Judy Garland merecia mais. Não muito diferente do gosto amargo que “Bohemian Rhapsody” deixou no ano passado, “Judy”, de Rupert Goold, é mais um exemplar para a extensa lista de biopics carregadas de cenas prontas para serem exibidas na cerimônia do Oscar e sem a menor dimensão dos personagens que retratam. Neste caso, a performance de Renée Zellweger é um alento em meio à confusão de uma obra esquecível. 

Quando o filme começa, somos apresentados a uma adolescente prestes a ser engolida pela máquina hollywoodiana. Os olhos expressivos de Garland – aqui emprestados de Darci Shaw, que interpreta a atriz em sua versão mais jovem – são ludibriados pelas palavras de Louis B. Mayer, executivo da Hollywood antiga que pavimentou o caminho para os Harvey Weinsteins da vida. Vítima de bullying e de abusos, Judy era vista como a jovem talentosa, porém não bonita, e sempre em comparação com outras atrizes como Shirley Temple (àquela época, campeã de bilheteria no alto dos seus dez anos). Não precisa de muito para descobrir que a Judy retratada ali é a que se tornaria uma estrela ao bater seus sapatinhos rubi na Terra de Oz.

Essa apresentação é importante e, ainda que tenha uma certa aura de telefilme da Lifetime, tem certa eficiência ao seguir em paralelo com a Judy que toma conta de quase toda a história, no fim dos anos 1960. Ali, a Judy de Zellweger já tem 4 casamentos fracassados, está prestes a ir para o quinto, e amarga problemas financeiros, vício em medicamentos e a reputação de não ser muito confiável para grandes trabalhos. Poucos anos antes, ela teve seu último grande papel no cinema, em “Julgamento em Nuremberg” (com direito a indicação ao Oscar de atriz coadjuvante), e, agora, quem estava prestes a tomar a telona de assalto era sua primogênita, Liza Minnelli (que receberia sua primeira indicação no ano seguinte à morte da mãe, em 1970; a vitória chegaria três anos depois). Os dois filhos pequenos a acompanham nas apresentações, assim como Liza fez por certo tempo, mas o lifestyle e a incerteza da estrada pedem que Judy siga sozinha. Ela viaja a Londres para uma temporada de concertos e é esse período que toma a maior parte do filme de Goold. 

“Forget your troubles, c’mon, get happy…” 

Essa conversa entre as duas linhas temporais, no entanto, logo se torna enfadonha, principalmente porque, para o filme, o único sucesso digno de nota de Judy Garland foi “O Mágico de Oz”. É tentador, claro. Como não dedicar o grande momento musical da película a “Somewhere Over The Rainbow”, canção que se tornou sinônimo de sonhos perdidos como os que Judy deixou nos estúdios de Hollywood

Problema é que essa insistência em associar uma estrela com uma carreira tão rica e diversa a apenas um filme e uma música revela certa preguiça do roteiro. Nisso, a amizade de Garland com o contemporâneo Mickey Rooney é tratada com superficialidade, assim como os aspectos da linha temporal protagonizada por Zellweger. O principal deles é a breve participação de Gemma-Leah Devereux como Liza Minnelli, suficiente enquanto easter egg/piscadela para o público, mas curta demais para imprimir alguma marca na trama. 

O período escolhido, aliás, revela uma das grandes fraquezas do filme, já que ele parece mais interessado em explorar os demônios de Garland no fim de sua vida (e o faz por meio de diálogos explicativos e com flashbacks que, à medida que a trama evolui, vão ficando mais e mais desconexos). Isso não seria um problema, visto que filmes como “Amy”, “Kurt Cobain: Montage of Heck”, “Johnny e June”, “Rocketman” e “The Doors” conseguiram fazer escolhas narrativas semelhantes com fluidez e sem deixar de celebrar os grandes artistas retratados. Em “Judy”, no entanto, a celebração de Judy enquanto a grande artista que foi parece surgir apenas nos momentos em que ela está no palco, e as sequências truncadas voltam a remeter a biopics da Lifetime. Não há energia, não há dinamismo, e mesmo as participações do público parecem apertar os botõezinhos para fazer o público chorar (a sequência de ‘Somewhere Over The Rainbow’ é tão apelativa emocionalmente que dói).

“Buzz buzz buzz went the buzzer…”

Nessa salada toda, uma coisa se salva e com louvor. Favorita ao Oscar deste ano, Renee Zellweger realmente tem uma entrega memorável como Judy. As dores do estrelato tratadas de forma tão displicente no filme são vividas por Renee com intensidade. Atriz que também sofreu com as pressões da indústria, a texana não está preocupada em imitar totalmente Judy, mas em captá-la por meio de sutilezas no olhar, na fragilidade do andar e nos trejeitos em cima do palco (vale destacar que Renee canta as músicas, em vez de dublar a voz de Garland). 

O trabalho de maquiagem também é importante e a direção de fotografia entende isso a ponto de privilegiar certos ângulos que realmente enganam o espectador. É difícil não comparar a Judy de Renee com a que Judy Davis fez no telefilme da HBO em 2001, mas ali, a australiana tinha o apoio de uma história com mais unidade e cuidado. Aqui, a favorita ao Oscar de melhor atriz precisa tirar o famoso leite de pedra tão comum nas cinebiografias feitas com a estatueta dourada em mente. 

Graças a Renee, “Judy” não chega a ser um desastre como “Bohemian Rhapsody”, mas deixa um sabor amargo por não fazer justiça a uma personalidade tão complexa. Ainda bem que sempre teremos não apenas “O Mágico de Oz”, como também “Nasce Uma Estrela”, “Agora Seremos Felizes”, “O Pirata”, “Julgamento em Nuremberg”, “Desfile de Páscoa”, os filmes de Andy Hardy e as inúmeras performances ao vivo para manter viva essa artista tão brilhante. 

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