Caso A Noviça Rebelde (1965) ainda precisasse de algum tipo de coroação, o Oscar desse ano lhe concedeu. Em uma cerimônia marcada pela briga dos Bs (Boyhood e Birdman) e por um apresentador extremamente fora de sintonia com o evento, um medley com músicas do filme, levado por ninguém menos que a cantora Lady Gaga, foi o que chamou a atenção. Longe dos vestidos de carne que lhe deram fama, Gaga, bebendo do seu lado performer clássica que veio à tona nas colaborações com o crooner Tony Bennett, passeou por vários dos sucessos do clássico no que foi, de longe, o melhor momento da noite.

Não é para menos: A Noviça Rebelde é um musical à moda antiga que conseguiu atravessar gerações (o filme completa 50 anos em 2015, razão pela qual foi homenageado no Oscar), sendo extremamente popular apesar de suas gordas três horas de duração e logrando êxito com a crítica apesar de sua história até certo ponto ingênua.

A versão resumão é a seguinte: Maria (Julie Andrews) é uma noviça que é considerada inapropriada para a vida em um convento na Áustria e é mandada para a mansão de um ex-militar viúvo (Christopher Plummer) para ocupar o cargo de governanta e cuidar de seus sete filhos. Lá, ela encontra um ambiente ainda mais restritivo que o claustro e o combate com ingenuidade e música.

As canções do filme, originadas no musical que lhe serviu de base, encontraram vida longa fora das telonas: músicas como “My Favorite Things”, “Climb Ev’ry Mountain” e “Do-Re-Mi” encontraram bastante sucesso mesmo fora do contexto cinematográfico. Além delas, a icônica The Sound of Music, que abre o longa e lhe dá o seu título original, é estupenda, sendo para os anos 60 o que “Somewhere Over the Rainbow”, de O Mágico de Oz, foi para os anos 40.

Para além de seu papel cultural, é importante ressaltar as coisas que fizeram este filme tão adorado quanto é. As músicas são importantes, claro, mas seria difícil fazer a empreitada toda funcionar sem a performance de Andrews servindo de foco para a trama. Entregando uma leve e esperançosa Maria, a atriz chegou a concorrer o Oscar de Melhor Atriz pelo papel. Ela acabou perdendo para Julie Christie em Darling – A Que Amou Demais (1965), o que pode ter acontecido pela relutância da Academia em premiar Andrews pelo segundo ano consecutivo por um musical (ela ganhou por Mary Poppins no ano anterior).

Além dela, a direção de Robert Wise guia o filme de forma segura e competente. O nome de Wise sempre surge quando se fala de sucessos comerciais mas pouco quando o assunto é expressão artística, o que é uma percepção tacanha do trabalho de um diretor para início de conversa. O estadunidense teve uma das carreiras mais versáteis do cinema (sim, batendo Stanley Kubrick), dialogando com os mundos do terror, ficção científica, melodrama, musical, entre outros. Sua abordagem técnica, que não chama a atenção para si mesma, é herança de seus tempos como editor – ele trabalhou na edição de Cidadão Kane (1941), de Orson Welles.

Além de Wise, muito do grande escopo do filme é devido ao trabalho do diretor de fotografia Ted McCord, que abusa de lindas tomadas aéreas para pintar um retrato de uma Europa romântica e perdida  – pense em O Grande Hotel Budapeste (2014) sem o ar almofadinha. Filmado em 70mm e lindamente colorido, o filme alcança uma beleza estética que valeria o preço do ingresso mesmo se Andrews não abrisse a boca. Mas ela abre, e quando abre, as montanhas, a Áustria, e você se enchem de vida com o som da música.

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