É inegável que há um bom tempo a produção cinematográfica amazonense é muito mais do que vídeos de um minuto que tentam contar piadas ou “causos” do dia-a-dia caboclo. Os Vernissages de Cinema realizados no Cineteatro Guarany e o próprio Amazonas Film Festival já mostraram ao público muitos trabalhos e realizadores locais que conseguiram atingir um nível profissional de domínio técnico e, se não todos, alguns que conseguem aliar essa competência com a condução de boas tramas. Trabalhos como “Parente”, “A Última do Tambor”, “Jardim de Percevejos”, “A Segunda Balada” e “Germes” são exemplares dignos que representam esse salto de qualidade esperado para o audiovisual amazonense.

Levando em conta esse cenário, o Cine Set busca não adotar uma postura paternalista que ignore isso, o que seria injusto até mesmo com outros trabalhos que enfrentaram as mesmas dificuldades de realização, mas conseguiram superá-las e obter melhores resultados. Não que a análise aqui feita se considere como uma verdade absoluta; pelo contrário, a intenção é justamente pôr em discussão os filmes, sem desqualificar ninguém, a fim de colaborar para o avanço do cinema amazonense. O que se espera é ver o cinema sendo considerado como uma arte e um fazer sério, e que necessita ser tratado como tal.

Pamela, com Dina Silva

Não se sabe exatamente o que Pamela pretende ser: depois de um começo que nos apresenta uma perseguição em plano-sequência, espera-se ver o desenrolar de um suspense em cena, mas o que se segue não envereda por esse caminho. Ao mesmo tempo, nem como drama ou terror, o filme consegue se estabelecer melhor; falta sensibilidade à construção dos gêneros e o que se vê na tela é apenas uma sucessão de erros.

A história é a da protagonista que dá título ao filme, Pamela, interpretada por Dina Silva, uma jovem que se apaixona por um homem que conhece numa praça. Os dois logo se casam, mas o que ela não imagina é que o marido é um psicopata que a agredirá de diversas formas – e, assim, Tony Lee Jr. e Dina, também responsável pelo roteiro, procuram levantar a bandeira contra a violência doméstica.

Em muitos momentos, Tony Lee quer atingir essa mensagem através do choque no espectador, levando-o a acreditar no horror de viver uma situação como essa, mas o resultado acaba causando apenas o riso involuntário, mesmo em momentos que deveriam ser dramáticos, como uma cena de estupro. Problema de parte do público, talvez, que ainda não consegue lidar com a nudez dos personagens, mas problema maior ainda da produção, incapaz de dar veracidade ao que se propõe.

Pamela dá adeus a qualquer indício de naturalidade em cena: as atuações não convencem, exceto, talvez, as da mãe e do tio da protagonista, que conseguem ainda fazer um trabalho razoavelmente regular, ainda que bastante caricatural. A protagonista e o “vilão” também não tornam seus personagens mais críveis, e nem mesmo juntos conseguem criar o clima de romance necessário no começo da trama. Os diálogos pouco inspirados não colaboram nesse sentido, além do número impressionante de situações forçadas do roteiro – é difícil acreditar em um suposto relacionamento que começa com um homem que, do nada, pede para tirar uma foto com uma completa desconhecida.

Apesar de todo esforço, Tony Lee erra ao manter sempre a câmera na mão, filmando as cenas sem cortes e sem estabelecer um critério de enquadramento. O zoom indiscriminado, por exemplo, torna difícil a compreensão do que se passa na tela, nos deixando ver o nariz ou a boca dos personagens ou até o detalhe da blusa, enquanto a câmera passeia completamente sem rumo pela cena. A captação de som também não se sai melhor, com vários momentos em que o áudio se mostra simplesmente cortado.

Outras falhas estão na montagem que se excede a todo momento nas paisagens panorâmicas de Manaus para estabelecer passagens de tempo e na trilha dramática mantida em tom ininterrupto. Por todos estes problemas, acompanhar Pamela se torna uma tarefa árdua.

H.O.M.O.F.O.B.I.A., com Paco Júnior

Com basicamente os mesmos problemas vistos em Pamela, H.O.M.O.F.O.B.I.A. talvez consiga se sair um pouco melhor – o que também não quer dizer muita coisa.

Baseado em um conto de Paco Júnior, que também interpreta o protagonista, o filme conta a trajetória de Antônio, um rapaz que, depois de contar aos pais que é gay, se vê expulso de casa e, sem ter pra onde ir, acaba caindo no submundo da prostituição. A intenção aqui é levantar a bandeira contra os males da homofobia, mensagem clara e tão necessária quanto a anterior, mas tão desperdiçada quanto no filme.

A mesma série de diálogos fracos aqui se repete, com direito a falas como “sua coisa insignificante”. As atuações continuam no mesmo patamar que as de Pamela, com destaque para alguns personagens, como o “vilãozinho” que Antônio encontra na casa de prostituição em que vai parar (ou “casa de putaria”, como a dona faz questão de enfatizar). A câmera, embora um pouco mais estável, volta a mostrar inabilidade em montar uma cena com planos diferentes, com cortes. Me pergunto até se isso faria parte da “proposta imagética” do filme, como alguém levantou no debate seguido da exibição, mas, se realmente era, é difícil de acreditar. Ou talvez eu realmente não tenha compreendido.

A montagem, tão desencontrada quanto a de Pamela, pelo menos não faz uso de imagens de arquivo indiscriminadas. Na verdade, a tática utilizada aqui é rechear o filme com letreiros que situam cronologicamente a história, para acreditarmos que absolutamente tudo se deu em três meses.

Outro problema é a trilha sonora onipresente, que se impõe na tentativa de atribuir maior dramaticidade às cenas, mas só consegue irritar e ser o mais didática possível. Além disso, H.O.M.O.F.O.B.I.A. ainda adota a estratégia de usar uma narração em off que nada acrescenta ao que se vê e surge completamente deslocada, prejudicada também pelos óbvios problemas de captação e dicção, que até dificultam a compreensão do texto.

No mais, há um adendo a fazer sobre o filme: por mais louvável que seja se posicionar contra a homofobia em tempos que as pessoas parecem se mostrar cada vez mais intolerantes, é preciso tomar cuidado com certas afirmações que surgem em cena e que só colaboram para reafirmar clichês em torno da homossexualidade, ainda que involuntariamente. É o caso de momentos em que o protagonista atribui sua sexualidade à consequência da ausência do pai, por exemplo, ou até mesmo a uma falha genética. Num roteiro melhor construído, talvez essa discussão pudesse ser incluída de forma mais orgânica.

Contando com um final que escancara nada sutilmente a moral do filme, H.O.M.O.F.O.B.I.A., assim como Pamela, se revela um projeto bem-intencionado, mas prejudicado pelas deficiências técnicas e criativas.

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