Aretha Franklin é um ícone da música mundial. Ao longo de seus mais de 50 anos de carreira, ganhou 18 Grammys e deu voz a uma das composições mais memoráveis do mundo gospel: “Amazing Grace”. Também interpretou clássicos como “Natural Woman”, “I Say a Little Prayer” e “Respect”. Contudo, sua cinebiografia não consegue mostrar quem era Aretha.

“Respect: a história de Aretha Franklin” acompanha a jornada da rainha do soul até alcançar o sucesso e estourar nas paradas mundiais com “Amazing Grace”, em 1972. Conhecida por sua carreira na Broadway, Liesl Tommy estreia na direção de cinema no longa roteirizado por Tracey Scott Wilson (“Fosse/Verdon”, “The Americans”). Escolha da própria Aretha, Jennifer Hudson é a protagonista. Tais definições são importantes para entender os rumos que o filme assume.

Falta Aretha e criatividade

Durante toda a carreira, Aretha pouco comentava sobre sua vida pessoal. Até mesmo em sua autobiografia (“Aretha: From These Roots”), pouco se aprofunda em questões que não estejam relacionadas ao âmbito profissional. Esta parece ser uma escolha também da diretora e roteirista de “Respect”: a dupla opta por suavizar a história da cantora, sem entrar em polêmicas ou apresentar aspectos mais conturbados de sua jornada. Com isso, a produção joga em campo seguro sem jamais se arriscar igual ocorre nas histórias de superação religiosas ou produções do Lifetime.

Tais semelhanças intensificam a falta de criatividade nos projetos relacionados a cinebiografias, já que o roteiro segue a mesma fórmula vista em “Judy” e “Os EUA contra Billie Holiday”: dar visibilidade aos traumas infantis e abusar de saltos temporais. A escolha torna difícil a integração do público com personagens secundários e os diálogos ficam inconsistentes, já que há um lapso cronológico que deixa o espectador voando em algumas situações como os relacionamentos amorosos do pai da protagonista (Forest Whitaker) e sua ligação com as irmãs.

Sobre traumas e o fardo de ser uma mulher negra

Entender a situação do pai é muito importante para o arcabouço narrativo proposto por Tommy. Ao se preocupar em dar visibilidade aos traumas de Aretha Franklin, “Respect” se debruça sobre a relação da artista com o pai, o primeiro marido – Ted White (Marlon Wayans) – e a luta por reconhecimento.

Nesse processo para ser respeitada como profissional, Aretha é constantemente assediada e abusada psicológica e fisicamente pelos homens que deveriam protegê-la, não apenas pelo vínculo familiar, mas, também por serem seus agentes. Há uma pressão contínua em torno dela para que use seu dom e para que este possa trazer benefícios independente do objetivo a ser alcançado pelos seus mentores. Em dado momento, passamos a nos indagar o que quer a jovem Aretha e se o protesto silencioso que se impõe após a partida da mãe nunca seria visto como o que realmente significava: um grito de socorro.

Há uma dor latente na protagonista que exacerba os perigos do tratamento dado a ela. Esse sofrimento é bem pontuado nas canções e na interpretação musical de Hudson. Esses, sem dúvida, são os melhores momentos de “Respect”. A música não é apenas a salvação narrativa ou da jornada melodramática de Franklin, mas o preenchimento das ausências, angústias e pressões.

Afinal, mesmo para uma diva não é fácil ser uma mulher negra. Heleieth Saffioti em seu livro “Gênero, Patriarcado e Violência” afirma que a mulher negra é aquela que está mais abaixo na pirâmide social e é essa visão que encontramos em todos os homens que circundam a rainha do soul. Em dado momento da projeção, seu pai afirma que ela precisa basear-se em sua criação e raça sem sair da redoma pontuada pelos dois conceitos, aprisionando-a no espaço que lutamos para transpor sem deixar de pertencer a eles.

Esse espaço de resistência é justamente o que liga a protagonista ao movimento negro tanto político quanto feminista, o que a obra busca sinalizar com a lembrança da aproximação de Aretha com Martin Luther King e Angela Davis.

Apesar de trazer essas questões do papel social da mulher negra, “Respect” não consegue dizer quem era Aretha para além de seus traumas e canções. Isso é uma pena já que o filme poderia render mais uma estatueta para Hudson, além de fazer conhecida a personalidade por detrás do timbre imponente.

Não foi dessa vez, mas poderia indicar um tempo nas cinebiografias de artistas. Isso eu realmente queria que acontecesse.

‘Bob Marley: One Love’: a vulnerabilidade de uma lenda

Acredito que qualquer pessoa no planeta Terra sabe quem é Bob Marley ou já escutou alguma vez as suas canções. Se duvidar, até mesmo um alienígena de passagem por aqui já se desembestou a cantarolar um dos sucessos do cantor jamaicano, símbolo do reggae, subgênero...

‘Ferrari’: Michael Mann contido em drama sobre herói fora de seu tempo

Coisa estranha: a silhueta de um homem grisalho, a linha do cabelo recuando, adorna um balde de pipoca. É Adam Driver como Enzo Ferrari, em uma ação de marketing curiosa: vender o novo filme de Michael Mann como um grande blockbuster para a garotada. Jogada inusitada,...

‘Garra de Ferro’: um drama que não sai do quase

Garra de Ferro, o novo filme do diretor Sean Durkin, o mesmo dos bons Martha Marcy May Marlene (2011) e O Refúgio (2020), é decepcionante. Mas tinha ingredientes para ser marcante: um ótimo elenco e a base de uma história real e bastante dramática. No fim das contas,...

‘A Memória Infinita’: quando o amor é maior que o esquecimento

“Estou aqui para relembrar quem foi Augusto Góngora”  Com essas palavras e uma câmera desfocada, Paulina Urrutia, ex-ministra da cultura do Chile e companheira de Gongora a quase 25 anos, nos introduz a “A Memória Infinita”, filme dirigido por Maitê Alberdi, indicado...

‘Argylle’: Matthew Vaughn ladeira abaixo em filme fraco

Entre 2007 a 2015, Matthew Vaughn surgiu como uma das mentes criativas do entretenimento norte-americano. Neste período, ele comandou as melhores sátiras subversivas ao trabalhar os elementos de fantasia a partir da violência cartunesca com o humor politicamente...

‘Todos Menos Você’: dois gostosos e a essência da comédia romântica

As comédias românticas migraram dos cinemas para os streamings nos últimos anos. Basta lembrar que “Podres de Rico”, de 2018, foi o último filme do gênero a alcançar bilheteria e repercussão significativas nas telonas. Por isso, a ótima repercussão de “Todos Menos...

‘Minha Irmã e Eu’: o sucessor natural de ‘Minha Mãe é uma Peça’ 

O cinema brasileiro celebra os necessários números superiores a 1,5 milhão de ingressos vendidos por “Minha Irmã e Eu” depois de um período de vacas magras provocado pela pandemia da COVID-19 e ausência de políticas públicas de verdade como a cota de tela. Antes dele,...

‘Ficção Americana’: dramédia familiar compensa sátira engessada

Monk Ellison (Jeffrey Wright) é um professor universitário super qualificado e frustrado; portanto, sem tempo para os bons-mocismos liberais. Sua acidez o afasta do magistério e o coloca em uma sinuca de bico: como reinventar a carreira falida se tudo que o mercado...

‘O Mal que nos Habita’: terror argentino perde gás ao abandonar podridão

Não é de se espantar que o grande Marcelo Hessel tenha apelado para as alegorias sociais na hora de balizar sua leitura do argentino “O Mal Que Nos Habita”. É porque o filme, no campo puramente fílmico, perde o gás lá pela metade. Resta o trabalho mental de tradução...

‘A Noite que Mudou o Pop’: documentário direto ao ponto com ótimas histórias

Voltemos aos anos 1980 um pouco, caro leitor: era uma época em que não havia internet, mas a África já passava fome e existiam pop stars. Essa é a proposta do documentário A Noite que Mudou o Pop, produção da Netflix dirigida por Bao Nguyen que reconta a história da...