A promissora estreia de Ana Lily Amirpour é o filme escolhido de hoje para O Segundo Sexo, seção especial do Cine Set dedicada a grandes obras de diretoras mulheres.

“A Garota Que Anda à Noite” (mais conhecido pelo título original “A Girl Walks Home Alone at Night”) chamou a atenção em vários festivais de cinema alternativo do ano passado por vários motivos: ele é vendido como o primeiro filme iraniano de vampiros, é o primeiro longa-metragem da diretora Ana Lily Amirpour e se tornou um queridinho de vários críticos, impressionados com a abordagem de um universo que tinha tudo para se apoiar em clichês.

Para quem espera alguma semelhança entre “A Garota Que Anda à Noite” e outra saga recente de jovens vampiros, “Crepúsculo”, um aviso: esqueça esse filme. Em termos de estilo, a obra de Amirpour se aproxima muito mais de “Amantes Eternos”, de Jarmusch. Ela constrói, sem pressa, o microcosmo da cidade Bad City, marcada pelo sincretismo entre as culturas iraniana e americana.

A Garota Que Anda à Noite, de Ana Lily Amirpour A Girl Walks Home Alone at Night

A primeira é expressa em especial pelo fato de que todos falam a língua farsi. Além disso, a protagonista sem nome (Sheila Vand) veste um Chador, adereço que lhe cobre os cabelos e corpo. Já a cultura americana fica por conta de várias características do local em que o filme foi rodado (num bairro californiano). Completando o quadro, há o “vilão” Saeed (Dominic Rains) que esbanja o dinheiro da venda de drogas e exibe com orgulho sua tatuagem no pescoço escrito “sex” em letras garrafais.

É em Bad City que a protagonista vaga toda noite, tendo como vítima de seus caninos pontiagudos aqueles que ela considera ruins. É assim que ela esbarra com Arash (Arash Marandi), um jovem cujo pai, o viciado Hossein (Marshall Manesh), devia dinheiro ao traficante Saeed. Arash perde seu precioso carro para Saeed, que toma o veículo do jovem como pagamento da dívida de Hossein. Porém, quando Arash encontra Saeed morto com estranhas marcas no pescoço, ele fica com as drogas e o dinheiro do traficante, iniciando seu próprio “negócio”. Numa trama na qual os personagens se encontram e desencontram várias vezes, há ainda a prostituta Atti (Mozhan Marnò), que acaba sendo protegida várias vezes pela protagonista.

Luz e sombras

De cara, o que chama a atenção em “A Garota Que Anda à Noite” é a sua bela e simples fotografia em preto e branco encabeçada por Lyle Vincent, um nome para se prestar atenção no futuro. É perceptível o baixo orçamento do filme, mas também é explícito como foram encontradas soluções muito inteligentes para que isso não fosse empecilho ao desenvolvimento do projeto, e de todos os elementos da obra, a fotografia é o que mais evidencia isso.

O trabalho da luz e, por conseguinte, a maneira como as sombras se projetam nos ambientes é uma bela homenagem aos filmes de terror das primeiras décadas do século XX. Em especial nos closes, as sombras são usadas para dar destaque, por exemplo, aos expressivos olhos das personagens femininas, deixando-os fulgurantes nas longas noites em que se passa a trama.

Aliado à fotografia, a atenção ao figurino ajuda a criar uma atmosfera bem específica aos habitantes de Bad City. A protagonista interpretada por Vand usa sempre a mesma roupa, um conjunto simples de camiseta listrada e calça, dando-lhe um ar de personagem de história em quadrinhos.

Seu Chador negro é colocado toda vez que a jovem sai de casa, servindo como referência tanto ao contexto da história como às clássicas capas de vampiro de filmes antigos, o que torna curioso o primeiro encontro dela com Arash. Ele tenta voltar para casa após sair de uma festa à fantasia na qual foi vestido de… vampiro!

As referências

Além do visual interessante, “A Garota Que Anda à Noite” brinca com referências de diversos gêneros. Há quem compare a desolação dos personagens em uma cidade sem lei com o western. Já o uso da trilha sonora instrumental pode muito bem lembrar os filmes de Tarantino, embora Amirpour opte por um ritmo bem mais lento para o seu filme.

Por sua vez, a inspiração maior parece ser mesmo os filmes de vampiro e filmes mudos em geral. Momentos de grande erotismo velado, típicos do expressionismo alemão ou do impressionismo francês, podem ser associados ao momento em que Arash e a protagonista dançam em câmera lenta no quarto da jovem, ou quando ela pede que ele lhe fure as orelhas para poder usar os brincos que o apaixonado rapaz lhe presenteia.

Mulheres para se prestar atenção

De certa maneira, percebem-se também pitadas de certa noção de feminismo no filme, uma vez que o roteiro não se prende à história de amor entre os jovens Arash e a protagonista. Esta, aliás, usa a vestimenta tradicional para sair às ruas com a mesma naturalidade com que usa de sua aparente condição frágil de mulher para vitimar os homens “maus” de Bad City. Além disso, o laço de proteção que ela cria com a prostituta Atti aproxima a condição de ambas, por mais diferentes que sejam e por mais que Atti tenha quase o dobro da idade da protagonista. O dinamismo dado aos arcos dessas personagens é bastante curioso, ainda que construídos numa narrativa fluida.

Nesse sentido, o trabalho de Vand como a jovem vampira impressiona. Seu olhar intenso não fica nada a dever às referências masculinas como Boris Karloff. Com uma personagem de pouquíssimas falas, ela se apoia numa atuação que valoriza pequenos gestos e muito, muito silêncio. A languidez que ela imprime à protagonista a disfarça de mulher tradicional e submissa, escondendo a ameaça mortal e, de quebra, passando a noção de imortalidade de sua natureza num filme em que a palavra “vampiro” não é falada uma única vez.

Ainda que em alguns momentos o filme pareça perder fôlego, “A Garota Que Anda à Noite” surge como um daqueles pequenos filmes cult que valem a pena ser conferidos pela promessa que trazem consigo como primeiro longa-metragem. Sua construção narrativa diferenciada, o cuidado com o visual e um bom trabalho de elenco, Ana Lily Amirpour diz, indiretamente, que o público pode anotar seu nome para conferir os próximos filmes.

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