“2 Coelhos” foi vendido para mim como o “Sucker Punch brasileiro”. Por isso, liguei o meu desconfiômetro na hora. Afinal, o filme de Zack Snyder se preocupa com a estetização e o ritmo de videoclipe a ponto de se esquecer de contar uma história e de ter personagens carismáticos. “Sucker Punch” entrou em listas de piores filmes de 2011 e, por isso, não seria uma referência cinematográfica positiva. Mas, pelo visto, acompanhado pelos filmes do Tarantino, o foi. Infelizmente, as minhas expectativas em relação a “2 Coelhos” se concretizaram. Com exceção da parte das listas, toda a descrição da produção americana se encaixa perfeitamente no filme nacional.

O filme escrito e dirigido por Afonso Poyart conta como o playboy Edgar (Fernando Alves Pinto, que parece o Paulo Miklos até nos cacoetes de expressão) pretende roubar uma maleta com dois milhões de dólares e, assim, dar uma lição nos corruptos e ter uma vida mansa longe da sua cidade, São Paulo. De ladrões da periferia a um político corrupto querem o dinheiro. Na busca pelos dólares, haverá muitas explosões, perseguições de carros, tiroteios e traições. Os maiores trunfos da história são a sua estética, até então inédita no cinema nacional, e a narrativa que brinca com seus elementos narrativos e sua não-linearidade. Os efeitos visuais, como as animações em 3D, impressionam num primeiro momento por causa da sua qualidade técnica. Infelizmente, observando o todo, eles apenas envernizam com cultura pop a sucessão de incoerências da história.

Exemplos delas não faltam. Velinha (Thaíde) assalta Edgar e, numa Síndrome de Estocolmo sem sentido, o protagonista vai atrás dele, liberta-o da prisão e propõe-lhe uma parceria para conseguir a maleta. Edgar tem um iPhone e uma BMW, mas não tem sequer uma muda de roupa no seu apartamento de luxo. Esta informação causa uma reviravolta no terceiro ato. Pois é.

Outra incoerência é Walter (Caco Ciocler). O professor universitário larga o seu emprego depois de uma tragédia da história e aceita trabalhar no restaurante do pai do seu desafeto Edgar sem nenhuma razão plausível. Além disso, seu brinco é constantemente realçado e contribui em nada para o desenvolvimento dele e nem para a história como um todo. A incoerência em Júlia está na escolha de Alessandra Negrini para dar-lhe vida. A linda atriz desempenha com profissionalismo o papel da advogada jovem, bem-sucedida e com um toque de ninfeta. Mas Júlia seria mais plausível se fosse vivida por uma atriz mais jovem. Isso porque, ao observarmos as mãos e as rugas de Negrini, percebemos que a idade está chegando aos poucos para ela…

Todas essas incoerências são vividas por personagens que não se passam de tipos. Os conflitos e motivações de Edgar procuram chocar o público, mas se tornam justificativas pouco convincentes para explosões e violência. Seus offs podem até incomodar com seu rebuscamento e frases de efeito sem efeito. Júlia é bonita, charmosa e só. A canastrice dos vilões é tragicômica, porque suas caras e bocas de bad guys são involuntariamente engraçadas. A exceção é Walter. Caco Ciocler não deixa de transformar a variação e a intensidade de suas emoções e dramas do personagem em um simples golpe de efeito do roteiro.

Câmeras DSLR foram usadas em “2 Coelhos”. Sua fotografia aproveita a sensibilidade do foco do equipamento e brinca com a profundidade de campo. O resultado, interessante, direciona o olhar do espectador e contribui para seu ritmo acelerado. Mas a sensibilidade da câmera também desfoca personagens quando não seria necessário. Há planos em que o foco está na parede atrás das pessoas. O diretor de fotografia Carlos Zalasik acertou ao priorizar o tom cinza, para simbolizar a frieza de São Paulo e do mundo-cão. Mas ele criou muitos planos com elementos sujos e inúteis. Por exemplo, a conversa de Edgar com o pai no restaurante tem linhas e ângulos que não significam nada e tiram a atenção do que realmente importa na cena. Zalasik escolheu certos filtros que também não contribuem para o desenvolvimento da história. O dourado da procuradoria, além de não acrescentar nada, dói na vista.

“2 Coelhos” seguiu à risca a receita pop de “Sucker Punch” e a estetização da violência dos filmes de Tarantino. Mas o seu roteiro não é bem amarrado o suficiente e, assim, suas reviravoltas não alcançam o impacto esperado. Seu grande feito estaria na sua ousadia e na comprovação de que o cinema nacional atingiu um nível internacional de produção e habilidade técnica. Mas não mostrou nada mais do que isso e uma vontade de ser hollywoodiano a pulso. Como diria o meu amigo Caio Pimenta, “2 Coelhos” é um filme que você esquece depois de descer o primeiro lance de escadas-rolantes.

Pelo menos não as desceríamos ofendidos, como aconteceu quando saímos da sessão de “Segurança Nacional”.

Pôster de 2 Coelhos, de Afonso Poyart

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