Dez anos de “O Escafandro e a Borboleta” e admito: fazia dez anos que não via o filme.

É o tipo de obra que coloco naquela categoria: “Filmaço, mas que não quero ver de novo”.

Culpa da aflição causada ao longo dos brilhantes 112 minutos do longa.

No filme, adaptado do livro homônimo, acompanhamos trechos da vida de Jean-Dominique Bauby (Mathieu Amalric) que, ao sofrer um terrível AVC e acordar de um coma profundo, é diagnosticado com uma condição rara chamada Síndrome do Encarceramento. Incapaz de falar e paralisado dos pés à cabeça, Bauby apenas contava com o olho esquerdo para se comunicar e aí que começa sua jornada de reflexões e lembranças que levam a escrever um livro mesmo nesta situação.

A maestria da direção de Julian Schnabel em nos fazer imergir no drama do protagonista é, sem dúvida, o ponto alto do filme. As escolhas visuais casam muito bem com a narrativa e convergem em um compartilhamento de sentimentos entre quem está assistindo e o protagonista. Isso se deve, principalmente, à utilização da câmera, apresentando, na maior parte do filme, o ponto de vista de Bauby. Quando o personagem desperta, temos a visão confusa, embaralhada e manchada como se tivéssemos acabado de despertar junto com ele. E talvez um dos momentos mais aterrorizantes do filme seja quando ele, impotente e impassível, tem um dos olhos suturados para que a córnea não ressecasse.

Repito: tudo isso mostrado do ponto de vista dele!

Essa escolha narrativa ajuda a criarmos vínculo e a empatia mais naturais possíveis. Através dos flashbacks, “O Escafandro e a Borboleta” revisita as memórias do homem sem canonizá-lo, mas exibindo um profissional de sucesso, enérgico e apaixonado pela vida e pelo trabalho. Quando nos deparamos com seu estado pós-coma, nos causa comoção e, ao mesmo tempo, entendemos perfeitamente seu desespero ao pedir para morrer em determinado momento.

Podemos notar também no decorrer da história que Schnabel se preocupa em trabalhar a narrativa com certa agilidade. Ao estabelecer a forma como Bauby se comunica com o mundo ao seu redor, entre as transições de cena, ele já passa diálogos corriqueiros que sabemos que não ocorreram de maneira natural, mas o que faria perder muito tempo, e arriscaria mergulhar o filme em uma monotonia e deixá-lo enfadonho.

Além dessa característica, pode ser notado diversos elementos simbólicos para explicar, por exemplo, a razão do Escafandro e a Borboleta terem tamanha relevância em seus pensamentos.

O primeiro por conta da “prisão” que se transformou o seu corpo: sempre que o personagem se encontra angustiado e sem conseguir se comunicar, ele se pega como estivesse dentro da pesada roupa de mergulho, solitário e imerso em um oceano. E a borboleta é quando se liberta e dá asas a sua imaginação, saindo do casulo. Tanto que, em uma cena, é possível enxergar uma borboleta pousando sobre o abajur da editora de seu livro, enquanto ele anuncia para a mesma a decisão de escrevê-lo.

O trabalho de Mathieu Amalric é outro golaço do filme. O que poderia render uma narração histérica, aqui tem controle e emoção. O desespero em sua “voz” ao se ver toda vez em algum reflexo, seja em espelho ou nos vidros por onde passa, e a expressividade em seu olhar, seus pensamentos e desejos por sua ex-mulher Céline (Emmanuelle Seigner, outro destaque) ou pelas médicas que lhe atendem, ninguém ao redor nota devido sua condição. Quando ele consegue rir de si mesmo em determinada situação, ele automaticamente se frustra ao notar que ninguém percebeu que ele se divertiu com o momento.

Corajoso em muitos momentos e de partir o coração em outros, “O Escafandro e a Borboleta”, no fim, se revela um drama biográfico sensível e bem realizado, que consegue comunicar os sentimentos do protagonista a quem assiste, mesmo com ele impedido de fazê-lo fisicamente.

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