Ignorados muitas vezes dentro da indústria cinematográfica e pouco reconhecidos pelo grande público, os roteiristas são figuras intrigantes, pois mesmo sendo de fundamental importância para a realização de boas produções, são constantemente colocados em segundo plano no panteão dos grandes nomes do cinema.

Evidente que, em determinados tipos de filmes, o roteiro cumpre papel secundário, sendo a direção a principal responsável por colocar em prática as potencialidades da trama e fazer com que a mágica surja do além. Ao mesmo tempo, quando se vê uma produção que possui um bom roteiro, que dá todos os elementos de forma rica para todos os outros “departamentos” que constituem o filme, fica notório como isso interfere de maneira decisiva no sucesso da produção.

Como uma forma de valorizar o trabalho destes artistas de fundamental importância para a indústria, abaixo segue a lista dos que mais se destacaram nos últimos anos. E como esse espaço é para valorizar estes profissionais, não veremos por aqui nomes como Quentin Tarantino, Asghar Farhadi, Lars von Trier, Woody Allen, Wes Anderson, Pedro Almodóvar e Spike Jonze, que além de excelentes diretores, são roteiristas excepcionais.

Vamos focar principalmente naqueles que tem como única função, o roteiro do trabalho:

BOB NELSON

O melhor roteiro deste Oscar que passou foi Ela, de Spike Jonze, certo? Errado. O melhor roteiro deste ano é o de Nebraska, de Bob Nelson. De uma amargura deliciosa de acompanhar, o roteiro deste filme nos apresenta a um grupo de personagens desesperançados e sem perspectiva, mas que mesmo assim mantém um humor estranho, que perpassa toda a trama, que faz com que esse road movie seja de um otimismo extremamente não ortodoxo, com os dois pés fincados numa desesperança melancólica.

É realmente surpreendente que este seja o primeiro roteiro de longa-metragem de Nelson, pois aqui ele já mostra uma maturidade completamente estabelecida, que fazem com que saibamos que um trabalho desta magnitude não foi feito por acaso, e isso já é suficiente para que espere o próximo roteiro de Nelson roendo as unhas.

CHARLIE KAUFMAN

Barbadaça. Mesmo sendo óbvio, previsível, blá blá blá, não teria como não colocar o nome de Charlie Kaufman nesta lista. Talvez o roteirista mais famoso do mercado há bastante tempo, o roteirista/diretor rompeu a barreira das convenções do cinema tradicional, criou um método único, cheio de fantasia, mas ao mesmo tempo tocando em sensações e sentimentos extremamente concretos e palpáveis, e assim tornou-se sinônimo de um estilo de fazer filmes.

Seu último trabalho foi em 2009 com Sinédoque, Nova York, filme que representou sua estreia como diretor, e que aparentemente determinou o novo rumo de sua carreira, que ao que tudo indica, será a de seguir as duas funções. Seja apenas como roteirista, ou também como diretor, Charlie Kaufman é um nome dos mais interessantes e originais do cinema mundial.

HILTON LACERDA

Nome determinante para se entender o sucesso alcançado pelo cinema pernambucano dos últimos anos, Hilton Lacerda pode ser facilmente encarado como o roteirista mais importante do cinema brasileiro nos últimos anos. Dono de um estilo regionalista culto, inteligente e de uma verdade inquestionável, Lacerda é capaz de trazer poesia e lirismo do cotidiano, da vida simples, como num Amarelo Manga, Febre do Rato, ou assumir um tom libertador e humanista como no excepcional Tatuagem, primeiro longa que o roteirista dirigiu.

Com muitos trabalhos no currículo, Lacerda tem tudo na mão para alçar voos ainda mais altos na carreira, e ter mais obras que fiquem marcadas nas páginas do cinema brasileiro.

STEPHEN CHBOSKY

Pode até ser uma incongruência de minha parte colocar o nome de Stephen Chobsky nesta lista, pois ele tem apenas um roteiro no currículo. Roteiro, aliás, oriundo de um livro, escrito pelo próprio Chbosky, e dirigido, adivinha por quem? Por ele mesmo. Mas… este filme é As Vantagens de Ser Invisível.

Dos melhores roteiros que já vi, este longa trata a adolescência de uma maneira que expõe todas as suas incongruências, ao mesmo tempo que agrega muita dignidade a esse universo que é difícil de ser visto com maturidade. A melancolia oriunda dos diálogos, da trama repleta de dor e cumplicidade com a plateia, nos apresenta a um roteirista bastante promissor, que não apenas sabe construir boas tramas e personagens, mas sabe como criar uma estrutura que se beneficie disso ao máximo.

É possível que nunca mais ouçamos falar de Chbosky, e é evidente que pode ser que ele nunca mais alcance o que conseguiu aqui, mas isso não muda o fato de que ele se credenciou a ser um dos grandes roteiristas do cinema norte-americano.

TRACY LETTS

Escritor de peças que viraram filmes, Letts é o roteirista do absurdo, do lugar incomum, daquele tipo de filme que faz com que você se pergunte constantemente, “mas que p… é essa?”.

É realmente uma pena que Álbum de Família tenha tido uma direção tão quadrada, pois fica claro que, se fosse pelo roteiro, o filme piraria muito mais. Que foi o que fez o mestre Willian Friedkin com Possuídos, e principalmente na obra-prima que é Killer Joe – Matador de Aluguel. Não sei se Letts já tem alguma outra peça escrita, ou se ele vai, a partir de agora, escrever diretamente para cinema, mas realmente espero que ele volte em breve com mais uma história cheia das suas bizarrices, pois se tratam daqueles momentos deploráveis que, mesmo que não saibamos, esperamos a vida inteira para presenciar.

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