O produtor Harvey Weinstein foi basicamente escorraçado da própria produtora, denunciado por uma lista de mulheres do calibre de Angelina Jolie e Gwyneth Paltrow e expulso da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas e da Guilda de Produtores da América. Tudo graças aos casos de assédio sexual e estupro que remontam há décadas finalmente vindo à tona desde outubro. A polícia de Nova York já tem uma investigação em curso a partir de tantas denúncias, e a chance dele ir para a cadeia é real.

Mesmo com essa ficha, uma grande interrogação pairou na cabeça de que acompanha mais de perto as notícias do mundo do cinema quando as denúncias contra Weinstein tomaram uma proporção gigantesca: quantos mais vão cair em desgraça como o magnata? Ou melhor, alguém de fato vai cair? Afinal de contas, burburinhos e fofocas sobre relações de poder nada corretas na indústria cinematográfica nunca foram novidade.

O efeito dominó, porém, mostrou-se plausível em 2017. Num movimento praticamente sem precedentes, começamos a ver outros casos de toda sorte de homens do ramo sendo acusados de algum tipo de abuso, com as vítimas finalmente sendo ouvidas e as mulheres perdendo o medo de denunciar que o assédio moral e sexual em Hollywood não é novidade e nem exclusividade do caso Weinstein.

Os diretores Oliver Stone, Brett Ratner, Lars Von Trier e Giuseppe Tornatore; os atores Kevin Spacey, Ben Affleck, Dustin Hoffman, Danny Masterson, Jeffrey Tambor e Steven Seagal; e o agente Adam Venit são alguns dos que sofreram os efeitos da promessa de uma nova direção à maneira como a indústria hollywoodiana encara o assédio às profissionais mulheres pós-caso Weinstein. E a lista só aumenta.


UM LONGO HISTÓRICO DE ABUSOS

O relato de abuso da atriz Tippi Hedren contra o diretor Alfred Hitchcock é um exemplo do quanto Hollywood tem um longo histórico de ignorar o problema. Durante as filmagens de “Os pássaros” (The Birds, 1963) e “Marnie – Confissões de uma ladra” (Marnie, 1964), Hedren conta que o diretor proibia membros da equipe dos filmes a socializarem ou sequer tocarem nela. Hitchcock também teria tentado beijá-la a força, tocado-a inapropriadamente e alocado seu escritório ao lado do camarim para ter fácil acesso à atriz durante as produções. Hedren resistiu a todos os avanços, e ele ameaçou e cumpriu a promessa de arruinar a carreira da atriz: o estúdio não se atrevia a contrariar o “genial” diretor e ela ficou na geladeira por anos, sem nunca se recuperar de fato. Apenas recentemente se trouxe à tona tais histórias.

Os abortos forçados a atrizes de Hollywood entre os anos 1920 e 1950, detalhados em artigo da Vanity Fair de 2016, são outro exemplo de como se delineou o poder masculino em Hollywood. Estrelas como Judy Garland, Bette Davis, Joan Crawford, Jean Harlow e Lana Turner estão entre as vítimas desse procedimento, com fins de darem continuidade à carreira e garantirem lucro aos estúdios. O artigo cita Howard Strickling, chefe de publicidade da MGM, como responsável por arranjar os procedimentos forçados para as atrizes do estúdio. Em alguns contratos, penalidades eram previstas para a gravidez mesmo dentro do matrimônio.

Essas restrições contrastavam com a permissividade quando o assunto eram os testes de sofá. Praticamente todos os grandes magnatas de Hollywood têm histórias disso, como bem resumiu um artigo do Daily Beast: Samuel Goldwyn, Louis B. Mayer, Howard Hughes, Jack Warner, Harry Cohn, Darryl Zanuck… ou seja, os produtores que delinearam o cinema tal como conhecemos são nomes escritos também em histórias de assédio, e não só de atrizes, como de atores também. Henry Wilson, lembrado num artigo da Variety, foi o agente de Rock Hudson e era tido como um “especialista” em testes de sofá gay.

Dustin HoffmanNOVO COMEÇO, MESMAS ESTRELAS? TALVEZ NÃO…

Agora que o caso Weinstein criou um precedente de punição ao abuso na indústria, podemos começar a avaliar os efeitos disso em outras carreiras. O diretor James Toback, que não tem uma carreira atual expressiva, foi um alvo fácil nesse contexto, especialmente por ter sido acusado de assédio por mais de 300 mulheres. Mas nomes maiores como Ben Affleck (que assediou uma repórter e uma atriz nos anos 2000 e foi exposto na web ao mesmo tempo em que a bomba de Weinstein estourava) não sofreram grandes consequências. No máximo, Affleck decidiu seguir o exemplo do diretor Kevin Smith e abrir mão dos lucros vindos de suas produções vinculadas à Weinstein. Vale lembrar que o produtor foi o responsável pelo lançamento da carreira de Affleck com “Gênio Indomável” (Good Will Hunting, 1997).

Dustin Hoffman, outro gigante da indústria, também não sofreu grande baque quando duas denúncias de assédio sexual contra ele no passado vieram ao público. Em comum, os dois casos têm o desequilíbrio de poder entre o ator e as mulheres, que, na época, tinham entre 17 e 20 anos e estavam iniciando carreira nos bastidores da indústria cinematográfica. Hoffman foi, pelo menos, obrigado a se desculpar em nota por seu comportamento quando veio à tona o relato de que ele assediou sexual e psicologicamente Meryl Streep quando se conheceram num teste para uma peça e no set de “Kramer Vs. Kramer” (idem, 1979).

Um backlash impactante é o do comediante Louis C. K. Ele foi acusado de assédio por pelo menos cinco mulheres. Ao contrário do ex-magnata Weinstein, ele admitiu o comportamento criminoso e o abuso de poder para com suas vítimas em um comunicado público, pedindo desculpas. Em termos práticos, a punição veio em forma de cancelamento dos projetos do comediante com a HBO e Netflix. O lançamento de seu mais novo filme, “I love you, Daddy” (2017) também foi cancelado pela distribuidora The Orchard.

A queda de Louis C.K. foi grande, mas não tanto quanto a de Kevin Spacey. Tido como um dos melhores intérpretes de sua geração, o ator foi recentemente acusado de assediar sexualmente rapazes jovens em sets como o de seu projeto atual com a Netflix, a série “House of Cards”, durante o desenvolvimento de projetos no cinema e enquanto era diretor do teatro Old Vic, em Londres. As acusações compreendem um período desde os anos 1980 até a década de 2010. O resultado disso tudo? Laços cortados com a Netflix, retirada total do ator de um filme já pronto e cercado de buzz para o Oscar 2018, “All the Money in the world” (com direito à substituição de Spacey às pressas por Christopher Plummer), cancelamento de uma homenagem ao ator no Emmy e o afastamento do ator dos vínculos com sua agência, a Creative Artists.

E OS DE TRÁS DAS CÂMERAS?

Saindo do campo dos atores e chegando aos diretores, temos o foco atual em Oliver Stone, Brett Ratner e Lars Von Trier. Os três foram acusados de assédio por atrizes, que relataram histórias de décadas atrás. Dentre elas, estão Patricia Arquette, Olivia Nunn e a cantora Björk – que afirma ter desistido da carreira de atriz após trabalhar com o dinamarquês Von Trier. Nos três casos, notas públicas e informes de advogados foram apresentados ao público.

A união das mulheres envolvidas nos casos parece, no entanto, tentar mudar esse ar de “tudo acaba em pizza”. Brett Ratner, por exemplo, tem como rival ninguém menos que a Mulher-Maravilha Gal Gadot. A atriz ameaça não repetir o lucrativo papel da heroína a menos que a Warner afaste o diretor, acusado tanto de ter assediado seis mulheres como de ter sido abusivo e homofóbico contra a atriz Ellen Page no set de “X-Men: O confronto final” (X-Men: The last stand, 2006). Esta última alegação foi confirmada por Anna Paquin, que também fazia parte do elenco do filme. Com o lucro de mais de US$ 400 milhões com “Mulher-Maravilha” e uma já anterior redução nos laços entre a Warner e Ratner, é provável que ele entre na geladeira por tempo indeterminado, na melhor das hipóteses.

O caso do diretor dinamarquês Lars Von Trier mostra que as relações de poder desiguais não são domínio apenas de Hollywood. Ele, que foi acusado por Bjork de assédio sexual e psicológico, tem que lidar agora com as recentes acusações contra o estúdio Zentropa, co-fundado por Von Trier. Segundo ex-empregadas, o ambiente de trabalho ali era de constante assédio moral e sexual, principalmente por parte do CEO da Zentropa na época compreendida pelos relatos, Peter Aalbæk Jensen.


E O FUTURO?

Com novas acusações encontrando a luz do dia, os veículos especializados no mundo do cinema mal conseguem acompanhar o ritmo da publicação dessas tristes notícias. Mais atores populares como Charlie Sheen, que supostamente abusou do ator Corey Haim quando este tinha 13 anos, estão entrando na roda. O timing parece propício para ressuscitar discussões envolvendo Jared Leto (acusado de abuso sexual e estupro), Michael Fassbender (acusado de violência doméstica contra uma ex-companheira), Gary Oldman (idem, o que pode influenciar sua tentativa de emplacar um Oscar em 2018 por “Darkest Hour”), Casey Affleck (assédio sexual, o que pode lhe custar a participação no Oscar 2018 entregando o prêmio à próxima Melhor Atriz), o diretor Bryan Singer e Gary Goddard (orgias regadas a drogas e rapazes menores de idade)… enfim, deu pra entender que a lista é grande, né?

As denúncias, aliadas a um front cada vez maior de mulheres, parece apontar para uma perspectiva de mudanças nas condições de trabalho delas em Hollywood e para além do mundo do cinema também. No domingo (12), centenas de pessoas marcharam no distrito de Los Angeles contra o tratamento indigno às mulheres, seguindo um trajeto que seguia do Hollywood Boulevard e Highland Avenue, passando pela Calçada da Fama e chegando aos escritórios da CNN. Intitulada #MeToo, a marcha se posicionou a favor das vítimas de abuso sexual e contra a cultura permissiva de assédio às mulheres.

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