Na televisão, somos chegados num mistério. Que o digam admiradores de produções como Twin Peaks ou Lost… O da série 13 Reasons Why da Netflix é bem atraente: alguma coisa está acontecendo com os alunos da escola Liberty, um daqueles ambientes escolares típicos dos Estados Unidos, a high school, povoados por verdadeiras castas como a dos atletas, dos populares, dos esquisitos, das líderes de torcida… Uma aluna da Liberty, Hannah Baker, cometeu suicídio. Antes de fazê-lo, porém, Hannah gravou sete fitas cassete – o aspecto retrô é curioso e indicativo da personalidade da moça – contando a sua história e as razões para o seu ato. A série começa quando Clay, um jovem que conhecia Hannah e era secretamente apaixonado por ela, recebe o conjunto de fitas – seis com os dois lados gravados e a última com um lado vazio – e começa a ouvir os 13 motivos que contribuíram para que ela tirasse a própria vida.

Cada “motivo”, na verdade, é uma pessoa que conviveu com Hannah.  E assim, a série aborda temas relevantes e que tocam bastante os jovens – embora não apenas eles – como bullying, estigma social, machismo, isolamento e estupro, além do próprio suicídio. A série, baseada no livro do autor Jay Asher, traz entre seus produtores a atriz e cantora Selena Gomez e o cineasta Tom McCarthy, indicado recentemente ao Oscar pelo filme Spotlight: Segredos Revelados (2015), e se preocupa em discutir estes temas de forma séria e realista. 13 Reasons Why não é Malhação ou alguma série teen leve: é sobre o lado negro da adolescência. É um mistério, e quanto mais nos aprofundamos nele, mais compreendemos o abismo presente na vida de uma pessoa que poderia ter sido salva, mas não encontrou ajuda e só conseguia ver tudo pelas lentes tristes e intensas da adolescência.

Não é uma série desprovida de defeitos, mas felizmente as qualidades são mais fortes. Para começar, o elenco jovem é uniformemente sólido. Dylan Minnette, de O Homem nas Trevas (2016), interpreta Clay e é um ator interessante e carismático o suficiente para manter o interesse do espectador mesmo com um personagem, na maior parte do tempo, passivo. E Katharine Longford como Hannah é uma revelação: a jovem atriz de olhos e rosto expressivos conquista o espectador logo de saída, e consegue dar vida a uma personagem difícil que poderia ser vista de outros modos caso o desempenho da atriz não fosse tão concentrado. Algumas cenas entre Minnette e Longford são realmente de cortar o coração. Ainda no elenco, destacam-se Alisha Boe como Jessica, e Kate Walsh e Bryan D’Arcy James como os pais de Hannah.

Os roteiros da série também demonstram inteligência ao explorar as complexidades do mundo adolescente e da própria Hannah. As coisas não são “preto-no-branco” em 13 Reasons Why. Clay é visto como sensível e o “herói” da série, mas em certo momento é visto se masturbando diante de uma foto de Hannah, foto esta que circula pela escola. Algumas personagens femininas deveriam ser mais sensíveis aos problemas de Hannah, mas a tratam tão mal quanto os rapazes que a objetificam. Um desses rapazes, aliás, revela num dos episódios que guardou um bilhete importante naquele segmento, enquanto a narradora das fitas afirmava que ele o tinha rasgado. A própria Hannah não escapa de um retrato mais complexo: na maior parte dos momentos ela tem, sim, razão de se sentir humilhada e isolada dentro do colégio; porém em outros as emoções intensificadas da adolescência a atrapalham. Ela é chamada de “dramática” de vez em quando, e esse termo não é despropositado.

Mesmo assim, essa complexidade dá lugar a alguns problemas aqui e ali. Embora o núcleo da série seja sólido e o mistério envolvente, 13 Reasons Why às vezes peca pelo excesso. Um acidente de carro em dado momento da temporada parece um elemento de trama supérfluo e que apenas se acumula ao geral, nos deixando perigosamente perto de um humor involuntário, e de considerar Hannah Baker como “a garota mais azarada do mundo”. E o que dizer das cenas tolas do episódio 8 nas quais Clay e o seu amigo Tony (Christian Navarro) escalam um morro, uma subida potencialmente perigosa, sem motivo dramático algum? E em alguns momentos a hesitação de Clay em continuar ouvindo as fitas soa como um pouco de enrolação por parte da série – ele chega a atirar longe os fones de ouvido numa cena… Definitivamente ele não é adepto de fazer “maratonas”, o que é irônico por se tratar de um protagonista de uma série da Netflix… Aliás, o fato de uma história como essa, tão voltada para temas importantes para as mulheres, ter como protagonista um jovem rapaz é uma incongruência que a produção até se esforça para minimizar, mas não consegue de fato resolver.

Mesmo assim, é meio difícil ficar indiferente à série e ao mistério dela, e cada novo episódio fornece uma peça do quebra-cabeça do suicídio de Hannah Baker. De fato, 13 Reasons Why toma emprestado algumas estratégias de Twin Peaks, desde a investigação em torno da morte de uma jovem, até a fotografia exuberante e de cores vivas nas cenas do passado, quando Hannah estava viva – as cenas do presente são fotografadas num tom azulado e frio, não muito diferentes do azul do esmalte com o qual a jovem pinta as unhas nos últimos episódios. E vale lembrar, a Laura Palmer de Twin Peaks também deixou gravadas algumas fitas antes de morrer… O fascínio de um mistério televisivo bem contado é poderoso, porém aqui ele vem acompanhado de uma tragédia. 13 Reasons Why é trágica, dramática e pesada, com direito até a avisos no começo de alguns episódios sobre cenas perturbadoras de estupro e agressão. E ganha ainda mais ressonância por sabermos que existem várias Hannah Bakers por aí, não apenas nos Estados Unidos: contraditórias, sofridas e terrivelmente sozinhas.

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