Trago como objeto de nossa observação nesta coluna o pontapé inicial na carreira de um dos maiores e mais bem sucedidos diretores da história do cinema, Stanley Kubrick. O realizador foi, antes de qualquer coisa, um profundo pesquisador. Ele estudava arduamente antes de fazer um filme, mas seu início foi difícil e penoso como todo princípio de vida artística.

Medo e Desejo (1953) abre alas para esta que viria a se tornar, anos mais tarde, uma das filmografias mais interessantes e instigantes do mundo. Quatro soldados sofrem uma queda de avião em terras inimigas e a luta para sobreviver e lidar com os percalços do caminho vai aumentando a passo que personagens surgem e acontecimentos estranhos passam a tomar conta da mente deles, mais especificamente de Sgt. Mac, vivido pelo ator jamaicano Frank Silvera. Este ator, mais tarde, viria a fazer outro filme com o diretor, A Morte Passou Por Perto (1955).

Este é o primeiro filme de Stanley Kubrick que, mesmo com dificuldades orçamentárias, reuniu uma pequena equipe, de aproximadamente 15 pessoas, para filmar este que não é, nem de perto, semelhante às obras que o consagraram, no entanto, me atenho aqui a observar alguns pontos que, eu considero, interessantes.

O diretor contou com a ajuda de familiares para realizar o filme e o orçamento original girou em torno de US$ 10.000. Do ponto de vista das atuações, o elenco não compromete, mas Kubrick, sendo um perfeccionista de plantão, talvez Paul Mazursky, Virginia Leith e Kenneth Harp tivessem recebido instruções mais severas se ele aqui já fosse o consagrado e maduro diretor, conhecido por seu temperamento difícil e muito exigente para com sua equipe.

 SONS DA INSANIDADE

É possível já observar um interesse do realizador pela loucura, pela insanidade. O roteiro tem a assinatura dele e de seu amigo de classe, Howard Sackler. Utilizando uma personagem que sucumbe diante de uma determinada situação e muda seu destino ele brinca com os espectadores num jogo fantasia vs realidade. Percebe-se também como Kubrick experimentou, diversas vezes, o ‘close’. Achei que ele usou até demais, mas quando penso que sem necessidade me ocorre que ele poderia estar experimentando, abusando da técnica, não sei. Suponho apenas. Como disse, ele mais tarde viria a se tornar muito exigente e criterioso com seus trabalhos, mas aqui estava lidando com o que podia, da maneira que lhe cabia.

“Medo e Desejo” é filmado em preto e branco, mas com paisagens lindas, uma fotografia muito singular e rica em natureza, contrastando com o tema, mas sem nenhuma referência iminente dos clichês que estamos acostumados dentro do gênero. Deve-se à experiência e o alto conhecimento de Kubrick como fotógrafo de uma revista chamada Look. Aqui já me chama muito a atenção a fotografia e, sim, a luz, muito bem arquitetada como em uma das cenas finais, por exemplo.

O enredo é simples, as interpretações não são o forte, o filme em si é curto e não chega a ser surpreendente, não tem, digamos assim, a digital de Kubrick, mas vale muito assistir. Ele trazia nessa época a experiência de apenas dois documentários de curta-metragens, Day of the Fight (1951) e Flying Padre (1951) e quando a gente assiste um Laranja Mecânica (1971), um O Iluminado (1980) da vida, notamos o considerável crescimento do realizador. Stanley Kubrick mesmo não gostou do resultado do filme e agiu para tirá-lo de circulação, por isso esse seja um filme ‘raro’, mas de um todo essa ideia de extinção não deu certo; ainda bem!

Para quem queria fazer um filme mudo, Medo e Desejo (1953) diz muito, valendo-se de sons, ruídos e música, para retratar as agruras humanas de pessoas que vivem dentro de seus próprios limites de sanidade.

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Quem dirigiu esse filme mesmo?

Quando estou numa roda de amigos, por exemplo, e alguém me pergunta o que eu acho sobre os filmes do Stanley Kubrick, logo me vem à mente os seus clássicos: Laranja Mecânica (1971), O Iluminado (1980), 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968), mas foram só esses mesmo que...