Naquelas listas mais apressadas, que começam a circular pela internet a partir do início do segundo semestre, sobre quais são os filmes que despontam como fortes candidatos ao Oscar do ano seguinte, Corações de Ferro aparecia em quase todas, sendo nomeado em diversas categorias, como Melhor Filme, Diretor e Ator, pelo menos. Os elogios também eram bastante superlativos, e colocavam a produção como um marco do cinema de guerra, um filme brilhante, etc.

O tempo foi passando, e Fury (nome original do filme) foi perdendo força de maneira gradativa, sendo completamente descartado ainda no final do ano passado de qualquer chance de figurar nas principais premiações do cinema norte-americano, sem sequer suscitar questionamentos em relação a isso.

Mas logo nos primeiros minutos do filme fica claro porque ele não possui perfil para estar nessas premiações. Quando um oficial alemão anda a cavalo por um campo de guerra para fiscalizar e se certificar de que todos estão mortos, é surpreendido pelo Sargento Don Collier (Brad Pitt), e é morto a sangue frio com uma facada no olho esquerdo. A câmera permanece parada, observamos de perto um homem ser assassinado de maneira brutal sem nenhum tipo de efeito visual aparente que nos diga que aquilo é um filme. E assim acontece em todas as outras cenas de morte e violência restantes. Aqui as mortes não são inofensivas, os homens sangram quando uma bala perfura a sua carne, têm vísceras a mostra quando levam um tiro na cabeça, e pele solta se encontra pelo chão, sem vida.

Na sequência acompanhamos o batalhão do Sargento Don Collier durante os momentos finais da Segunda Guerra Mundial, em que a Alemanha apresenta um forte aparato militar comparado ao dos norte-americanos. Junto de Collier está a sua equipe, Boyd (Shia LaBeouf), Grady (Jon Bernthal), Trini (Michael Peña) e o recém chegado Norman (Logan Lerman), que caiu neste universo contra a sua vontade. Conforme a guerra avança, as batalhas se tornam ainda mais sangrentas, o que faz com que todos experimentem o lado amargo da guerra e o que ela representa.

Um filme, não importa os nomes que estejam envolvidos na sua produção, que investe de maneira tão realista em aspectos de violência, tende a ser marginalizado pela indústria, e isso vai desde classificação etária elevada, até a ficar de fora de premiações, ou de figurar em um grande número de salas. De modo geral, o grande público e a indústria cinematográfica preferem não sair de sua zona de conforto, e ser afrontado por um filme que apresenta cenas de impacto devastador, é algo fora de cogitação, mesmo que Brad Pitt seja o protagonista.

Mas não serei ingênuo a ponto de defender Corações de Ferro. O filme apresenta problemas desagradáveis que vão nos cansando com o tempo, sendo destacada a falta de foco do roteiro escrito pelo (também) diretor, David Ayer. Como exemplo destaca-se a interminável sequência na casa de duas mulheres alemãs, quando elas se relacionam primeiro com Collier e Norman, e depois com o restante do grupo. Até aquele momento, a história caminhava de maneira satisfatória até empacar neste momento, que na minha opinião, é deveras frágil narrativamente, além de soar bastante inverossímil. Tudo isso para, minutos depois, entendermos que toda aquela situação era para completar um arco para o personagem Machine, que a partir daquele momento teria a sua postura alterada.

Ayer, porém, parece não perceber que tal artifício é realizado de maneira pouquíssimo sutil, tornando assim esse momento uma fuga para o espectador, fazendo com que saiamos do filme, e vejamos uma artimanha narrativa (pouco eficiente e cuidadosa, diga-se de passagem) em cena, tornando o filme óbvio. E isso acontece não só com o personagem Norman, mas com todos os integrantes do grupo, que uma hora ou outra tomam alguma atitude, ou realizam alguma ação, que contradizem a sua personalidade, ou que nos surpreende, para assim dizer que os personagens são complexos, apresentam nuances, com diversas camadas, quando na verdade tais contradições surgem apenas forçadas e inverossímeis.

Além disso os diálogos são bastante problemáticos, e não possuem a sutileza adequada para apresentar os conflitos dos personagens, sendo utilizados muitas vezes para explicar as emoções daqueles homens de maneira claramente expositiva. Tal defeito também pode ser encontrado na chamativa trilha sonora de Steven Price, que sempre surge barulhenta para sublinhar momentos importantes.

E é realmente uma pena ver isso acontecer mesmo com um elenco tão talentoso. Aliás, pode-se facilmente dizer que o trabalho só não é mais problemático devido ao fato do seu elenco segurar bem a difícil condução do filme, legitimando algumas incongruências do roteiro, e transformando aqueles personagens em pessoas nas quais conseguimos acreditar. Com destaque para a fortíssima cena em que Collier obriga Norman a matar um oficial nazista para fazê-lo, enfim, entrar na guerra, quando podemos observar como o promissor Logan Lerman evoluiu como intérprete.

Mas infelizmente a impressão final diz que o filme que tinha enorme potencial acabou sucumbindo a um frágil roteiro, como podemos observar no seu previsível e batido desfecho, quando as sutilezas são jogadas fora de uma vez por todas, dando lugar ao senso comum já visto em várias outras oportunidades.

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