“Pensaram que eu tinha esquecido vocês?”, diz, olhando para a câmera, o agora Vice-Presidente dos Estados Unidos Francis Underwood, na cena final do primeiro episódio da segunda temporada de House of Cards. Sim, ele continua lançando seus comentários sarcásticos e ácidos na nossa direção, falando diretamente para o espectador e fazendo de nós seus cumplices. Até as suas abotoaduras, com as suas iniciais e enfocadas sobre a pia, representam uma brincadeira de duplo sentido, direcionada a quem está assistindo ao seriado.

O fato do protagonista da série quebrar a quarta parede, e nos dar acesso aos seus pensamentos e planos, é mais do que apenas um diferencial da série. Esses comentários também ajudam a expor o que House of Cards realmente é: uma visão cínica e fria da “lei da selva” dos bastidores do poder em Washington.

E Frank Underwood (interpretado por Kevin Spacey) é um dos mais vorazes animais dessa selva. Afinal, a série até o mostra como carnívoro, devorando as costeletas da churrascaria do seu amigo Freddy (Reg E. Cathey)… Como visto na primeira temporada, suas artimanhas acabaram levando-o “a apenas 1 metro” de distância do cargo de homem mais poderoso do mundo. Para que ele chegasse lá, porém, foi necessária a morte de um homem. A segunda temporada, disponibilizada na íntegra no Netflix (assim como a primeira), começa praticamente do ponto onde a anterior terminou. A morte de Peter Russo e as suas repercussões começam a ser examinadas pelo grupo de jornalistas liderado pela antiga aliada de Underwood, a repórter Zoe Barnes (Kate Mara).

Entretanto, os roteiristas de House of Cards deixam claro, logo no primeiro episódio, que a previsibilidade foi abolida dos enredos da série. O primeiro episódio conta com um momento-surpresa absolutamente chocante, que muda a dinâmica do seriado e abre novas possibilidades dramáticas.

Sob todos os aspectos, esta segunda temporada representou um avanço em relação à primeira. Um dos problemas do primeiro ano foi que as coisas deram muito certo para Underwood. Não havia um adversário forte para o protagonista e o espectador se limitava a acompanhar suas maquinações. Já o segundo ano tem como conflito principal a disputa entre Underwood e o milionário Raymond Tusk (Gerald McRaney, cuja presença em cena é poderosa). Ambos estão bastante próximos ao Presidente Walker (Michael Gill), e durante a temporada acompanhamos o jogo de xadrez entre Underwood e Tusk, cujo resultado determinará quem vai exercer maior influência sobre o líder da nação.

Tusk representa a força do poder econômico, e seus interesses na maioria das vezes determinam o curso da política. Já Underwood luta com as armas de que dispõe, especialmente sua incrível capacidade de manipular seus aliados – dentre os quais a nova líder da maioria do congresso, Jackie Sharp (a sempre ótima Molly Parker), é a mais importante. Enquanto isso, o braço direito de Underwood, o sombrio Doug Stamper (Michael Kelly), se esforça para manter as pontas soltas do caso Peter Russo sob controle, em especial a ex-garota de programa Rachel (Rachel Brosnahan), pela qual ele tem uma estranha afeição.

É por meio do duelo com Tusk que o espectador tem a oportunidade de ver Frank Underwood “suar” um pouco pela primeira vez no seriado. Isso humaniza o personagem, pois enfim o vemos numa posição de (quase) vulnerabilidade. Ao longo dos episódios, ele se arrisca e vê sua luta com Tusk ameaçar a presidência, e isso o força a pensar rápido – e também força os roteiristas a acelerarem os eventos, deixando o espectador meio sem fôlego nos episódios finais.

Spacey é cada vez mais dono do papel, a ponto de se tornar difícil imaginar outro ator que conseguisse reunir num só pacote a inteligência, o cinismo, o pragmatismo e o humor do personagem. Porém, mesmo ele não consegue contornar um problema que a série já apresentava no ano anterior: algumas vezes, as falas de Underwood direcionadas ao espectador parecem redundantes, uma forma de explicar novamente algum ponto que a audiência já compreendeu.

Por outro lado, os roteiristas conseguiram tornar Claire Underwood (Robin Wright), a esposa de Frank, numa figura mais interessante nesta temporada. Eventos do passado dela vêm à tona, e Robin Wright conseguiu sugerir, dentro da frieza da personagem, momentos de vulnerabilidade que também a deixaram mais humana. Aliás, um dos aspectos mais curiosos da série é a relação entre Claire e Frank. Ambos são completamente devotados um ao outro, mas qual é a natureza real do relacionamento? Quando um caso extraconjugal dela é descoberto, ele parece não se importar muito – a não ser pelo fato do caso se tornar público, claro. Já ela parece conhecer, e até apoiar, a escondida bissexualidade do marido… Definitivamente, os Underwoods são um casal diferente, e o mistério a respeito deles é uma das coisas que mantém os espectadores interessados em House of Cards.

Entre os grandes diálogos, momentos dramáticos e as belas atuações do elenco, alguns problemas atrapalharam o seriado. As intrigas políticas em alguns momentos ficam tão abstratas que esvaziam o interesse do publico – a tensão bélica entre EUA e China e a votação da aposentadoria são claros exemplos. Outras cenas meio absurdas também apareceram aqui e ali. Por exemplo, uma entrevistadora na TV pergunta a Claire sobre assuntos tão pessoais que a cena perde credibilidade (na vida real alguém realmente faria aquelas perguntas?).

Porém, felizmente são problemas pontuais que não chegam a prejudicar a temporada como um todo. A atriz Jodie Foster (amiga do cineasta David Fincher, produtor-executivo do seriado) dirige um dos episódios, o nono, justamente o melhor da temporada. É o momento mais humano de House of Cards até agora, no qual vemos como as intrigas políticas e maquinações de Frank Underwood afetam as pessoas à sua volta. Pessoas comuns e distantes do mundo politico de Washington, como Freddy, o dono do restaurante. Outros também veem suas vidas serem afetadas ou destruídas, como Rachel ou Lucas (Sebastian Arcelus), o repórter. Aliás, o desfecho da subtrama do repórter é puro House of Cards: nem seus amigos, que acreditam nele, se dispõem a ajudá-lo.

Porque, no fim das contas, no universo da série (e no nosso, também), é cada um por si. House of Cards não tem romantismos e, embora a série às vezes exagere em pintar quase todos os personagens como corruptos, ou no mínimo interesseiros, é difícil realmente discordar da visão de mundo de Frank Underwood ou acha-lo distante da nossa realidade. Ainda mais quando ele começa a falar para nós e o espectador começa a se sentir culpado por gostar de acompanhar as aventuras de um canalha.

Nota: 8,0

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