“Não temos tempo a perder”, diz Blake (Dean-Charles Chapman) para o amigo Schofield (George MacKay), companheiro da missão de salvar 1600 soldados britânicos de uma armadilha dos alemães no dia 6 de abril de 1917 durante a Primeira Guerra Mundial. Isso tudo em pouco menos de 24 horas. Esta frase resume bem “1917”: um épico filme de ação dirigido por Sam Mendes, gravado em longos plano-sequência pelo mestre Roger Deakins, concentrado nos perigosos desafios da missão dos dois rapazes.   

Como feito técnico, trata-se de uma das produções mais impecáveis vistas recentemente no cinema; uma excelência na direção, fotografia, montagem, design de produção, trilha sonora, figurino, maquiagem e efeitos visuais. Por outro lado, o assustador vazio de reflexão para se concentrar pura e simplesmente na execução, além de cair nos piores clichês do cinema de ação, incomodam demais para serem ignorados. 

Vindo do sucesso comercial da franquia James Bond em que realizou o excelente “Skyfall e o fraquinho “Spectre, Sam Mendes resolveu colocar em prática tudo o que aprendeu no cinema de ação, porém, aqui em uma escala mais ambiciosa e épica, impossível de ser vista mesmo em um blockbuster à la 007. Somente o início de “1917” antes do primeiro corte aparente já demonstra a magnitude do que será visto: Blake e Schofield iniciam um diálogo em um campo pacato para, logo em seguida, começarem a andar ao redor de colegas de batalhão até chegarem às trincheiras e, finalmente, ao local onde se encontra o General Erinmore (Colin Firth).  

Nisso, centenas de figurantes circulam em cena, todos devidamente trajados com os uniformes repletos dos mínimos detalhes; barreiras montadas com milhares de sacos e dezenas placas sinalizando as ‘ruas’ daquela região estão por todos os locais; e, claro, a incrível movimentação de câmera capaz de estar à frente ou atrás dos protagonistas em questões de segundos. Uma coreografia perfeita para fazer inveja a qualquer “Arca Russa”. 

A magnitude cresce à medida em que Blake e Schofield entram pelas linhas inimigas e Sam Mendes consegue construir uma atmosfera de tensão absurda pelo simples fato do perigo poder surgir a qualquer momento, em qualquer lugar, muitas vezes, sem um rosto temível para odiarmos. Da queda de um avião a uma fuga desesperada por uma cidade em ruínas ao pulo desesperado no meio do rio até as explosões em um campo aberto: o diretor premiado com um Oscar por “Beleza Americana” elabora sequências poderosas como poucos filmes de ação das dezenas produzidos em um ano em Hollywood são capazes de fazer. 

A opção pela escolha de filmar como se fosse um plano-sequência serve não apenas como um feito técnico brilhante por si só, mas, também por amplificar a urgência e os riscos envolvidos na missão.  A receita fica ainda mais completa conta com Roger Deakins na direção de fotografia: aqui, a impressionante versatilidade deste mestre contemporâneo faz “1917” poder ir dos mais diversos cenários e tipos de iluminação com a mesma unidade e excelência. A câmera que passeia pelos campos de batalha repleto de entulhos e corpos, passa por riachos e poços de lama, campos bucólicos até atingir o ápice na cidade tomada por fogo e sombras transporta o espectador para o inferno do conflito sem quase nos darmos conta do grau de dificuldade para transpor isso para a tela. Deakins é um daqueles casos que, quando você pensa que o auge já foi atingido, simplesmente se percebe que não vimos nada ainda. 

Em menor grau, mas, ainda sim, impactam o trabalho de efeitos visuais aliado à maquiagem na impressionante sequência da queda do avião e na morte de um personagem que vai ficando pálido subitamente diante de nós, a edição e mixagem de som dos impactantes tiros e bombas, além da já salientada direção de arte. 

AS ARMADILHAS DO CINEMA DE AÇÃO 

Por outro lado, há de se perguntar para que está a serviço tamanho apuro estético de “1917”. Afinal de contas, a produção favorita ao Oscar 2020 se mostra apática em qualquer tipo de reflexão sobre a guerra e seus agentes. Não temos o tom político de um Oliver Stone ou Coppola (“Platoon”, “Apocalypse Now”), os dilemas morais de um Milestone, Cimino, Kubrick ou até, vai lá, de um Spielberg (“Sem Novidade no Front”, “O Franco-Atirador”, “Nascido Para Matar”, “O Resgate do Soldado Ryan”), filosóficos/religiosos de Malick e Gibson (“Além da Linha Vermelha” e “Até o Último Homem”) ou mesmo satírico novamente de Kubrick (“Doutor Fantástico”). 

Escrito pelo próprio Sam Mendes e Krysty Wilson-Cairns, o roteiro obedece a cartilha dos filmes de ação, sendo construído a partir das sequências épicas de combate, luta e mistério. É um caminho válido, claro, mas, será suficiente para uma produção ambientada em uma guerra? Pode-se até colocar que todo o cenário trágico de destruição, corpos mutilados por todos os lugares, mortes de animais por motivos fúteis bastem por si só, mas, isso é visto em todo e qualquer filme ambientado na Primeira ou Segunda Guerra Mundial. Basta lembrar Wladyslaw Szpilman andando em uma gigantesca cidade toda em ruínas em “O Pianista”. 

A própria construção idealizada dos protagonistas ajuda a tirar a força da busca pelo maior realismo possível alcançado pela parte técnica de “1917”. Dispostos a tirar o inimigo de um avião em chamas ou atirando apenas depois de se tornarem alvos (e, às vezes, nem mesmo assim), Blake e Schofield parecem dotados de um código moral pouco verossímeis com aquele cenário de terror que os cerca, chegando ao cúmulo do patético quando um deles pede silêncio ao inimigo para não ter que matá-lo. Esse tipo de herói utópico pode até ser crível com um Tom Cruise dentro de um “Missão Impossível” em seu cenário de aventura completamente fora da realidade, mas, não como um padrão em um conflito na Primeira Guerra Mundial. 

Piora isso ainda mais não conhecermos quem realmente são os protagonistas. Quase nada deles é oferecido ao público para que nos envolvamos emocionalmente com a dupla ou como aquele conflito já os afetou. Por mais que Chapman e MacKay consigam ter uma boa química juntos, apenas nos solidarizamos por aqueles sujeitos pela verdadeira cilada em que se meteram. Sam Mendes e Wilson-Cairns também pecam com alguns ‘Deus Ex-Machina‘ para fazer a história andar no momento mais conveniente – quase um batalhão britânico inteiro surgir rapidamente do nada, dar carona para onde o protagonista justamente quer ir e ele seguir adiante sozinho com uma missão tão fundamental, sem contar com o auxílio de nenhum deste soldados é de doer. 

Já a trilha de Thomas Newman pode até ser favorita ao Oscar e muito bonita, mas, a utilização abusiva dela em momentos em que basta o silêncio salienta um dos maiores vícios do cinema de ação: a ‘necessidade’ de guiar o público através da música durante TODO filme. Chega a ser irritante como Sam Mendes não parece confiar no público ao colocar a trilha dentro de todo o momento dentro do caminhão. Não é à toa que um dos momentos mais impactantes de “1917” seja quando Schofield ajoelha aos prantos sem qualquer inserção musical; apenas a crença na força da imagem e do som ambiente. 

Com ecos de “O Regresso” na parte final, “1917” deixa um gosto dúbio: de fato, trata-se de uma conquista técnica impressionante e na execução perfeita de toda a equipe liderada por Sam Mendes, porém, fazer um filme de guerra não pode ser ‘apenas’ isso; precisa nos fazer refletir política e socialmente sobre os conflitos que são exibidos, da nossa degradação humana e moral. Não sendo isso, soa apenas um (belo) exercício estético. 

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