Originalmente apresentada como uma minissérie, “The Sinner” consegue chegar à segunda temporada após a boa aceitação por parte do público. A história, entretanto, é outra e deixa de lado grande parte da narrativa anterior, aproveitando poucos elementos na continuação. Ao introduzir novos personagens e problemáticas, a produção do showrunner Derek Simonds revela tímidos progressos conceituais que contribuem com a descoberta de sua identidade como uma série antológica, porém, apresenta defeitos que não existiam anteriormente, regredindo em elementos como a construção de personagens ou de um suspense policial cativante, algo alcançado no primeiro ano.

Desta vez, Cora Tannetti (Jessica Biel) é apenas uma lembrança distante para o detetive Harry Ambrose (Bill Pullman), designado a desvendar mais um crime hediondo ocorrido em uma comunidade aparentemente pacata. Quando o adolescente de 13 anos, Julian Walker (Elisha Henig), assume ter matado um casal de adultos, Ambrose e a detetive Heather Novack (Natalie Paul) iniciam uma busca pela verdade que releva segredos sobre outros personagens. Como esperado pelo público cativo, a investigação resulta em descobertas nada agradáveis, com direito a questionamentos e reflexões sobre a natureza do ser humano.

Utilizado como ponto de referência e ligação com a temporada anterior, Ambrose é um dos elementos positivos aproveitados pela segunda parte do seriado. O detetive já apresentava um enorme potencial devido a construção instigante e, agora, temos a oportunidade de saber mais sobre a vida do personagem à medida que ele conhece o culpado pelo crime. Novack também assume uma presença muito importante para a história, conseguindo ser inserida com louvor no cenário proposto pela produção.

Além de criar a parceria entre os dois investigadores, Novack é apresentada como uma personagem lésbica, sendo interpretada de forma impecável por Natalie Paul. Todas as lembranças que reforçam a história e traumas da personagem mostram uma clara diferença entre as duas linhas temporais dela e como sua evolução ocorreu a partir dos dramas que enfrentou. Esta demonstração é feita principalmente por meio de flashbacks que, apesar de muito úteis e bem intencionados, acabam cortando o ritmo intenso proposto para a investigação na série, tornando-se um elemento bem repetitivo.

Ainda entre os fatores dignos de elogios, a direção de fotografia acerta ao adotar ângulos exageradamente sugestivos. Dentre a narrativa de investigação e consecutivos plot twists, os movimentos da câmera são ótimas pistas para os passos seguintes da trama, fator que também ajuda no entendimento do público, até porque, desta vez, a montagem da série adotou escolhas menos insinuantes para os episódios. Ao determinar o ritmo da história, a edição apresentou uma decaída em relação ao ano anterior: além da exagerada presença de flashbacks, muitas cenas com diálogos explicativos se prolongam por vários minutos enquanto ações como um assassinato possuem um tempo mínimo, ocorrendo sem a carga dramática necessária. Neste ponto, o roteiro também tornou-se responsável por cenas elucidativas, com personagens justificando toda história, o que antes era descoberto a partir de sua protagonista.

O roteiro da série também deixa Julian, peça central da trama, afastado de diversas descobertas importantes, situação que desfaz todo o mistério gerado em torno dele. O primeiro capítulo inicia com o questionamento de como alguém com 13 anos poderia realizar um duplo homicídio; ao encontrar o detetive Ambrose, Julian passa a ser questionado sobre sua criação, levando a investigação até sua mãe, Vera Walker (Carrie Coon), a qual rouba grande tempo em tela do protagonista. Aliado da montagem, cenas da personagem explicando os mistérios impostos pela narrativa tornam-se uma constante enquanto seu filho fica em segundo plano até ser lembrado nos capítulos finais, com poucas aparições e relevância para o desfecho da história.

Assim, toda construção e importância de questionar Cora na primeira temporada, é deixada de lado na nova fase do seriado, porém, Julian e outras figuras ajudam a reforçar uma temática decorrente na série: a natureza humana. A construção de valores pessoais, caráter e influências socioculturais são fatores constantemente questionados na trama a partir das atitudes e descobertas sobre seus personagens.

Por mais que algumas escolhas para exemplificar isto possam parecer forçadas, como o final revelador sobre Jack Novack (Tracy Letts), pai de Heather, isto reforça o teor da produção para futuras temporadas, resultando em uma proposta de conteúdo e direcionamento de público-alvo.

Estas questões estão presentes desde os primeiros momentos da série, a qual apresenta sempre protagonistas homicidas, porém, que também são vítimas de algum trauma. Assim, as atitudes desumanas são compreendidas conforme o passado é revelado e como o cotidiano ou acontecimentos isolados influenciaram na ação do assassinato. Esta coesão sobre os personagens principais cria uma narrativa própria e um fator de destaque dentre outras produções do gênero policial. Além disso, os antagonistas também possuem a integridade questionada, permanecendo outra característica constante durante toda temporada.

Mesmo com avanços sobre o conceito que pretende defender, ‘The Sinner’ ainda demonstra dificuldades para se consolidar. Neste sentido, o principal inconveniente ocorre em aspectos que foram valorizados na primeira temporada e deixados de lado este ano, como a montagem e até mesmo uma trilha sonora mais presente. Muitas escolhas do roteiro buscam aproximar-se da narrativa traçada para a série, porém, alguns pontos passam a repetir cenas, copiando ideias do que já foi visto na própria série. A falta de ritmo volta a assombrar o seriado com um desfecho que poderia causar maior impacto no público se não fosse realizado de forma tão apressada, com o acúmulo de respostas para o último capítulo.

Desta vez, a solução do mistério é mais simples que anteriormente, quando pistas sonoras e cenas curtas eram cruciais para o entendimento, porém nem sempre a simplicidade é a melhor opção.

Em ‘The Sinner’, definitivamente, não foi.

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