O cinema conta muitas histórias de injustiças e The Mauritanian é uma delas. É mais um filme sobre os abusos e atos terríveis cometidos pelo governo e oficiais norte-americanos em nome da “guerra ao terror” após os atentados às Torres Gêmeas. Mohamedou Salahi é o mauritano do título. Pouco depois dos ataques de 11 de setembro nos Estados Unidos, ele foi detido em seu país para questionamento e simplesmente desapareceu.

Salahi, interpretado no filme por Tahar Rahim, foi levado a Guantánamo. Após vermos a sua prisão no início do filme, a narrativa pula para 2005, quando passamos a acompanhar os esforços das advogadas vividas por Jodie Foster e Shailene Woodley para defendê-lo. Também seguimos a trajetória do advogado de acusação, o oficial militar vivido por Benedict Cumberbatch. Todos – defesa e acusação – descobrem que o caso de Salahi é estranho e cheio de peculiaridades, começando pelo fato dele ter sido detido sem que ninguém soubesse sequer do que ele estava sendo acusado.

The Mauritanian segue o mesmo caminho de várias outras obras do gênero: é um bom filme, de denúncia, sobre um tema importante e bem defendido pelos seus atores. Mas, no fim das contas, ele não traz nada de novo nem diz nada que o público já não soubesse. É um daqueles filmes em que a denúncia, o tema, é o mais importante, o cinema nem tanto. No comando está o diretor Kevin Macdonald, que já tinha se aventurado na seara dos thrillers políticos com fortes inspirações reais com suas obras O Último Rei da Escócia (2006) e Intrigas de Estado (2009). Devido à sua experiência, Macdonald conduz o filme com habilidade e com um bom ritmo.

São interessantes também algumas das suas escolhas estéticas. Os flashbacks de Salahi, que o mostram sendo interrogado e depois torturado em Guantánamo – tortura sancionada pelo governo dos EUA e aprovada pelo nefasto então secretário de Defesa, Donald Rumsfeld – são filmadas no formato de tela quadrado, mais estreito, para deixar a situação mais claustrofóbica, mais angustiante. Como o resto do filme é apresentado na tela ampla, no formato de tela widescreen, a transição para os flashbacks sempre causa estranhamento e angústia.  As cenas de tortura também são eficazes devido à montagem, que contribui para a desorientação desses momentos. A montagem ainda se alterna cronologicamente entre os anos de 2002 e 2005, passado e presente, de forma fluida e natural. Pena que, perto do fim, “The Mauritanian” dê uma acelerada nos acontecimentos, com saltos cronológicos grandes, como se o longa estivesse passando por uma lista de tópicos da Wikipedia.

RAHIM, O DONO DO FILME

Se dos pontos de vista formal e estético o filme é interessante, é no roteiro que ele se mostra menos criativo. Tudo soa superficial, incluindo as caracterizações e situações. Salahi, apesar do drama que vive, não é um personagem assim tão interessante e, em alguns momentos, “The Mauritanian” parece mais interessado nos seus salvadores do que nele próprio. Os personagens de Foster e Cumberbatch são caracterizados de forma bem ampla e genérica – a advogada militante e o oficial rígido – e ambos, com suas presenças, parecem injetar na história conflitos e uma força que não estão no texto. Foster lê relatórios e briga com sua subordinada de maneira super dramática; já Cumberbatch, com um sotaque perfeito, é confrontado pela sujeira e as arbitrariedades do caso contra Salahi e começa a pensar no que está fazendo. São conflitos dramáticos bem genéricos, que capturam a atenção do espectador mais pelos atores do que pela qualidade do roteiro.

Nas cenas que tem, o sempre carismático Rahim é dono do filme. Com uma atuação bem natural, ele faz do seu personagem uma figura humana com quem o espectador sente empatia. Perto do final de “The Mauritanian”, seu discurso olhando para a câmera é um momento bem óbvio e didático, é verdade, mas mesmo assim funciona pela bela atuação do ator. Fica-se até a lamentar pelo fato de não ter mais Rahim no filme, embora ele seja o óbvio protagonista da história.

Por isso mesmo, The Mauritanian é uma oportunidade perdida: é bom, mas havia potencial para ser melhor. O longa de Macdonald prefere seguir a cartilha de sempre, se contenta em ser mais um filme sobre as sacanagens do governo dos EUA em nome do combate ao terrorismo. Tudo que acontece na história, você já consegue adivinhar rapidamente. E essa história é contada daquela mesma forma que você já viu várias vezes em outros filmes. A história de Mohamedou Salahi é importante e merece ser conhecida, e é razoavelmente bem contada aqui. Mas a superficialidade e a abordagem acabam, paradoxalmente, tirando dessa mesma história qualquer impacto a mais que ela poderia ter.

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