Como é pensar a Amazônia no século XXI? Para nós que estamos inseridos nesse contexto de capitalismo selvagem em produção contínua da capital, a realidade fora do polo urbano parece uma mera visão arcaica de um Brasil-memória. Ver a Amazônia ainda é criar um imaginário de lugar exótico permeado de mitos. Um lugar em que ao mesmo tempo que parece atual, é antiquado. Algo que parou no tempo.  Não é culpa nossa, afinal, foi nos ensinado a ver dessa forma, mesmo que involuntariamente. Para o Brasil, a Amazônia sempre pareceu a ‘pedra no sapato’; a vantagem-desvantagem; um lugar nunca tratado com seriedade e parcimônia. Mas sempre foi o imaginário de riqueza, de abundância – o El Dorado brasileiro. Diante disso, não foram poucas as formas de tentar preencher as entranhas da floresta; de colocar ordem na estrutura natural do ambiente e gerar o tão sonhado progresso de um Brasil que nascia cortado pelas estradas.

A construção da rodovia Transamazônica, na primeira metade da década de 1970, está inserida nesse contexto de expansão e progresso a partir da tomada do poder pelos militares em 1964, que governaram o país ao longo de 21 anos. O terceiro desses governos, do Presidente Emílio Garrastazu Médici, ficou conhecido, entre outras coisas, pelo “milagre econômico” e pelas obras faraônicas que, segundo a propaganda oficial, representavam o desenvolvimento do país e sua emergência ao status de grande potência mundial. Em contrapartida, foi o período de maior repressão aos movimentos sociais e manifestações de oposição ao regime, tanto que ganhou a alcunha de “anos de chumbo”.

“Iracema, uma transa amazônica”, realizado em 1974 sob direção de Jorge Bodanzky e Orlando Senna, narra a trajetória de duas personagens principais que convivem durante as obras de construção da rodovia Transamazônica, no início daquela década: Tião Brasil Grande, um caminhoneiro do Rio Grande do Sul que circula pelas estradas da região Norte transportando madeira e que, como sugere o apelido, é apoiador do governo federal e otimista quanto ao futuro do país; e Iracema, uma jovem e pobre cabocla que abandona sua família no interior da Amazônia para seguir a própria vida, prostituindo-se ao longo das estradas, sem perspectiva de um futuro melhor. O contraste entre as personagens reflete as contradições da própria sociedade brasileira à época.

A construção da rodovia Transamazônica teve grande repercussão na sociedade brasileira. Essa gigantesca obra, cujo objetivo foi abrir caminho para a ocupação da floresta amazônica, pouco povoada à época, representava o esforço do regime militar em tornar o Brasil uma nação desenvolvida – o “Brasil grande”. Reafirmando a floresta como um atraso e elevando-a como um mercado de expansão e lucro. O filme se utiliza desse contexto para desferir uma forte crítica à situação socioeconômica da região, que aparentemente estava sendo beneficiada pelas obras da estrada e criando um milagre para aqueles que aqui viviam. O “milagre”, entretanto, não se estendeu a todos. As desigualdades sociais não diminuíram. Ao contrário, agravaram-se.

A obra de Bodanzky e Senna insere-se na discrepância entre o discurso otimista do governo e a situação precária – de acordo com o representado na obra – vivida por parte da população brasileira, contrariando a propaganda oficial. Os cineastas apresentaram uma visão contestadora da bonança desenvolvimentista divulgada pelos militares, mostrando no filme uma realidade marcada por desmatamento, prostituição infantil, disputa por terras e trabalho escravo.

Diante disso, o filme é muito atual, pois ainda é possível assimilar por meio das imagens a mesma Amazônia que encontramos hoje, 42 anos depois. Pouco foi feito pela região, que claramente ainda permanece esquecida. A obra é um filme ousado, corajoso, que se debruça sobre o coração da Amazônia – um local selvagem, pouco ouvido e comentado, mesmo na atualidade. Mas que está ali, funcionando sobre seus próprios meios e maneiras. À parte do grande Brasil “progressista” que só vê a Amazônia naquilo que lhe condiz: nos votos populares, na geração de renda através da extração “legalizada” e na propaganda de um país ambientalista, mas que não consegue tratar seu próprio lixo. O filme é potente e tão gritante que nos faz refletir sobre tudo que vivemos desde criança, enquanto filhos da floresta. Tudo isso acontece no quintal de casa, mas, mesmo nós que aqui nascemos, permanecemos surdos para ouvir tais gritos da floresta.

Com grande influência do neorrealismo italiano para recriar as urgências de um país banhado pela ditadura, o filme é um documentário/ficção que mostra a clara intenção dos diretores, de apresentar a realidade do local de maneira fidedigna; um compromisso com o “real” característico dos documentaristas, porém em uma obra cujo aspecto ficcional também é relevante. Esse é um dos pontos mais marcantes do filme, a forma ousada de construção da narrativa – não dá para perceber o que é encenado ou o que não é. A sensação é de estar assistindo a uma grande reportagem.

Permeado de cenas incríveis e detalhes ricos sobre a cultura nortista, podemos destacar a grande presença do rádio a pilhas, que se torna uma trilha de fundo predominante em boa parte da sequência. Por meio do aparelho, os moradores do lugar recebem notícias e recados de parentes que são transmitidos pelo locutor da estação. A ideia é ressaltar a importância do rádio na vida das pessoas, que não tem acesso a telefone, jornais ou televisão, estando, de certa forma, isoladas na região. A cena do Círio de Nazaré também é outro grande destaque, que reforça o anseio de uma população que desacreditada do poder público ainda vê na religião uma forma de acreditar no amanhã.

O teor altamente crítico do filme trouxe problemas imediatos com o regime militar. O filme foi censurado aqui no brasil devido a sua mensagem negativa ao máximo sobre o regime. Enquanto isso, Iracema ganhava destaque internacional, sendo exibida em vários países da Europa e recebendo premiações em festivais de cinema na própria Alemanha, na Itália e na França – inclusive em Cannes – nos anos de 1975 e 1976. Mesmo proibido, o filme era exibido em terras brasileiras em sessões clandestinas de universidades ou cineclubes ou, ainda, mostrado a pessoas próximas de seus realizadores.

Em 2015, tive a oportunidade de conhecer Bodanzky em uma de suas palestras sobre o filme no cineclube ‘Cine & Vídeo Tarumã’, da Universidade Federal do Amazonas.  Seu semblante cansado demostrava um senhor já com anos nas costas, mas que ainda carregava no olhar as ambições e expectativas de viver experiências de um projeto tão ousado e juvenil. O filme é um alerta urgente sobre a necessidade de proteger a Amazônia sem causar o detrimento. Um desafio do século XXI que parece não ter apreendido nada com as ocorrências do passado.

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