Bebendo da fonte de contos clássicos de juventude transviada, o longa canadense “Goddess of the Fireflies” acompanha uma jovem descendo a um inferno de rebeldia e vício. O longa, mesmo com uma trama um pouco batida, se ancora em uma impecável ambientação para entregar um conto que soa atual mesmo com seu apelo nostálgico. 
 
No dia em que Catherine (Kelly Depeault) faz 16 anos, uma briga familiar termina com seu pai deliberadamente batendo o carro de sua mãe contra o portão de casa. Com seus pais imersos em um divórcio pra lá de contencioso, ela busca apoio no grupo de rebeldes da escola, entre eles, Marie-Eve (Éléonore Loiselle), Keven (Robin L’Houmeau), Mélanie (Marine Johnson) e Pascal (Antoine DesRochers). Ao se envolver com Pascal, ela consegue uma porta de entrada para o grupo, uma iniciação na sua própria vida sexual e uma válvula de escape na forma de drogas pesadas. 
 
Apesar do peso inerente à temática, a diretora Anaïs Barbeau-Lavalette opta por uma abordagem poética na hora de retratar a história de Catherine, adaptada do livro de Geneviève Pettersen pela roteirista Catherine Léger. Em colaboração com o diretor de fotografia Jonathan Decoste, ela povoa as cenas com planos-detalhes, enfatizando mãos, tatuagens e roupas – coisas que chamam a atenção dos adolescentes. 

UMA INCÔMODA SOMBRA 

Condizendo com um filme cuja protagonista se refugia em mundo altamente sensorial por conta de drogas, sequências que retratam como os personagens processam suas angústias internamente servem como contraponto à dura realidade desses jovens. Elas funcionam largamente por conta do trabalho do designer de som Paul Lucien Col e pela trilha que explora ao máximo o momento em que o rock capitaneado por mulheres definiu o zeitgeist noventista: uma importante cena ocorre ao som de The Breeders e outra gira em torno da banda Hole. 

Ainda que seja clara a paixão que Barbeau-Lavalette tem por seu material-base, não há muito que diferencie o longa de outros feitos nas mesmas linhas. “Eu, Christiane F.,13 Anos, Drogada e Prostituída“, por exemplo, é um grande ponto de referência – e o fato de que Catherine ganha o livro no qual o drama alemão é baseado como presente de aniversário reforça uma comparação não exatamente lisonjeira. 
 
O filme se sai melhor quando busca mostrar a vida dos jovens do interior de Québec antes da internet revolucionar a maneira como eles se encontram e se relacionam. As cenas entre Catherine e seus pais também figuram entre os melhores momentos do longa, pois provêm um contexto para a sua rebeldia. Em sua presente forma, no entanto, o barato de “Goddess of the Fireflies” se esvai rápido. 

‘A Colônia’: documentário distante do objeto de seu estudo

“A Colônia” é um filme que mistura documentário e ficção para compor uma narrativa que se debruça sobre o bairro Antônio Justa em Maracanaú, interior do Ceará. O bairro surge a partir de uma antiga colônia criada para manter em isolamento pacientes com hanseníase. O...

‘Seguindo todos os protocolos’: inventivo olhar das redes sociais na pandemia

Há um universo nas redes sociais brasileiras ainda mal explorado na recente produção audiovisual do país. Embora sirva de pano de fundo para várias produções, o que vemos sempre resvala em pequenas sacadas óbvias, humor questionável ou críticas sociais com a...

‘A Pior Pessoa do Mundo’: dramédia romântica fora dos padrões

O que define um sujeito como “pior pessoa do mundo”? No mundo socialmente determinado, temos a clara noção do que é bom e ruim, dentro do que é aceito. Histórias são diversas, múltiplas e instigantes. Pense em uma pessoa ruim, por exemplo, certamente merece esse...

‘892’: John Boyega se agiganta em filme repleto de tensão

Há alguns anos, considero que John Boyega passou do ponto com as reclamações sobre sua participação na última trilogia Star Wars. Seu argumento tinha era bastante válido (a ausência de personagens não-brancos com maior destaque), mas também ecoava certo ataque de...

‘Uma Escola no Marajó’: um dia na vida de uma escola ribeirinha

Selecionado para a Mostra Panorama, “Uma Escola no Marajó” começa com uma viagem de barco pela ilha do título do filme, no interior do Pará. A embarcação é uma condução que leva as crianças que vivem em casas mais isoladas para a escola. O sol ainda não nasceu...

‘Marte Um’: a esperança que se recusa a morrer

Marte Um, de Gabriel Martins, começa literalmente na noite em que Jair Bolsonaro foi eleito presidente em 2018. Um garotinho negro olha para o céu enquanto os fogos de artificio pipocam à distância, em comemoração. É um filme que não tem um enfoque abertamente...

‘Rabiola’: um verdadeiro suco de Brasil

Na história do cinema, não faltam casos de filmes que se utilizam de pontos de partidas comuns ou nada extraordinários para gradualmente representarem o panorama de uma sociedade e suas graves desigualdades. São casos de obras-primas como “Ladrões de Bicicleta”, ponto...

‘Meu Coração é um Pouco Mais Vazio na Cheia’: remix nas águas

Alguns elementos das raízes da cultura rave encontram um inusitado espaço de debate do curta “Meu coração é um pouco mais vazio na cheia”, da tocantinense Sabrina Trentim. O mais gritante deles é, óbvio, a presença da música eletrônica, mas o apreço por cenários...

‘Utopia’: o florescer da memória a partir da ausência

Com “Utopia”, a diretora amapaense Rayane Penha mostra ao público como a noção de ritmo é importante à narrativa documental no audiovisual. Dentre offs relembrando um sonho fantástico da diretora com o pai, depoimentos de conhecidos, a releitura de cartas paternas e...

‘Nazaré: Do Verde ao Barro’: poética ribeirinha através da aquarela

Não é raro no curta-metragem vermos a experimentação técnica ou narrativa do realizador e equipe se sobrepor à necessidade real para o filme em si daquele recurso escolhido. Isso está longe de ser um crime, afinal, o curta traz esta liberdade maior, sendo, inclusive,...