Que a HBO é quase sempre certeza de qualidade em suas séries e telefilmes, isso todo mundo já sabe. Desde os anos de ouro com as elogiadas “Família Soprano”, “Angels in América” e “The Wire” até os dias atuais com “Westworld” e “Game of Thrones”, a Home Box Office sempre se mostrou à frente das concorrentes com produções ousadas e com apurado esmero técnico. Ainda que hajam os tropeços aqui e ali, não deixa de ser uma surpresa quando o canal entrega uma produção tão careta e esquecível quanto é “O Mago das Mentiras”, novo filme caça-Emmys da temporada.

O drama conta a história real de um caso de corrupção sem precedentes que tomou todos os noticiários do país após uma série de delações. Lendo assim, parece que a descrição é do que ocorre atualmente no Brasil, com as denúncias da Operação Lava Jato. Mas, não. Essa história data do início dos anos 1990 e tem como pano de fundo a Bolsa de Valores de Nova York e protagonista Bernie Madoff, cuja forma de atrair investidores por meio de pirâmide resultou em um dos maiores escândalos de fraude dos Estados Unidos.

Seria um plot irresistível para um David Fincher, um Mike Nichols (RIP) ou um Martin Scorsese, mas quem levou essa história para a telinha foi Barry Levinson, diretor de relativo sucesso nos anos 1980 e 1990, mas que já não entrega um bom trabalho há tempos.

Sem a leveza com que abordou as trapaças do poder em “Mera Coincidência” (1997), Levinson faz de “O Mago…” uma obra burocrática, que parece querer dublar “House of Cards” (notem a paleta de cores) ou “A Rede Social”, mas sem a elegância e o cinismo do já citado Fincher.

Muito disso se deve ao roteiro de John Burnham Schwartz e dos Sams Levinson e Baum, baseado no livro da jornalista Diana Henriques (interpretada pela própria no filme), que acompanhou de perto o calvário público de Madoff – e não, não há nenhum parentesco entre ela e a autora desse texto. A estrutura em flashbacks confunde o espectador, já que há pouca sutileza na montagem e na fotografia da produção. O filme fica mais interessante em sua segunda hora, que é quando os esquemas de Madoff começam a afetar a sua família, em especial, sua esposa, Ruth.

No piloto automático há duas décadas, Robert De Niro se desprende dos vovôs rabugentos do cinema para criar um patriarca sombrio, cuja dubiedade de comportamento é fundamental para o sucesso da história. Ainda que o roteiro e a direção comprometam, o ator mostra a sua genialidade sobretudo nos momentos mais silenciosos do filme (uma constante), e quando divide a cena com Michelle Pfeiffer, que interpreta Ruth com firmeza e explora cada momento de fragilidade de uma mulher que pensava ter tudo. O elenco principal tem ainda Hank Azaria, que rouba a cena no pouco que tem a fazer como o cúmplice de Madoff.

No final das contas, o elenco acaba sendo o grande atrativo de “O Mago das Mentiras”. A história de Madoff deve continuar aparecendo em filmes e minisséries – essa da HBO é a terceira produção televisiva sobre o caso em dois anos -, então o saldo final da produção capitaneada por Levinson é de um grande filme que nunca foi.

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