Na história do cinema, isso sempre aconteceu: um filme de certo gênero aparece, traz alguma inovação ou inaugura uma tendência, faz sucesso e, por algum tempo, vira o padrão dentro deste gênero. Tubarão (1975) deu origem a um subgênero de filmes abilolados de tubarões que persiste até hoje. As imitações de Star Wars (1977) são numerosas demais para se contar. Na década passada, vários astros de Hollywood de certa idade quiseram fazer o seu Busca Implacável (2008): Denzel Washington com O Protetor (2014), Kevin Costner com 3 Dias para Matar (2013) e Sean Penn com O Franco Atirador (2015) foram alguns que seguiram a trilha aberta por Liam Neeson. E eles convenciam como heróis de ação porque a câmera tremia tanto e a montagem era tão frenética que ninguém percebia que eles não lutavam nada.

Agora, o padrão dentro do cinema de ação hollywoodiano passou a ser John Wick: De Volta ao Jogo (2014). E uma coisa interessante aconteceu: pegando emprestado do despretensioso sucesso estrelado por Keanu Reeves, o gênero deu uma guinada de volta ao básico, e para melhor. A “shaky-cam”, aquela câmera epilética popularizada pela franquia Bourne, passou a ser mal vista. E hoje em dia, o público espera que os astros, com a ajuda de seus dublês, convençam mesmo nas cenas de ação. É o que nos traz a Anônimo: é um filhote de John Wick com certeza, talvez até um pouco formulaico nesse quesito, mas o longa do diretor Ilya Naishuller se sobressai e se torna uma diversão interessante graças ao seu clima maluco e, claro, à atuação do herói de filme de “tiro, porrada e bomba” mais improvável do momento: Bob Odenkirk, o ator e comediante que ficou famoso como o advogado trambiqueiro Saul Goodman das séries Breaking Bad e Better Call Saul.

Em Anônimo, Odenkirk vive Hutch Mansell, um pai de família pacato e afável. Uma noite, sua casa é assaltada por dois ladrões pé-de-chinelo, e por um momento Hutch até pensa que poderia detê-los. Ele não o faz, o que o torna alvo de algumas chacotas e olhares tortos. Mas todo homem tem seu limite, e Hutch não é um homem qualquer. Aos poucos, ao longo da história descobrimos coisas sobre seu passado. Os atos dele acabam colocando-o na mira de um mafioso russo (vivido por Aleksey Serebryakov), e o cara pacato de quem ninguém suspeita acaba tendo que revidar…

Anônimo é escrito por Derek Kolstad, mesmo roteirista dos dois primeiros John Wick, e seu roteiro é ao mesmo tempo fonte de força e uma fraqueza no filme. A força vem da concisão: Kolstad não perde muito tempo apresentando as situações, e o faz de maneiras visuais. Ao mesmo tempo, garante nosso envolvimento com o protagonista. Com apenas 1h30, Anônimo nunca fica chato ou aborrece o espectador. Por outro lado, a aderência do filme ao padrão John Wick o torna meio previsível em algumas partes. Por mais que o roteiro tente inovar aqui e ali – este herói tem uma família e um pai idoso (Christopher Lloyd, divertindo-se a valer); várias cenas envolvendo o antagonista têm um toque de humor – ainda assim a sensação de repetição às vezes é percebida.

INEVITÁVEL INFLUÊNCIA DE JOHN WICK

Mesmo assim, o mais importante é a ação, e nesse quesito o filme não desaponta. E é hora de mencionar Odenkirk: embora sua escalação cause um pouco de espanto – afinal, ele nunca foi do tipo fortão e atlético, e hoje está até mais velho que Liam Neeson quando este começou sua carreira nos filmes de “tiro, porrada e bomba”. Mas é graças a ele que o filme funciona, escalá-lo foi o golpe de gênio do projeto. Na primeira grande cena de ação num ônibus, quando vemos a persona oculta de Hutch emergir pela primeira vez, o trabalho do ator se destaca tanto quanto a coreografia da luta. Percebemos como Odenkirk faz a coisa funcionar aos poucos, apanhando no começo, mas eventualmente trazendo à superfície uma força e uma nova personalidade, que domina a situação. É o tipo de cena que não funcionaria com Neeson, ou mesmo com outros astros acostumados ao gênero. Essa é a melhor cena do filme, um belo momento que combina coreografia, atuações e trabalho de câmera, de novo evocando a economia e o brilhantismo das cenas de ação da franquia John Wick.

Além de Odenkirk, o que mantém a experiência funcionando é a direção de Naishuller, o mesmo do insano e divertido Hardcore: Missão Extrema (2016). O diretor injeta um humor amalucado no filme, que se intensifica à medida que a história avança, e obviamente compõe uns planos engenhosos e pirados no clímax: esse é o tipo de filme em que uma arma é jogada pelo ar, e a câmera grudada nela durante o voo a mostra chegando à mão de outro personagem; ou no qual logo antes de uma perseguição automobilística o herói coloca uma música legal para tocar no som do carro. Se momentos como esse não trouxerem um sorriso ao seu rosto, me arrisco a dizer que você como espectador pode não ter captado o espírito do filme…

E essa é justamente outra qualidade de Anônimo, não se levar tão a sério e ser despretensioso, numa época em que tantos blockbusters são cheios de si. Afinal, toda a trama acontece por causa de uma mera crise de meia-idade masculina, e dezenas de pessoas morrem sem que haja grandes consequências… É um filme que não pede desculpas por ser como é, e foi feito para valorizar a ação e para dar a um ator magnífico a oportunidade de fazer algo maluco e totalmente fora do seu escopo usual. Não deve virar um marco ou originar franquia como John Wick, mas tudo bem. O que importa é a adrenalina e a diversão, e por alguns minutos Anônimo fornece isso ao seu espectador.

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