Em mais um dia ruim para o cinema, neste 2014 que parece estar quebrando recordes de talentos perdidos, faleceu nesta quarta (19) o diretor americano Mike Nichols, de um infarto súbito em sua residência em Nova York. O cineasta tinha 83 anos e deixa mulher, filhos, e uma das carreira mais premiadas da chamada “New Hollywood”.

Nascido na Áustria, de uma família de origem russa, Nichols, ou Mikhail Igor Peschkowsky, como foi batizado, veio para a América aos oito anos de idade, em 1939. Cercado de intelectuais desde a infância, ele teve entre seus parentes o teórico anarquista Gustav Landauer e o físico Albert Einstein, que era seu primo distante.

De início, Nichols foi preparado para uma carreira na medicina, assim como o pai, mas a vocação falou mais alto. Nos anos 50, ele começou a atuar e dirigir peças, logo ganhando um status tão grande que, aos 32 anos, ele já tinha um prêmio Tony (o mais importante do teatro americano), além de integrar uma das duplas mais marcantes do stand-up comedy do país, a Nichols & May, com a atriz e escritora Elaine May.

Sua carreira no teatro e no cinema tem trabalhos antológicos, e ele se tornaria um dos raríssimos nomes a ganhar o “Big 4”, os quatro prêmios mais importantes do entretenimento nos Estados Unidos – Oscar, Tony, Emmy e Grammy. Infelizmente, para uma estrada de mais de 50 anos, o número de grandes obras é frustrantemente pequeno, sobretudo no cinema, mas ele fez filmes tão magníficos como A Primeira Noite de um Homem (1967) e Closer – Perto Demais (2004).

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Caio Pimenta – Closer

A fase nos cinemas não era nada boa: sem um grande sucesso desde “A Gaiola das Loucas” em 1996, Mike Nichols estava vivendo a decadência depois de trabalhos fracos como “Segredos do Poder” e “Uma Lição de Vida”. Eis que surge “Closer – Perto Demais” e o melhor do cineasta aflora de repente.

Afinal de contas, o drama traz elementos que consagraram o cineasta como trabalhar com atores talentosos (Jude Law e Julia Roberts), duas grandes revelações (Clive Owen e Natalie Portman) e os relacionamentos amorosos conturbados dos personagens dominando a trama.

Com direito a bela música de Damien Rice, “The Blower’s Daughter”, e diálogos marcantes, “Closer” guarda semelhanças com “Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?” e mostra como o talento de Nichols para explorar o elenco nunca se perdeu.

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Diego Bauer – Quem Tem Medo de Virginia Woolf?

É fascinante observar a maturidade de Mike Nichols já no seu primeiro filme, “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?”. Ele já surgiu pronto: a sua direção é fantástica, desenvolvendo com maestria a psicologia dos quatro personagens extremamente complexos. Não sobra, nem falta nada a este trabalho que é de dificílima condução. E aqui Nichols nos apresenta a uma de suas características mais destacadas: a direção de atores.

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Gabriel Oliveira – A Primeira Noite de Um Homem

Mike Nichols tinha um daqueles raros talentos de conseguir passear por diversos gêneros e em escalas diferentes, desde a comédia a dramas grandiosos e histórias mais simples. Seu segundo trabalho no cinema, A Primeira Noite de Um Homem é um belo exemplo dessa capacidade. A mistura de comédia e drama certeira de Nichols não só lhe rendeu o Oscar de Melhor Direção, mas também é reconhecida até hoje como o símbolo de uma geração em conflito com muitos dos ideais de seus pais.

Se a história dá certo, é principalmente pela habilidade de Nichols em conduzir a trama com simplicidade, com uma montagem habilidosa e um ritmo que revela aos poucos as complexidades e nuances de personagens que, de início, pareceriam superficiais. Benjamin Braddock (um então estreante Dustin Hoffman) como o jovem cheio de incertezas sobre o futuro, e Mrs. Robinson (imortalizada por Anne Bancroft) como a mulher que ousa a quebrar convenções e buscar se colocar como dona do próprio destino – e a cena da conversa dos dois no hotel é reveladora nesse sentido, e um dos melhores momentos de Bancroft na tela. O icônico final continua sendo a cereja no bolo, agridoce e cheio de significado, como raramente se vê em uma produção hollywoodiana. Adicione a isso The Sound of Silence de Simon & Garfunkel e voilà, temos um clássico.

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Ivanildo Pereira – Angels in America

Mike Nichols era um diretor genial, mas teve uma trajetória de altos e baixos. Parecia que ele mesmo não levava tão a sério a sua carreira e só fazia um grande filme quando realmente estava a fim. Por volta do fim dos anos 1990 estava fazendo filmes abaixo do seu talento e que qualquer outro poderia ter feito. Porém, justo quando ninguém dava mais nada por ele, Nichols ressurgiu ao se reinventar… na televisão!

A sua adaptação da peça teatral “Angels in America” do dramaturgo Tony Kushner foi um marco em sua carreira. Produzida pela HBO, a minissérie em dois capítulos resultou num trabalho maluco, épico e muitas vezes comovente sobre um grupo de personagens afetados pelo inicio da epidemia de AIDS nos Estados Unidos em 1985. Anjos aparecem, atores interpretam vários personagens e há cenários e efeitos visuais que ficam na memória de quem assiste.

E Nichols, cujo cacife ainda era alto entre os atores, reuniu no elenco Meryl Streep (Quantos personagens ela faz mesmo? Perdi a conta), Al Pacino, Emma Thompson, Jeffrey Wright, Mary Louise Parker (que nunca esteve melhor), Patrick Wilson, e os pouco conhecidos (porém inesquecíveis) Justin Kirk e Ben Shankman. “Angels in America” é um cult total, tão belo quanto estranho, e representou um dos últimos momentos de genialidade de Mike Nichols. Na minissérie ele deu tudo de si e mais um pouco, talvez porque achasse que poderia ser sua ultima chance de um grande trabalho.

Mas não foi – logo depois ele fez “Closer”…

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Susy Freitas – Lobo

“Lobo” (1994) surge como uma homenagem aos filmes B de Roger Corman. Porém, embora se relacione a um subgênero cinematográfico considerado menor, o filme apresenta numa embalagem de luxo, com grande diretor, elenco e até mesmo trilha sonora (de Ennio Morricone), além de ter uma breve relação com o universo yuppie já trabalhado por Nichols. Dessa maneira, valores como o foco na imagem de sucesso profissional e para o sexo oposto se misturam à figura mítica do selvagem lobisomem numa metáfora que pode não ser das mais elaboradas, mas que com certeza resulta curiosa e divertida.

No filme, um editor de livros interpretado por Jack Nicholson é mordido por um lobo e passa de típico loser a um homem comandado pelas características do animal, tendo seus sentidos aguçados e, de quebra, ficando bem mais sexy também. Michelle Pfeiffer, no auge da beleza, é o interesse amoroso que vaga entre romance e o perigo, enquanto que James Spader, pra variar, é o cínico vilão que adoramos odiar.

Pode ser um trabalho menor na filmografia de Nichols, mas pondo em perspectiva, ainda vale uma conferida.

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