É notório que do ano passado para cá, a Netflix vem se especializando em lançar filmes de ficção-científica. Infelizmente, o streaming parece mais interessado em caprichar no visual de suas produções – em sua grande maioria, deslumbrantes – do que proporcionar ao público, histórias envolventes, fantásticas e reflexivas, elementos-chave para quem ama a sci-fi clássica. Se juntarmos Bright, Cloverfield Paradox, Mudo, não temos um filme decente. É o que chamamos de bonequinha de porcelana, bonito por fora, mas oco por dentro. A exceção é Okja que tem uma boa sustância no seu roteiro ainda que o resultado final é apenas mediano.

Aniquilação, segundo trabalho na direção do roteirista Alex Garland, disponível desde 12 de março na plataforma, é outra ficção-científica netflixiana que aniquila por completo qualquer paciência ou tolerância que podemos ter em torno do controle de qualidade das obras cinematográficas geradas pelo serviço. Baseado no livro de Jeff VanderMeer, a bióloga Lena (Natalie Portman) se vê desafiada a participar de uma expedição pelo interior da Área X, local que acontece um fenômeno sem explicação, conhecido como Shimmer (brilho em português), responsável por estranhas mutações em uma região dos EUA. Seu aceite se dá em razão do seu marido Kane (Oscar Isaac), que retorna como único sobrevivente de uma missão investigativa no local, um ano depois de ser dado como morto. Vendo o seu marido sofrer de uma anomalia física, Lena resolve entrar no interior do fenômeno, juntamente com uma equipe militar, para descobrir o que aconteceu com Kane.

Seguindo o jargão popular “de boas intenções, o inferno está cheio”: Aniquilação é uma sci-fi existencialista repleta de intenções pertinentes no seu escopo narrativo, contudo, executada burocraticamente, como se o próprio capiroto aniquilasse a “alma ” e “vida” dos ótimos mistérios que seu argumento estabelece nos primeiros 20 minutos.  O fato é que Garland como roteirista sempre foi habilidoso na criação de ideias, mas para aprofundá-las, sempre cai na obviedade e escolhas limitadas.

É o caso de Extermínio (2003), Sushine: Alerta Solar (2007) e Dredd (2012), obras com conceitos e desenvolvimentos interessantes, mas com conclusões ruins. Alex é quase um Sandoval Quaresma da Escolinha do Professor Raimundo que depois de acertar várias questões, na hora de responder a última questão para tirar o dez, patinava.

Aniquilação neste aspecto, é fiel as virtudes e defeitos do seu realizador. Transita entre várias referências do cinema: da sci-fi questionadora de Tarkvoski – há ecos de Stalker (1979) nas cenas no brilho -, ao terror cósmico da literatura de H.P.Lovercraft até chegar ao coração narrativo dos filmes B sociais, do clássico Vampiro de Almas (1959) de Don Siegel a Enigma do Outro Mundo (1981) de John Carpenter, ambos parecem ter servido de grande inspiração para Alex escrever seu filme.

É claro que a proposta de discussão filosófica e existencialista da condição humana sobre o processo de criação e a dicotomia entre o ciclo de vida e morte, revela-se uma ideia maravilhosa, bem como ambiciosa por parte do texto. As dúvidas que o grupo de soldados, todo composto por mulheres, se questiona em relação aos mistérios que enfrentarão no brilho na primeira meia hora do longa, é instigante e prende muito bem a atenção do público. A composição visual que, à primeira vista, parece discreta e brega, ganha sua força quando a trama passa a se desenvolver  dentro dele e o design visual do lugar, com suas cores e paisagens estranhas, transmitem ao público a sensação de que o ambiente realmente pertence a outro mundo.

O problema é que depois de nos situar neste contexto enigmático, o ritmo do longa cai vertiginosamente. Isso acontece por dois motivos: o primeiro porque o roteiro pouco desenvolve seus personagens. É legal ver um grupo de mulheres comandando as ações da história, só que Garland desperdiça a oportunidade de criar personagens femininas complexas, preferindo deixá-las absortas nos estereótipos. Sem um aprofundamento adequado de suas motivações ou que nos faça entender quais são seus sentimentos em lidar com os fatos estranhos que presenciam, é complicado se identificar com qualquer personagem ou com a profundidade emocional oferecida pelo texto, principalmente quando elas entram em conflito.

Não à toa, que nem mesmo Lena, a protagonista vivida por Portman ganha um tratamento satisfatório. A atriz mais uma vez prova que é talentosa e se esforça em estabelecer uma empatia junto ao público, mesmo que o texto trate sua personagem de forma mecânica. Desperdício, também é a palavra da vez para explicar a presença da ótima Jennifer Jason Leigh como chefa da expedição. Sua personagem é tão superficial e maltratada pelo roteiro, que só não passa mais vergonha, porque esta função cabe ao macho alfa principal da história, o marido da protagonista, vivido por Isaac. Deprime  ver o ator atuando apenas com caras e bocas, e todo arco dramático relacionado a ele é tão ruim como assistir tinta secando na parede. A impressão é que o ator filmou suas cenas ainda nos sets de filmagens de X-Men: Apocalipse (2016).

O segundo motivo são as escolhas narrativas de Garland. Aniquilação possui três eixos narrativos, sendo que dois deles pela condução óbvia, são soluções preguiçosas. A narrativa centrada nos flashbacks do casal Lena e Kane é digna das DR de relacionamentos entediantes do casal Anastácia e Grey de 50 tons de cinza, sem contar que nada acrescentam ao foco dramático principal. Em outra, na qual Lena é interrogada pelos cientistas, o impacto narrativo de criar suspense ou mistério é nulo, servindo apenas para encher linguiça. O que realmente importa é a missão e nela o filme encontra-se limitado nas suas discussões.

Em Ex Machina (2014), o diretor seguia uma única linha narrativa que debatia as questões morais da criação. Por sua vez, Aniquilação utiliza a mesma prerrogativa, só que em um escopo maior, com três narrativas e uma discussão existencial bem mais ampla, mas com resultados mornos. As tensões filosóficas e os mistérios em torno do brilho que no início do filme, pareciam complexos, se tornam simplistas demais pelos atalhos convenientes do roteiro.

É como ao entrar juntos com os personagens naquele mundo de cores psicodélicas, o fascínio em saber as respostas por trás dos mistérios, perdesse o seu brilho. Não há evolução por parte do texto que estrega menos do que a sua expectativa criada. Se esforça em ser existencialista, mas morre na praia da pretensão. Alex Garland entrega um resultado morno e quase sempre apático.Se há sucesso nesta etapa do filme é como thriller de terror pela condução das cenas violentas. A sequência do urso ecoa pela mente do público mesmo ao término do longa. Não foi apenas Leonardo DiCaprio que sofreu sozinho nas mãos do Zé Colmeia em O Regresso (2015).

O fato é que Aniquilação sofre do mesmo problema dos recentes Prometheus (2012) e Alien Covenant (2017): são trabalhos hercúleos em regurgitar o fascínio sobre a estética, mas que pouco impressionam ou excitam a imaginação do público como uma boa ficção-científica deve ser.

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