Em 2007, o diretor irlandês John Carney ganhou o mundo com seu drama musical Apenas Uma Vez, uma espécie de Antes do Amanhecer em que, ao invés de conversar, o casal canta por boa parte do tempo. Sete anos depois, Carney retorna a uma temática bem parecida com o recente Mesmo Se Nada Der Certo, que, em muitos momentos, dá até a impressão de que esse poderia ter sido o resultado de seu filme anterior se, anos atrás, o diretor tivesse conseguido um orçamento bem mais robusto e um elenco recheado de astros. Aparentemente, a coisa seria bem diferente, a julgar pelo fato de que o novo longa é uma experiência bem mais agradável que o outro, que, apesar dos elogios de boa parte da crítica, confesso achar bem entediante.

Mesmo Se Nada Der Certo, pelo contrário, possui um ritmo charmoso, que alia boas atuações a uma trilha sonora simpática. Equilibrando-se bem entre drama e comédia, é um daqueles filmes feitos para que o público saia da sessão com um sorriso no rosto, de preferência cantarolando as músicas da trilha.

Afinal, é a música que une os personagens do filme. Gretta (Keira Knightley) está na fossa, sozinha em Nova York, depois que seu namorado Dave (Adam Levine, também conhecido como vocalista do Maroon 5) se tornou um pop star e decidiu trocá-la pelo estrelato. Já Dan (Mark Ruffalo) é um produtor musical que acaba de ser demitido da gravadora que ele próprio ajudou a fundar, e ainda tem que lidar com a ex-mulher (Catherine Keener, quase se especializando no papel de mãe divorciada) e a filha adolescente (Hailee Steinfield). Uma noite, Dan vê Gretta cantando num bar, e de imediato percebe o talento da garota. É do encontro dos dois que surge a oportunidade de ambos se redescobrirem a partir da música, enquanto gravam um disco ao ar livre por pontos diferentes de Nova York.

Assim como já acontecia em Apenas Uma Vez, a trilha sonora tem um papel fundamental no decorrer do filme, e as canções falam tanto quanto os diálogos. Ao escutar Gretta cantando pela primeira vez, por exemplo, Dan não só nota o potencial da moça, mas se identifica com a letra. Em outra cena, a moça descobre a traição do ex-namorado a partir da música nova que ele apresenta a ela. Assim, canções são sempre utilizadas com a função de sublinhar as emoções dos personagens e revelar mais de suas personalidades, e em alguns momentos até evidenciar o que os mesmos não verbalizam. Aqui, os créditos das composições ficam por conta principalmente de Gregg Alexander (alguém lembra do New Radicals?), ao lado de outros colaboradores.

Para isso, felizmente, os atores também convencem em seus papéis como músicos. Knightley pode não ter a melhor voz do mundo, mas consegue dar conta dos vocais como se fosse uma Alanis Morissette de sotaque britânico e com uma postura de artista indie devotada à sua arte, mesmo que não tenha tanta confiança em si mesma. Colabora o fato de que a atriz tem uma excelente química em cena com Mark Ruffalo, que incorpora bem o papel de produtor. O roteiro e a direção de Carney também são essenciais para garantir a eficácia disso. Logo no primeiro ato, quando Dan vê Gretta assumindo o palco pela primeira vez, ele de imediato agrega mentalmente novos instrumentos e efeitos que transformam completamente a música, o que é traduzido para nós através de uma excelente cena em que uma banda invisível começa a tocar e acompanhar Gretta.

É essa ligação sincera com a música que Carney tanto reafirma em seu filme que dá mais brilho à trajetória dos personagens, a partir da relação pessoal de cada um deles com essa arte. É um tema que parece ser importante ao diretor, que ainda levanta, em certos momentos, discussões sobre o mercado atual do mundo da música e a relação do artista com sua obra. Para Carney, parece ser um erro se vender como o personagem de Adam Levine faz, por exemplo. Nesse sentido, a protagonista vivida por Knightley às vezes chega a ser a representação da musa ideal, que toca e compõe não porque quer simplesmente vender, mas sim porque sente a necessidade de se expressar por aquele meio.

Assim, Gretta e Dan entram numa jornada de autoconhecimento, e ainda que não se transformem ao final, eles passam a se compreender melhor. Também é curioso como o diretor constrói entre os dois personagens uma relação de cumplicidade que poderia se traduzir como amor, mas nunca se concretiza, pelo menos não fisicamente. No entanto, há uma troca de olhar mútua que diz muito mais do que um beijo – e, assim como em Apenas Uma Vez, Carney parece querer indicar que nem sempre “almas gêmeas” devem engatar um relacionamento amoroso, por várias circunstâncias. Às vezes, a amizade pode ser poderosa o suficiente.

Mesmo Se Nada Der Certo, com o perdão do trocadilho, dá certo (e muito) justamente por conta da simpatia que a trilha e o elenco em boa sintonia dão ao filme. Assim, ele se torna uma experiência com sua boa dose de encantos, que busca sempre chamar a atenção em mostrar como a música pode unir as pessoas – e, ao pôr isso em cena, criar esse elo com o próprio público.

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