Desde que me entendo por gente a frase “baseado em fatos reais” sempre foi um atrativo na divulgação de filmes como forma de chamar atenção do público. No entanto, esta expressão também carrega uma grande responsabilidade sobre a veracidade dos fatos dramatizados, o que, por vezes, é deixado de lado na intenção de uma trama mais efusiva. Para o bem ou para o mal, ‘O Relatório’ consegue cumprir o papel de apresentar uma história muito próxima da realidade, mesmo quase esquecendo possuir elementos narrativos da ficção, tornando-se praticamente um documentário.

Como produtor, roteirista e diretor, Scott Z. Burns (roteirista de “Terapia de Risco”, “Contágio” e “A Lavanderia”) apresenta os bastidores da investigação sobre o Programa de Detenção e Interrogatório da CIA, criado após os atentados de 11 de setembro. Encarregado pela criação do relatório investigativo, Daniel Jones (Adam Driver), descobre o uso de tortura pela CIA em suspeitos de terem ligações com o grupo de Osama Bin Laden, passando a lutar juntamente com a senadora Dianne Feinstein (Annette Bening) para que o documento seja publicado.

Com este forte argumento histórico, Burns consegue criar uma trama compreensiva ao apresentar a visão de diferentes partes envolvidas. Recursos como a datação dos acontecimentos são utilizados de forma bem inteligente para ajudar neste entendimento. Por outro lado, a utilização de flashbacks como dramatização dos abusos cometidos pela CIA lembram muito o recurso utilizado por documentários, principalmente devido a inserção de um filtro específico.

INVESTIGAÇÃO ACIMA DOS PERSONAGENS

Deixando a narrativa ainda mais longe do ficcional, o diretor escolhe por se distanciar da vida pessoal de seus personagens. As cenas com Adam Driver e Annette Bening juntos são ótimas, mas sozinho Driver luta para manter o interesse em sua história já que praticamente nada sobre seu personagem é abordado.

Apesar desta escolha em não aprofundar personagens ter sido feita em detrimento da investigação ser a protagonista do filme, é difícil acompanhar Daniel em sua luta por ser revelado pouco dele. Ao final do longa, não sabemos se ele tem tais reações por ser um idealista, por buscar justiça ou porque era simplesmente seu trabalho de anos.

Como o protagonista sofre com a falta de densidade, os personagens secundários são realmente negligenciados. Do lado da CIA isto fica evidente: alguns rostos familiares nem possuem o nome citado, mas Burns faz questão de deixar claro que são antagonistas pelas ações negativas que provocam. Infelizmente, essa falta de proximidade com os personagens deixa boas performances passarem quase despercebidas como a participação de Jennifer Morrison no último ato.

PROXIMIDADE COM O DOCUMENTAL

Além da ótima recriação dos fatos, outro grande mérito do longa é destacar as diferenças ideológicas sobre as ações da CIA. O atentado do 11 de setembro sempre foi e será um dos episódios mais marcantes da história americana e seus efeitos são múltiplos, principalmente sobre o tratamento a pessoas do Oriente Médio, o que se estende desde cargos políticos até o dia a dia. Assim, o longa é corajoso o suficiente para abordar essa delicada questão.

Se fosse assumidamente um documentário, ‘O Relatório’ seria um filme essencialmente bem feito e brilhante, entretanto, como ficção baseada em fatos reais, ainda lhe faltou aproveitar melhor todos os recursos disponíveis para seu desenvolvimento. Apesar disso, sua proposta é mantida fielmente de forma muito próxima do real, o que lhe rende grandes méritos e a posição como um filme extremamente necessário.

‘Batman: O Cavaleiro das Trevas’, o filme que mudou Hollywood

Em 2008, dois filmes mudaram os rumos de Hollywood. Foi o ano em que o cinema de super-heróis passou para o próximo nível e espectadores pelo mundo todo sentiram esse abalo sísmico. O Marvel Studios surgiu com Homem de Ferro, um espetáculo divertido, ancorado por...

‘After the Winter’: drama imperfeito sobre amizades e os novos rumos de um país

"After the Winter", longa de estreia do cineasta Ivan Bakrač, é uma ode à amizade e ao amadurecimento. A co-produção Montenegro-Sérvia-Croácia, que teve sua première mundial na seção Leste do Oeste do Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary deste ano, retrata...

‘Batman Begins’ e o renascimento do Homem-Morcego

“Por que caímos? Para aprender a nos levantar”. Essa frase é dita algumas vezes pelos personagens de Batman Begins, inclusive pelo pai de Bruce Wayne. Ela se aplica dentro da história, mas também é possível enxergar aí um comentário sutil a respeito da franquia Batman...

‘O Marinheiro das Montanhas’: Ainouz em viagem intimista e modesta

"O Marinheiro das Montanhas", novo filme de Karim Aïnouz, é uma mistura de diário de viagem e tributo familiar que leva o espectador para o coração da Argélia - e do diretor também. O documentário, exibido na seção Horizontes do Festival Internacional de Cinema de...

‘O Espião Inglês’: cumpre missão mesmo sem inovar

Filmes de espionagem quase sempre ostentam um ar noir, como uma ode aos filmes antigos da Era de Ouro de Hollywood. Com clima denso, a tensão toma conta, as intrigas são o plot principal nesses enredos frios e sem espaço para o humor e, via de regra, quase sempre...

‘Mirrors in the Dark’: drama de demasiados passos em falso

Uma dançarina à beira do abismo é o foco de "Mirrors in the Dark", filme tcheco que teve sua estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary deste ano. O longa de estreia de Šimon Holý, exibido na mostra Leste do Oeste do evento, capricha no visual...

‘The Card Counter’: Oscar Isaac simboliza a paranoia de um país

“The Card Counter”, novo filme do diretor Paul Schrader (roteirista de clássicos como “Taxi Driver” e “Touro Indomável”), possui certas semelhanças com seu último filme, “No coração da escuridão”. Ambos partem do estudo sobre um personagem masculino que se percebe...

‘Nö’: anticomédia romântica dos dilemas da geração millenium

O medo do fracasso, as pressões contemporâneas e as estruturas sociais colocam uma parede no meio de um casal em "Nö", nova produção alemã que teve sua estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary deste ano. Premiado com o Globo de Cristal de...

‘O Culpado’: Jake Gyllenhaal caricato em remake desnecessário

O cinema é uma arte que permite constante reinvenção. E isso facilita a compreensão da prática comum de Hollywood que perdura até os dias de hoje. É natural vermos a indústria norte-americana reexplorar a ideia de uma produção audiovisual de outros países, seja ela...

‘Mother Schmuckers’: anarquia niilista repleta de deboche

"Mother Schmuckers" é um filme que desafia palavras, que dirá críticas. A produção dos irmãos Harpo e Lenny Guit é uma comédia de erros que envolve drogas, violência e todo o tipo de perversão sexual. Exibido nas mostras de meia-noite de Sundance, onde estreou, e do...