Dependendo da forma como você o vê, “Titane” é um horror porrada no estômago, uma hilária comédia de humor negro ou um drama sobre pessoas muito, mas muito quebradas. O filme ganhador da cobiçada Palma de Ouro – prêmio máximo do Festival de Cannes – deste ano e exibido no Festival de Londres é, na verdade, todas estas coisas. É também a monstruosa e pirada fábula sobre uma dançarina serial killer com um tesão por carros que você nunca soube que queria ver.

“Titane” acompanha Alexia (Agathe Rousselle) – uma dançarina erótica com um instinto assassino e uma placa de titânio na cabeça. Ela foge da polícia depois de cometer uma série de homicídios e assume a identidade de Adrien, o filho desaparecido do bombeiro Vincent (Vincent Lindon). O problema – espere, continue lendo – é que ela está grávida de um carro (!!) e seu crescente barrigão se torna uma bomba-relógio, pronta para expor seu disfarce no menor deslize.

O novo longa da cineasta Julia Ducournau (“Grave”), escolhido pela França para representar o país na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Internacional do ano que vem, abraça a absurdez de sua premissa em uma produção que bebe da literatura pulp, do cinema noir e do horror. Repetindo a parceria com o diretor de fotografia Ruben Impens, o resultado é uma alucinação em neon que nasceu para as sessões de meia-noite.

TERROR DAS LIMITAÇÕES HUMANAS

O maior ponto de referência da obra de Ducournau é o body horror – a vertente do gênero que explora a degeneração e a destruição do corpo como ápice do medo – ainda que seus filmes se encaixem na categoria de forma mais teórica do que prática. Aqui, para além da carnificina bastante explícita, a preocupação da diretora está em pessoas aterrorizadas pelas limitações de seus corpos e dispostas a lutar contra a própria biologia – custe o que custar.

Tome Alexia como exemplo: eis uma mulher que, a despeito de abraçar sua sexualidade multifacetada, rejeita em um nível quase molecular o papel feminino da sociedade. Quando fica grávida, seu corpo vira seu inimigo e o vilão de sua história. Paralelamente, seu pai de mentira Vincent tampouco está em melhores termos com o próprio corpo, injetando doses absurdas de esteroides para deter os efeitos da idade.

CHOCANTE E MEMORÁVEL

O conteúdo violento de “Titane” costuma dominar as discussões sobre o filme, o que é peculiar e também um pouco reducionista. Não há muito sangue e tripas em “Titane”, mas os momentos em que eles dão as caras são suficientes para mandar os membros mais sensíveis da plateia direto para a saída – e para o banheiro.

Em compensação, o que não falta é um senso de humor macabro e perverso. A cena da orgia é quase tarantinesca e a consumação carnal entre Alexia e seu carro rende uma das cenas de sexo mais inesquecíveis do cinema. Ducournau pode estar querendo falar de empatia entre monstros e de uma sexualidade para além de gêneros (e até mesmo de humanos), mas ela está se divertindo demais com isso para deixar pontos importantes ficarem no caminho de esquisitices e massacres. Chocante e memorável, “Titane” é o que acontece quando uma cineasta decide bater contra o muro de suas obsessões a 200 Km/h.