Desde crianças, Elza e Ana demonstram perspectivas opostas: enquanto a primeira acredita que uma mulher sozinha poderia salvar a floresta, a caçula está presa à figura do príncipe salvador. Apesar dessas diferenças, a relação entre elas segue sendo o elo principal de “Frozen 2”, sequência dirigida por Jennifer Lee e Chris Buck. A sequência, infelizmente, não consegue ser tão atrativa e chiclete quanto o original de 2013, muito por conta das repetições do que fora feito e a ausência de ousadia.

O primeiro “Frozen” surpreendeu por quebrar um conceito já firmado no gênero, atestando que nenhuma princesa precisa de um príncipe encantado e pregando a sororidade acima de tudo. Esses elementos deram um novo ar às produções da Disney e fizeram com que o público e os produtores – devido ao sucesso – ansiassem por uma continuação.

Já no filme de 2019, a produção opta por seguir um caminho de amadurecimento das protagonistas, em refletir de forma leve e descontraída sobre mudanças, crescimento e o futuro. Como em todo filme que trabalha essas temáticas, “Frozen 2” usa a relação entre irmãs para mostrar o quanto cada uma necessitava se libertar à sua maneira. Ana, por exemplo, tem uma preocupação excessiva com a irmã, o que impede Elsa de ser quem gostaria. Em contrapartida, esse temor pela segurança de Ana faz com que a rainha tenha medo de conhecer toda a capacidade de seu poder.

Nesse sentido, “Frozen 2” inova e quebra conceitos pré-estabelecidos do gênero com o descarte da figura do vilão. Não há um antagonista bem definido, mas, assim como nas produções de Stephen King, é possível sentir a atmosfera de ameaça que se forma. E por que isso se relaciona com Elsa? Porque os grandes conflitos são expostos pela busca de descobertas dela. Apesar de parecer, finalmente, se encaixar ao modo de vida em Arandelle, a rainha continua se questionando e, dessa vez, ela escuta uma voz que a convida a ir além do que conhece.

Esse mote serve de base para “Into the Unknown”: se antes Elsa se questionava por liberdade, aqui, a busca interna pelo desconhecido é o caminho galgado. E isso reafirma o amadurecimento em pauta na produção, que encontra na música um instrumento para explorar o que está acontecendo no momento, as transformações e apreensões que os personagens possuem, semelhante ao visto em “Mulan” (1998), da mesma Disney. Por isso, é preciso estar atento ao que diz a letra das canções.

TRAMA NÃO AVANÇA

Tudo aquilo que deu certo em 2013 volta com força nesse novo cenário: as preocupações de Ana, os questionamentos de Elsa em relação a seus poderes e as piadas infantis de Olaf. Por mais que isso tenha contribuído para o sucesso da franquia, “Frozen 2” não avança. Na primeira hora, por exemplo, há uma insistência do roteiro em relembrar o que aconteceu antes e repetir incessantemente, incluindo até mesmo um número musical que conte toda a história do longa original.  

Embora possa parecer engraçado, à primeira vista, torna-se enfadonho e leva ao questionamento se realmente havia a necessidade de oferecer uma continuação à narrativa das irmãs de Arendelle. Há várias subtramas que desembocam na mesma discussão do seu antecessor e perdem força por conta disso. Justamente por não haver um olhar diferente sobre as personagens que não seja sua relação. 

Visualmente, “Frozen 2” é impecável: as cores são muito bem trabalhadas, os detalhes presentes nos cabelos dos personagens e as cenas de batalha são uma verdadeira obra de arte a serem notadas. A fotografia é alucinante e os gráficos ainda mais criativos para mostrar a relação de Elsa com as estruturas de gelo, inclusive a cena em que ela confronta o cavalo de água é um verdadeiro show visual. 

Soma-se a isso a coreografia das músicas, especialmente em “Lost in the Woods”, canção interpretada por Kristoff em um dos raros momentos em que os diretores decidem ousar e criam enquadramentos inusitados e criativos, ainda que relembrem bastante as baladas românticas dos anos 80 e 90.  

“Frozen 2” repete os subtextos da primeira produção e explora a relação entre Ana e Elsa, dessa vez, no entanto, a construção possibilita que elas amadureçam e cada uma encontre o seu caminho. Como já diria Olaf, estamos passando por mudanças e precisamos nos preparar para elas. 

CRÍTICA | ‘Club Zero’: tudo dá errado em péssimo filme

Dirigido por Jessica Hausner, "Club Zero" se passa em uma escola de elite que recebe uma nova professora de nutrição. Ela ensina a um pequeno grupo de adolescentes um novo método de alimentação que promete melhorar não só o desempenho nos estudos e nos esportes dos...

CRÍTICA | ‘Back to Black’: desserviço à imagem de Amy Winehouse

Já na época em que foi anunciada a morte da cantora britânica Amy Winehouse (1983-2011), se falava em um filme sobre ela, tamanho o frenesi midiático que essa artista despertou no mundo neste começo do século XXI. Agora o filme finalmente chegou às telas e... bem, Amy...

CRÍTICA | ‘Fúria Primitiva’: um inevitável sub-John Wick

Independente se você gosta ou não da John Wick, hoje qualquer filme de ação contemporâneo que se preze tem como principal parâmetro a saga estrelada por Keanu Reeves. Mais da metade dos trabalhos lançados nos últimos anos no gênero como um todo seguem a cartilha da...

Crítica | ‘Foram Os Sussurros que Me Mataram’: Tuoto mistura novela das 20h com Lynch em filme inusitado

"Os erros ou excessos na administração do mundo das imagens produzem consequências políticas imediatas". Esse é o tipo de tagarelice canastrona pretensiosa que talvez encontrássemos numa review de Arthur Tuoto – e que não surpreende, portanto, que dê as caras neste...

Crítica | ‘Planeta dos Macacos – O Reinado’: filme mantém marca pessimista da série

De certa forma, a franquia Planeta dos Macacos é perfeita para os nossos tempos: vivemos em um mundo com guerras, desastres climáticos e pandemias. Diante disso, imaginar que a raça humana seja extinta ou que perca o domínio sobre a Terra não parece assim tão distante...

Crítica | ‘Vermelho Monet’ – entre o fazer artístico e o desejo

Há uma plasticidade visual que conduz todo o trabalho de Halder Gomes (“Cine Holliúdy”) em “Vermelho Monet”. O filme protagonizado por Chico Diaz, Maria Fernanda Cândido e Samantha Müller nos conduz pelo submundo do mercado de artes plásticas apresentando um visual...

Crítica | ‘Transe’: o velho espetáculo da juventude progressista classe A

Pode ser tentador para o público, diante da repercussão memética negativa que o trailer de “Transe” recebeu, ir ao cinema com o intuito de chutar cachorro morto. Os que compram seus ingressos planejando tiradas mordazes para o final da sessão irão se decepcionar. Não...

Crítica | ‘Imaculada’: Sydney Sweeny sobra em terror indeciso

Na história do cinema, terror e religião sempre caminharam de mãos dadas por mais que isso pareça contraditório. O fato de termos a batalha do bem e do mal interligada pelo maior medo humano - a morte - permitiu que a religião com seus dogmas e valores fosse...

Crítica | ‘Abigail’: montanha-russa vampírica divertida e esquecível

Desde que chamaram a atenção com o divertido Casamento Sangrento em 2019, a dupla de diretores Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett vem sedimentando uma carreira cinematográfica que mescla o terror sangrento do slasher movie com a sátira social cômica para...

Crítica | ‘O Dublê’ – cinema de piscadela funciona desta vez

David Leitch: sintoma do irritante filão contemporâneo do cinema de piscadela, espertinho, de piadinhas meta e afins. A novidade no seu caso são as doses nada homeopáticas de humor adolescente masculino. Dê uma olhada em sua filmografia e você entenderá do que falo:...