A história se repete, certo? Passamos a vida ouvindo esse ditado, e parece que é verdade mesmo.

No panteão dos quadrinhos super-heróicos da DC Comics, Superman, Batman e Mulher Maravilha são conhecidos entre os fãs como “a trindade” da editora. São reconhecidamente os super-heróis mais famosos do mundo, atingiram status de lendas e são as figuras centrais do Universo DC. No cinema, Superman e Batman lançaram suas carreiras nas telas com filmes de peso que se tornaram marcantes dentro do subgênero dos heróis de HQs, e o mesmo pode ser dito da Mulher Maravilha, graças ao longa de 2017 dirigido por Patty Jenkins e estrelado por Gal Gadot. Porém, as sequências levaram Superman e Batman a pagarem micos cada vez maiores nas telonas nos anos 1980 e 1990, a ponto de reboots terem sido necessários para revitalizar os personagens.

A história, infelizmente, se repete: a representante feminina do trio parece que vai trilhar o mesmo caminho, pois, Mulher Maravilha 1984, a nova aventura solo da heroína, é um desastre quase que completo. Superman e Batman levaram uns três ou quatro filmes para despertar vergonha alheia no público de cinema; a Mulher Maravilha consegue isso já no seu segundo.

Na história – que como o próprio título indica, se passa em meados dos anos 1980 – Diana Prince (Gadot) trabalha no museu e, ocasionalmente, atua combatendo o crime como Mulher Maravilha. Ela conhece Barbara Minerva (Kristen Wiig), uma tímida pesquisadora que se torna sua colega de trabalho, e Maxwell Lord (Pedro Pascal), um sujeito trambiqueiro que se passa por bem-sucedido. Um dos artefatos do museu – e que, estranhamente, estava num shopping (!) onde foi recuperado pela heroína – é uma pedra capaz de conceder desejos, e quando Lord e Minerva entram em contato com ela, tem início uma série de acontecimentos que acabam trazendo caos ao mundo, fazendo com que Diana tenha de intervir, acompanhada de Steve Trevor (Chris Pine), que retorna ao mundo dos vivos também graças à pedra.

ALGUÉM VIU O ROTEIRO?

Essa é a trama básica, e ela já não inspira muita confiança – Pedra dos desejos, sério? Mas o filme ainda a desenvolve de maneira inacreditavelmente ruim. O principal problema de Mulher Maravilha 1984 é o seu roteiro – de autoria de Jenkins, do autor de quadrinhos Geoff Johns e do roteirista David Callahan – e é difícil imaginar que, em pleno 2020, um grande estúdio de Hollywood ainda aprove um texto tão primário e sem pé nem cabeça como este. A história parece seguir a noção de que “se é uma história de fantasia, então pode tudo”, e isso deixa o filme sem fundamento algum.

A certa altura, um personagem pilota um jato, porque foi piloto na Primeira Guerra e aviões são todos iguais, não é mesmo? Outra personagem tira do bolso um poder numa situação de emergência. Outra vira malvada… Porque sim. Outra encontra uma armadura jogada num canto de parede, pronta para ser usada na hora da conveniência. E um personagem “possui” o corpo de alguém e esse corpo é usado na narrativa, como se não fosse nada, o que deixa o coração do filme, seu núcleo dramático, vazio e bizarro – ainda mais para um blockbuster que clama à humanidade por empatia ao seu final. Até o fato de se passar em 1984 não é valorizado pelo texto: o contexto dos anos 1980 só rende umas piadas breves e uma ceninha de dois minutos em que a Guerra Fria esquenta, sem maiores consequências. E nem a cena de abertura se concatena com nada depois – embora, pelo menos, essa abertura, com a pequena Diana numa competição, seja a melhor cena do longa e uma das poucas a despertar qualquer emoção no espectador.

Enfim, é um roteiro tão problemático que fica difícil ter qualquer conexão com o que está na tela. Isso se estende aos personagens: Wiig e Pascal interpretam vilões bobões que não estariam deslocados num dos últimos filmes do Superman com Christopher Reeve. Ela é a nerd bobalhona destinada a virar vilã, personagem que eu acreditava ter sido aposentado com o Electro do Jamie Foxx num dos filmes do Homem-Aranha há alguns anos – “O Espetacular Homem-Aranha 2” (2014), mas, pelo visto, não. E, ao final, ela vira a Mulher Leopardo, inimiga clássica da heroína… Porque sim e porque a história precisava ter uma luta ao final, luta esta executada com um CGI bem questionável, aliás. E Pascal vive uma mistura de Lex Luthor com Donald Trump – seu penteado e o cenário do conflito final deixam o paralelo bem claro – resultando num tipo bufão e afetado que, inacreditavelmente, recebe uma redenção de presente pelo roteiro no terceiro ato.

Ambos os atores tiram leite de pedra com seus histrionismos, tentando tornar os dois vilões interessantes, mas novamente, em pleno 2020, aceitar antagonistas tão rasos e imersos em comédia tão ampla e situações caricatas, é difícil de aceitar. Ainda estamos em 1995, com o Charada do Jim Carrey fazendo tolices? O tom “sério e sombrio” do Zack Snyder é embaraçoso, mas, partir para o outro extremo, o do pastelão, não é a resposta. Filmes recentes do Universo DC no cinema como Aquaman (2018) e Shazam! (2019) até conseguiram esse equilíbrio, mas aqui ele escapa a Patty Jenkins, que aliás dirige tudo de maneira burocrática.

SÓ GADOT ESCAPA

O que sobra é um filme inchado – nada justifica as 2h30 de duração, e quase nada acontece na primeira hora! – e com pouca ação, pouca Mulher Maravilha, e pouca diversão. É até difícil de acreditar que este longa foi feito, praticamente, pela mesma equipe criativa do primeiro filme, que, apesar de um terceiro ato problemático, era bom, empolgante, divertido, e, nele, a ação e o humor funcionavam.

Só o elenco impede o desastre de ser maior: Gadot é um poço de carisma e a dona da personagem, e sua química com Pine quase faz valer a pena a bizarrice do retorno de Steve. É uma pena que, mesmo depois de vários filmes e das idas e vindas de diretores, o universo DC no cinema continue uma montanha-russa, com o espectador ainda incapaz de encontrar uma constância, um tom certo.  

Hoje, uma parcela do público até vê longas caricatos do passado dos heróis DC, como Superman 3 (1983) e os dois filmes do Batman dirigidos por Joel Schumacher, com um certo carinho. Difícil imaginar que o inchado e decepcionante Mulher Maravilha 1984 vá ter o mesmo destino, mas tudo é possível. Será que, daqui mais um tempo, virá o reboot? A história ensina. Ou deveria ensinar, certo?

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