São poucas histórias factuais com tantas reviravoltas a ponto de serem mais interessantes e impressionantes do que as narrativas de ficção. A série documental “Caso Evandro”, disponível na Globoplay, entretanto, apresenta um conto revelador sobre um Brasil repleto de incongruências na década de 90, um verdadeiro escárnio sobre a nossa sociedade.

Co-dirigida por Aly Muritiba (“Ferrugem”) e a estreante Michelle Chevrand, “O Caso Evandro” é a primeira adaptação para o streaming de um podcast no Brasil, neste caso, o “Projeto Humanos”, produzido pelo jornalista e pesquisador Ivan Mizanzuk. O trabalho foi tão extenso que gerou 36 episódios e adicionou novas informações ao caso. A grande tarefa de Muritiba e Chevrand era capturar a essência da série em áudio e traduzi-la para o audiovisual em episódios com aproximadamente 50 minutos cada.   

“O Caso Evandro” conta a história de um menino de mesmo nome que desapareceu na cidade de Guaratuba, interior do Paraná, e que teve o corpo encontrado em um matagal completamente desfigurado cinco dias depois. A tragédia marcou o Estado e ganhou ampla cobertura midiática nacional. Após as supostas confissões de que a mulher e a filha do prefeito da cidade, Beatriz e Celina Abbage, mataram o menino em um ritual de “magia negra”, o caso ganhou notoriedade pela imprensa como “As Bruxas de Guaratuba”.  

CARACTERÍSTICAS DO PODCAST E DA SÉRIE

Antes de tudo, é preciso afirmar que a pesquisa de Mizanzuk está focada exclusivamente nos autos do processo judicial e nos depoimentos dos envolvidos; o processo inteiro possuía mais de 40 mil páginas e exigiu do jornalista dois anos de análise dos documentos. É notório que contar uma história complexa da vida real passa por um processo de edição muito profundo, pois, é preciso transmitir o geral das informações sem perder detalhes essenciais para a compreensão do público. Por isso, Ivan assume a função de narrador principal da série, sendo o fio condutor para o espectador entender a lógica do processo.

Muriitba e Chevrand propuseram-se a basear a obra em registros da época restaurados especificamente para “O Caso Evandro”, além de entrevistas com alguns dos envolvidos e reencenação do caso. Essa abordagem dá dinamismo à narrativa atribuindo um elemento que o podcast não pode oferecer: a visualidade do caso. Dessa forma, o público consegue associar claramente os nomes dos implicados aos seus rostos e a maneira que a história foi noticiada pela imprensa na época.

OS ELEMENTOS DE UMA TRAGÉDIA BRASILEIRA

Existem três elementos principais que norteiam a narrativa assombrosa desse caso: a intolerância religiosa, o bagunçado sistema criminal brasileiro e a tortura.  “O Caso Evandro” revela como, historicamente, a sociedade brasileira sempre discriminou ou até mesmo criminalizou as práticas das religiões de matrizes africanas como a Umbanda e o Candomblé, a fim de atribuir a estas práticas nomes como “bruxaria” ou “magia negra”. Com isso, em perspectiva, temos a noção de como as pessoas e a imprensa não compreendiam do que falavam e compraram um discurso tão frágil do Ministério Público e da Polícia Militar para julgar publicamente os supostos acusados.

A partir disso, entramos em um outro ponto: a maneira caótica como o processo foi conduzido. A Polícia Militar se envolveu no caso – que era de investigação da Polícia Civil – para solucionar surpreendentemente com a confissão de sete pessoas, incluindo, Beatriz e Celina Abbage, “as bruxas”. Posteriormente, os erros são direcionados em uma série de julgamentos conduzidos com falhas de investigação e júris que não conseguiram ler todos os autos do processo. Essa desordem coloca cinco pessoas na cadeia e, em nenhum momento, consegue evidenciar a possibilidade real delas terem sido as culpadas.

E ainda existe o principal tema dessa narrativa, a tortura: Beatriz e Celina Abbage e os outros cinco acusados no caso afirmam categoricamente que foram torturados para obter as supostas confissões pela Polícia Militar. Diante disso, “O Caso Evandro” começa a expor passo a passo como foram presos os réus apresentando momentos perturbadores até o sétimo episódio onde teremos uma revelação inédita para o público.

APELO À LEI

Os episódios do podcast são absurdamente mais ricos; temos mais informações e Mizanzuk desenvolve com mais tempo cada detalhe ou equívoco no processo criminal com episódios que chegam a ter mais de duas horas de duração. Já a série perde os detalhes para criar uma narrativa mais pautada num formato de ficção, gerando um conflito em cada capítulo onde supostamente se resolve nele mesmo e no seu encerramento cria um cliffhanger (aquele famoso desfecho bombástico) para o próximo. Isso gera no espectador uma sensação de surpresa e impacto, pois, quando pensamos que a história está resolvida, lá vem o choque da reviravolta – aliás, plot twists são naturais em “Caso Evandro”.

No contexto de desaparecimentos de crianças no Brasil na década de 90, fica o adendo do episódio extra sobre o menino Leandro Bossi, outra vítima na cidade de Guaratuba, que sumiu dois meses antes de Evandro. Este episódio vai retratar a batalha de João Bossi, o pai da criança, para encontrar seu filho e em todas as reviravoltas surreais que ele também vai sofrer. De uma seita religiosa que “mata criancinhas” até uma criança encontrada em Manaus dizendo ser Leandro, o episódio extra consegue ser tão emocionante e empolgante do que o resto da série. Existe narrativa para três episódios extras facilmente ou até mesmo uma possibilidade de segunda temporada.

Muito mais do que criar opiniões ou julgamentos sobre possíveis culpados, “O Caso Evandro” alerta o público de um mal maior: a facilidade de se julgar uma pessoa, principalmente, quando a imprensa e o judiciário criam uma narrativa contra ela. Desconfortável também é notar como a tortura era para uma parte significativa da população brasileira um método de investigação aceitável nos anos 1990. É difícil presumir se hoje esse comportamento seria provável de ocorrer novamente, no entanto, fica a lembrança de que não importa o quão macabro um crime seja cometido sempre precisa ser investigado conforme a lei. Com todos os direitos a um julgamento justo e, acima de tudo, com as garantias de seus direitos humanos preservadas. 

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