Visual marcante e diálogos significativos: estes são os dois elementos são grandes norteadores das histórias assinadas por Wes Anderson. Muitos filmes do cineasta americano apresentam argumentos aparentemente simples e que, algumas vezes, lembram tramas infantis e até utilizam personagens mais novos como ‘Moonrise Kingdom’ e o recente ‘Ilha dos Cachorros’. Porém, o ponto de partida dos filmes de Wes Anderson nunca fica restrito ao título, apresentando subtramas tão significativas quanto sua narrativa central. Este é o caso de ‘A Vida Marinha de Steve Zissou’.

O filme de 2004 gira em torno do oceanógrafo Steve Zissou (Bill Murray) indo atrás do tubarão-jaguar que matou seu amigo e membro da tripulação. O oceanógrafo famoso por documentários de suas aventuras marítimas encontra nesta missão novas e antigas pessoas em sua vida que constantemente o fazem questionar sobre si próprio, seu trabalho e aparência como pessoa pública, nuances aproveitadas com sucesso pelo veterano Bill Murray.

Assim, Zissou conhece Ned Plimpton (Owen Wilson), que se apresenta como seu possível filho. A afirmativa de Ned é suficiente para que a relação fria de Zissou com sua mulher, Eleanor Zissou (Anjelica Huston), dê lugar ao convívio com o “filho” recém descoberto. Desta forma, o personagem encontra em Ned possibilidades de reconstruir uma aparência melhor para si e para sua carreira.

Por outro lado, a jornalista Jane Winslett-Richardson (Cate Blanchett), também a bordo da missão, relembra exatamente os aspectos que Zissou pretende deixar para trás, gerando conflitos com a personagem. Jane, assim como Ned, é uma personagem bem construída, que apresenta uma subtrama significativa sozinha ou ao encontro de Ned, que se identifica com a jornalista a partir da falta de entendimento com Zissou.

A subtrama de Ned e Jane também apresenta uma certa densidade nos diálogos entre os dois personagens, reafirmando que, de alguma forma, ambos buscam o conceito de família e o sentimento de pertencimento para si. Essa necessidade se torna cada vez mais presente para os outsiders frente à convivência com o Time Zissou, ou seja, a tripulação que Zissou leva consigo e considera uma família. Esta relação é reafirmada quando Zissou arrisca sua vida pela tripulação, o que torna possível questionar de que forma a perda de seu amigo impacta na história.

Dentro do Time Zissou, Klaus Daimler (Willem Dafoe) e Pelé dos Santos (Seu Jorge), são os dois membros com atuações mais constantes em tela. Dafoe fica responsável por acrescentar um pequeno humor no convívio da tripulação, tarefa que é realiza com êxito, marcando sua passagem no filme mesmo que durante pouco tempo. Também com aparição restrita, os personagens denominados como “estagiários” apresentam uma ótima jogada de Wes Anderson. Ao construir bem alguns personagens, o diretor deixa claro que não tem motivos para aprofundar a presença de figurantes no filme, utilizando uma denominação comum para todos, sem se preocupar em justificar a ausência destes.


Estética Wes Anderson

Relembrando histórias clássicas tais como a literatura de Júlio Verne em ‘Vinte léguas submarinas’ e ‘A volta ao mundo em 80 dias’, o diretor não esquece que Zissou está em uma aventura. Essa característica não anula os conflitos do personagem e consegue intensificá-los ao apresentar outros motivos para que Zissou continue em sua missão além da busca por restabelecer sua imagem perante o público.

Para criar a atmosfera de aventura no mar, o roteiro apresenta perigos reais como piratas que rendem sequências inesperadas incluindo troca de tiros e explosões. Por outro lado, elementos fantasiosos também são acrescentados no visual do longa, assim as cores utilizadas dialogam com o público, mostrando inúmeras possibilidades dentro do infindável azul presente no oceano. Para colaborar no fator fantasia, animações bem executadas e coloridas aparecem como detalhes perceptíveis na tela, evoluindo até a animação do famoso tubarão-jaguar que Zissou persegue.

Muitas vezes, a parte visual com tons mais coloridos e presença do vermelho e amarelo consegue equilibrar a leveza da proposta com as tramas inesperadas e mais densas que surgem no decorrer da história. Grande exemplo disto é a briga entre Ned e Zissou na qual os dois passam por diversos cenários do navio, o qual também possui sua parcela imaginativa possuindo sauna, laboratório e observatório submerso como cenários.

Para completar a imersão, Wes Anderson optou por colocar o ator e cantor brasileiro Seu Jorge para interpretar músicas do britânico David Bowie em português para compor a trilha do longa. Com a presença do ator no papel de Pelé dos Santos, as músicas são tocadas em diferentes cenários do navio, com a sensação de música ambiente. Talvez o tom abrasileirado seja mais latente para quem conhece o trabalho do cantor, mas, apesar de algumas traduções questionáveis, as músicas funcionam no cenário, acrescentando sons em um lugar que poderia ser ilustrado de forma silenciosa.

Com uma construção narrativa bem consolidada no roteiro, Wes Anderson fica livre para se aventurar em seu estilo estético e equilibrar de forma harmoniosa suas características mais notórias em ‘A Vida Marinha com Steve Zissou’. Neste e em outros longas do diretor, muitas sutilezas passam despercebidas pelo público ao primeiro olhar, se tornando necessária uma segunda ou terceira análise para compreender o que realmente o tubarão-jaguar levou de Zissou junto com seu amigo.

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