A repercussão de “Coda – No Ritmo do Coração” no Festival de Sundance deste ano, ganhando quatro prêmios (Melhor Direção, Melhor Elenco, Melhor Filme pelo júri e pelo público), já dava indícios de que o filme era uma boa produção para ficar atento. A propósito, esta definição pode até ser interpretada por outro olhar se levar em consideração a proposta do longa.

“Coda – No Ritmo do Coração” é uma refilmagem estadunidense da comédia francesa “A Família Belier”, dirigida por Eric Lartigau. A nova versão foi adaptada e dirigida por Sian Heder, conhecida por trabalhar no roteiro de vários episódios de “Orange Is The New Black”.

O longa acompanha a história de Ruby (Emilia Jones), a única pessoa ouvinte em sua família surda. Quando os negócios de pesca que dão sustento para a família são ameaçados, ela fica dividida entre seu amor pela música e o medo de abandonar os pais. Por conta da deficiência da família, Ruby acabou se tornando a intérprete responsável pela comunicação dos parentes com os clientes e a sociedade “não-surda”.

Narrativa clichê, porém, bem dirigida

Logo nos primeiros minutos, é possível perceber que “Coda – No Ritmo do Coração” apresenta uma narrativa já conhecida. A trama sobre amadurecimento de protagonistas adolescentes já foi vista em diversas obras recentes como “Oitava Série”, “Lady Bird” e tantos outras. A adaptação de Heder foi bastante feliz em preservar a essência da comédia francesa e não se distanciar tanto do original ainda que acrescente detalhes que enriqueçam ainda mais a proposta do longa.

O primeiro ato é muito bem construído, os personagens são apresentados de forma envolvente, aproximando os espectadores do drama de cada um. Logo em seguida, o filme já levanta o conflito principal ligada à escolha que Ruby tem que fazer: seguir o sonho de uma carreira na música, ou permanecer ajudando no trabalho da família. A resolução da trama não é inovadora, mas o ótimo desenvolvimento da história é suficiente para entregar um bom desfecho.

Outro ponto forte está na direção do elenco, principalmente, na atuação dos personagens com deficiência auditiva. Vale ressaltar que a mãe de Ruby é interpretada pela Marlee Matlin, a única pessoa surda a ganhar o Oscar de Melhor Atriz em 1986, em “Filhos do Silêncio”.

Matlin, que foi convidada para compor o elenco, exigiu que todos os personagens surdos fossem interpretados por atores que realmente tivessem deficiência auditiva. Esta característica trouxe ganhos para obra: o pai e irmão de Ruby vividos, respectivamente, por Troy Kotsur e Daniel Durant, entregam boas atuações. Além de serem ótimas adições à construção dos conflitos em que a protagonista se depara ao longo do filme.

É impossível deixar de ressaltar a naturalidade de Emilia Jones ao se comunicar na Língua de Sinais Americana (ASL). Percebe-se que a atriz se aprofundou bastante nos estudos, pois o modo como transita entre a fala e a linguagem é totalmente convincente. Sem falar no fato de sua ótima voz que encanta o espectador em vários momentos do drama. Importante destacar que “Coda – No Ritmo do Coração” não é um musical, e sim um drama que traz como temática a música.

Outro elemento que se torna importante na construção do enredo é o trabalho de som. Algo semelhante vemos ou ouvimos no imersivo “Som do Silêncio”, vencedor de diversos prêmios nas categorias técnicas referentes à mixagem de som. Em dois momentos específicos de “Coda”, vemos a tentativa de inserir o espectador no universo de pessoas surdas, da mesma forma como o original francês também provoca esta sensação. Ambos realizam o feito de formas diferentes, mas com êxito.

Desigualdades sociais e críticas ao capacitismo

Certo que o ponto principal é trajetória da protagonista na busca de conquistar seus sonhos. Mas o plano de fundo em que a história é inserida consegue provocar grandes reflexões acerca das desigualdades sociais, econômicas e de exclusão de Pessoas Com Deficiência (PCDs). Aliás, esse é a principal característica que se distancia o remake do original.

Em “Coda – No Ritmo do Coração”, a diretora optou por adaptar o contexto em que a família de Ruby vive. A pesca, que é o sustento da família, começa a não render mais tanto quando deveria. E um dos fatores que implica essa redução de lucros está indiretamente no fato dos desafios que uma pessoa com deficiência auditiva possui.

O diálogo que Ruby tem com seu irmão mais velho reforça esta ideia: o personagem de Daniel Durant é certeiro ao levantar problemáticas que evidenciam o quanto a sociedade pode ser preconceituosa e capacitista.

“- Eu faço isso isto, eu dou conta. Sou o irmão mais velho e sou tratado como bebê. Não pude fazer nada com a Peixe Fresco [empresa da família]!

– Porque tudo envolve falar com ouvintes.

– E daí? Quem se importa? Você tem medo de que a gente pareça idiota. Eles que descubram como lidar com surdos. Não somos indefesos”.

Apesar de “Coda – No Ritmo do Coração” não apresentar uma estrutura narrativa inovadora, a relevância social que o longa traz e a forma como ele que foi construído são suficientes para ignorar clichês.

A adaptação estadunidense preserva a essência do original ao provocar reflexões sobre amor, respeito e inclusão social. E a direção de Sian Heder ao lado do elenco de peso, conquistam e emocionam o público.

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