filme onde há várias opções de escolha.

É também um filme muito bem dirigido e bastante visual. A inteligência da concepção visual se reflete em vários momentos, como a cena do início em que Júlio é mostrado em primeiro plano, isolado da família, ou a primeira cena em que o protagonista participa de um assassinato – a câmera o acompanha num plano contínuo e o momento de surpresa é tão forte para ele quanto para nós. Imagens como a de um corpo sendo levado pela correnteza, ou a aridez das paisagens das cenas iniciais, ficam na memória e despertam lembranças dos westerns norte-americanos. O filme também faz uso de elementos simbólicos, como a cor vermelha presente por toda a parte num dos cenários perto do final, ou a estrada vermelha vista rasgando as paisagens por onde Júlio persegue uma das suas vítimas. São simbolismos um pouco óbvios, mas mesmo assim bastante efetivos: a camisa vinho-escura feita de um tecido que aparenta ser “grudento”, que o protagonista usa perto do fim, traduz de forma visualmente perfeita o que aconteceu com ele após um dos saltos no tempo da história.

De certa forma, O Nome da Morte é mesmo um western. Já vimos várias história de pistoleiros e matadores de aluguel no cinema, principalmente via Hollywood. Porém, o que torna este filme assombroso – ele realmente é capaz de deixar o espectador com uma sensação inquietante após seu desfecho – é a brasilidade dos acontecimentos. Vivemos numa terra onde a violência é banal e a justiça raramente é feita. No Brasil, a história de um assassino de aluguel pode incluir momentos como uma cena com Júlio e sua família celebrando num culto evangélico, ou a cena em que um policial corrupto chega para falar com o protagonista dirigindo um carro de luxo que ele obviamente jamais poderia pagar com seu salário. Então, essa história fica mais assustadora aqui, adquire mais ressonância aqui, justamente pela proximidade, pela relação entre o civilizado e o incivilizado que existe no Brasil. É um western sem mocinhos, onde o cenário lembra o inferno, e onde um homem está completamente preso dentro de um dos círculos desta dimensão infernal. E por uma hora e quarenta minutos, ficamos presos lá com ele.

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