No último dia 21 de dezembro fez 40 anos da morte de um dos maiores dramaturgos brasileiros, Nelson Falcão Rodrigues. Ácido e feroz em sua escrita, o jornalista deixou um riquíssimo legado literário que ao passo em que é estudado e pesquisado descobre-se, sempre, o quanto esse autor ainda é relevante e atual. Dizer isso parece insólito? Olhe para o próprio país, abra o jornal de sua cidade; certamente lá estará alguma notícia de que algum político foi desonesto, de que alguma mulher foi vítima de violência ou algum assassinato ficou sem resolução. Tudo isto lhe parece familiar? Pois Nelson Rodrigues retratava o Brasil de sua época e que, infelizmente, ao longo dos anos, parece não ter mudado muita coisa. 

Crônicas, textos, peças, o autor percorreu muitas searas da escrita, falou sobre futebol, criou heterônimos, desafiou Freud, Marx e, por que não dizer, Otto Lara Resende. Nelson foi, e ainda é, um grande provocador. Promoveu a ira de tudo e todos com uma obra que deflagra a alma de um país machucado por corrupção, desigualdade e injustiças. 

Suas 17 peças teatrais receberam diversas montagens e adaptações para o cinema. Cito aqui filmes que tiveram enorme requinte e cuidado quanto a fidedignidade com suas peças como Boca de Ouro (1963), A Falecida (1965) que foi o primeiro filme da grande atriz Fernanda Montenegro, Toda Nudez Será Castigada (1973), Vestido de Noiva (2006), entre outros grandes filmes. 

Entre estes considero O Beijo No Asfalto (2017), do diretor Murilo Benício, um excelente exemplo sobre como transpôr uma peça de teatro para o cinema. Levemos aqui em consideração que ambas linguagens possuem suas especificidades e características. 

TEATRO FILMADO

 

O que me cativa neste filme, em especial, é o formato artístico e metalinguístico do qual o diretor se propõe, pois mistura leitura de mesa, teatro, cinema, ensaio, momentos de reflexão sobre o texto, sobre o autor, sobre o sentido das palavras e, absolutamente, nenhuma frase a mais ou a menos. Tudo é realizado de modo absolutamente cirúrgico. As pausas, a respiração, o olhar, o tempo, a entonação, tudo é milimetricamente sentido. 

Este é, essencialmente, um teatro filmado, mas valendo-se de muitos recursos que fazem com que o espectador acompanhe em ‘tempo real’ o processo do ator, a linha cronológica de evolução da história, contada através de um estilo inovador e cru. Podemos presenciar como as atrizes ensaiam enquanto se arrumam no camarim, outros dois atores batendo o texto enquanto decoram. Por vezes, temos a impressão de estar junto com o elenco sob a perspectiva de quem circunda a mesa de leitura, de que está por trás das câmeras e essa pegada de como se estivéssemos assistindo ao making-off ao mesmo tempo do filme. Ele é todo ambientado nos bastidores e tem tons de documentário, pois, elucida diversas passagens históricas ao passo que uma construção poética é realizada. 

Em uma entrevista, o diretor Murilo Benício disse que não teria muitos recursos para criar uma ambientação de época e, por isso, decidiu, de uma maneira simples e inteligente, criar uma fotografia toda em preto e branco nos transportando para a época em que a trama se passa. O filme tem fotografia e câmera de Walter Carvalho, ABC e uma linda canção de Caetano Veloso, A Vida é Ruim, divinamente interpretada por Ney Matogrosso. 

NELSON EM AÇÃO

 

A trama se passa no início da década de 1960, Rio de Janeiro, um acidente na Praça da Bandeira, um homem é ferido, pessoas se juntam no entorno, ele desfalece e pede a um cidadão que se aproxima, um último desejo, um beijo. Nisso, um delegado de caráter absolutamente duvidoso, corrupto, e um jornalista sensacionalista se unem para abafar um antigo caso de agressão e fazer deste caso “uma bomba”, algo que hoje conhecemos como ‘Fake News’ para desviar a atenção da mídia, da população e incriminar uma pessoa aleatória. 

Diferente das duas adaptações anteriores, O Beijo (1964) de Flávio Tambellini e O Beijo no Asfalto (1981) de Bruno Barreto, este é um Nelson Rodrigues na íntegra. Nenhuma passagem foi alterada ou adaptada. Benício teve o cuidado e atenção de se ater na complexidade e na profundidade da palavra, que na obra do Nelson tem muita importância. Para isso Amir Haddad, diretor do grupo de teatro ‘Tá Na Rua’, assume o papel de ‘diretor da peça’ que está sendo lida. Fernanda Montenegro está no filme de uma maneira jamais vista: talvez este seja o único registro da atriz em cena e lendo numa produção de cinema. Na história, ela também contribui com comentários da época em que conheceu Nelson e como foi aquele e esse processo de trabalho. 

No papel do Arandir, homem que recebe as mais cruéis acusações ao longo da peça, está Lázaro Ramos numa interpretação própria, singular. Se na versão cinematográfica de 1981 do diretor Bruno Barreto, o ator Ney Latorraca deu luz a toda ambiguidade que a personagem solicita, Lázaro trouxe um ar forte e intenso para a personagem que reforçou a ideia de que ele (Arandir), na verdade, é inocente de absolutamente tudo o que é acusado. Ator maravilhoso! 

Stênio Garcia como Aprigio também dá um show de interpretação em uma de suas melhores performances. Quem lê meus textos sabe que eu acho que quanto mais velhos ficam os atores e atrizes muito melhor seus desempenhos. Ele está soberano, em sua melhor fase, vê-lo em cena é ver o Nelson em ação. Débora Falabella como Selminha também está ótima, visceral e atenta, seu processo de criação surge diante dos olhos dos espectadores de uma maneira encantadora. O elenco ainda conta com uma participação de luxo de Amir Haddad como maestro, entoando a figura de diretor do espetáculo que se forma, ambos magistrais. Também estão Otávio Müller, Luiza Tiso, Augusto Madeira e Marcelo Flores. 

Filme excelente!

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