A certa altura de Veneza, novo filme de Miguel Falabella, uma das personagens, após assistir a uma apresentação teatral num circo, diz a um dos atores da trupe: “a história não é de verdade, mas eu sempre choro”. De certa forma, essa fala resume a obra: Veneza é um filme sensível e tocante sobre o poder da ilusão e que trabalha de forma efetiva esse tema dentro da sua narrativa.

Na história, ambientada em algum interior do Brasil numa época indeterminada, acompanhamos uma unidade familiar, digamos, incomum. Num prostíbulo, Gringa (interpretada por Carmen Maura) é a figura materna do lugar. É uma velha prostituta cega com desejo intenso de viajar a Veneza para reencontrar um grande amor do seu passado. Rita (Dira Paes) é quem mantém o lugar funcionando e Tonho (Eduardo Moscovis) vive por ali por ter praticamente nascido no bordel – sua mãe trabalhou lá. Ele presta favores e ajuda a cuidar das coisas em troca de sexo. Todos se comovem com o drama de Gringa e resolvem criar um plano para fazê-la viajar até Veneza.

Falabella, como ator além de diretor, não foge das origens teatrais do projeto baseado na peça argentina “Venecia”, de Jorge Acamme. Seu filme é de atuações, seu foco é nos personagens. Mesmo assim, Veneza tem trabalhos admiráveis de direção de arte por Tulé Peake e de cinematografia de Gustavo Hadba. Os ambientes tanto sombrios quanto coloridos do bordel criam uma atmosfera acolhedora e, ao mesmo tempo, triste e decadente, apropriada para a história. E a câmera de “Veneza” é bastante fluida, dinâmica: ambientes são explorados de maneira interessante e a câmera se aproxima dos personagens em vários momentos, revelando conflitos interiores e emoções.

O filme faz homenagem ao teatro até mesmo ao incluir dentro da trama uma apresentação de atores num circo, mas Veneza é bastante cinematográfico – essa mesma apresentação é fotografada com os atores em preto-e-branco contra um cenário em cores. E percebem-se influências claras de Federico Fellini e Pedro Almodóvar, especialmente deste último – nem poderia deixar de ser, a começar pela presença de Maura.

UM FILME DE UM ATOR PARA SEUS ATORES

Carmen Maura é mesmo a âncora de “Veneza”, mas todos os atores realizam ótimos trabalhos no filme. Ele pertence aos atores, claro: Dira Paes, Eduardo Moscovis, Carol Castro e Caio Manhente no papel do jovem Julio se entregam de verdade aos seus papeis e, juntos, criam um clima de “trupe” que se percebe no filme. Mesmo papeis menores, como o de Danielle Winits, ainda recebem momentos para brilhar. É um filme para se observar e aproveitar os pequenos detalhes que trazem riqueza às atuações e revelam a intimidade dos atores, como o fato da Gringa tocar um dos seios da personagem Madalena algumas vezes, ou o momento em que Tonho começa a cantar num momento chave.

Ainda se nota em Veneza alguns floreios poéticos meio bobos aqui e ali, como a cena em que Rita aparece cercada por ventiladores. Mesmo assim, eles são poucos e o filme compensa cenas como essa com momentos de humor inesperado e com a sua visão tocante. A produção também derrapa um pouco na resolução apressada – mas tristemente real – da subtrama do Julio. Falta ao roteiro um pouco mais de estofo, um pouco mais de tempo a ser gasto nesse desenvolvimento para fazer o drama desse personagem impactar de fato.

Mesmo assim, ao final de Veneza, o longa nos deixa com belas imagens e momentos tocantes. E mais: com um elogio sincero e belo à capacidade de sonhar, nosso único antídoto contra a realidade. É um filme puro e totalmente a favor da defesa da ilusão, adquirindo até mesmo características de uma fábula. E fábulas, claro, são muito importantes para ajudar os seres humanos a superar momentos difíceis. Nesse sentido, é uma obra também sobre o poder do cinema, essa ilusão tão forte que nos ajuda a encarar o dia-a-dia.

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