O favoritismo de “Três Anúncios Para Um Crime” não é novidade nenhuma: quatro Globos de Ouro, incluindo Melhor Drama, prêmio de Melhor Elenco no SAG e a vitória sem contestação no Bafta. Isso tudo coloca o filme do britânico Martin McDonagh em uma disputada acirrada pelos maiores prêmios da noite com o recordista de indicações no ano “A Forma da Água”.

Atuações de peso de nomes como Frances McDormand e Sam Rockwell com mais de 40 prêmios acumulados, adoração da crítica e imprensa especializada, o carisma da estrela do longa com seus discursos irreverentes, além da singularidade e força do enredo colaboram com a força de “Três Anúncios Para um Crime”.

Agora, o que faz essa obra tão especial? O que garante seu favoritismo?

TRAMA INSPIRADA EM PODEROSA HISTÓRIA REAL

Martin McDonagh revelou em entrevista ao site Screen Daily de onde surgiu a inspiração para a produção dirigida e escrita por ele. Durante uma viagem de ônibus pelo sul dos Estados Unidos, cerca de 20 anos atrás, Martin foi capturado por letreiros como os que a personagem de McDormand cria no longa.

O diretor contou que a mensagens de dor e raiva ficaram presas na sua mente e, mesmo não sendo capaz de descobrir quem era o responsável, tinha com ele que aquilo só poderia ter sido feito por uma mãe. Contou que, dessa certeza, estava formada a personagem Mildred Hayes, feita da bravura e mágoa transmitida por aqueles sinais que cruzaram o caminho do cineasta.

Diferente do que acreditou McDonagh, o drama é inspirado nos letreiros reais criados por James Fulton, o pai que teve a filha assassinada em Vidor, Texas. Em 1991, Kathy Page, 34 anos e mãe de duas meninas, foi estuprada e estrangulada até a morte na cidade em que vivia. O principal suspeito era o então marido dela, Steve Page.

O assassinato nunca foi levado à julgamento criminal e ninguém foi preso pelo crime, e, como no filme, a polícia local pareceu não estar interessada em resolver o caso – há suspeitas, inclusive, de que os responsáveis pelas investigações foram subornados.

Desde 1993, James Fulton paga por publicidade em outdoors de uma estrada interestadual em Vidor, cobrando e questionando atitudes da polícia, o tratamento do caso e o assassino de sua filha, exatamente como faz a personagem Mildred. Em entrevista ao Daily Mail, Fulton, hoje com 86 anos, insiste na culpa do ex-genro e afirma que vai continuar com as mensagens até o dia da sua morte.

PROTAGONISTA FEMININA DETERMINADA

Contrário à história real que serviu de inspiração para o longa, “Três Anúncios Para um Crime” coloca uma figura feminina no lugar do pai da jovem mulher assassinada no Texas, vivida pela igualmente forte Frances McDormand. A atriz vencedora do SAG, Globo de Ouro e Bafta pelo papel e favorita à estatueta do Oscar nesse ano revela que a escolha não é mero acaso.

Com campanhas como Time’s Up, discursos sobre a desigualdade salarial entre homens e mulheres, falas fortes sobre irmandade e a posição feminina no cinema (como da própria Frances no Globo de Ouro), além das denúncias sobre décadas de abuso sexual e moral de executivos, grandes nomes de Hollywood e do cinema mundial, o filme segue uma onda que está ditando novas regras (e oportunidades) no meio.

A personagem é tudo que esse momento venera: uma mulher forte que não teme qualquer personagem masculino pronto a impor seus privilégios. Mildred Hayes é uma mulher corajosa e determinada, que não demonstra medo e nem se cala diante dos problemas e das injustiças, apesar de se tornar vulnerável quando confrontada pelo relacionamento abusivo com o ex-marido. McDormand acredita que a sua personagem bloqueou alguns sentimentos comuns do luto, dando lugar à raiva e à frustração.

Mildred não chora “porque se você desaba em lágrimas toda a sua dor, você não precisa colocar fogo na delegacia”, explicou a atriz ao Entertainment Weekly. A atriz também confessou estar mais interessada em representar alguém distante da própria humanidade.

O sucesso do filme revela muito sobre o atual momento que a indústria do cinema e a sociedade americana vivem. Há um motivo pelo britânico McDonagh ter escolhido o interior do Missouri como contexto social para o longa: um lado dos EUA de valores conservadores, religiosos e pobre que se revela injusto e esquecido contraposto na frustração e determinação de Mildred em colocar a incompetência e corrupção da polícia às claras, além de tocar nas feridas racistas do país.

Tudo que Hayes faz é por buscar justiça com o intuito de não ver o crime cometido contra a própria filha cair na impunidade. Há urgência pelo tempo jogar contra as investigações, mas nunca se calar e nem levar desaforos para casa, semelhante a própria atriz que a interpreta e tantas outras mulheres.

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