Filmes sobre adolescência não são necessariamente novidades. Dos anos 80 aos 2000, o cinema viu uma enxurrada de filmes nascerem para contar o dia a dia, as inseguranças, medos e insatisfações de adolescentes. O peso e a cobrança da vida adulta são os fatores que puxam esses filmes para a realidade – saem do conto para algo realmente angustiante e que perpassa a vida de todo mundo. Filmes como esses estão enquadrados (mas não limitados) a um gênero muito difundido hoje em dia na internet: o “coming of age”. Em português a tradução seria algo como “a vinda da idade”. Histórias desse tipo tendem a enfatizar o diálogo ou o monólogo interno de um protagonista. Embora essas histórias sejam válidas, acabam padecendo no esquecimento por tratarem de situações corriqueiras de forma não aprofundadas. O que é totalmente diferente em Lady Bird, filme de Greta Gerwig, pois o que vemos é uma comédia maravilhosamente divertida, aprofundada e lindamente autobiográfica. Uma poesia sobre o amadurecimento.

O filme conta a história de Christine “Lady Bird” McPherson (Saoirse Ronan), uma adolescente de temperamento difícil que estuda em uma escola secundária católica. Lady Bird é inclinada artisticamente e tem uma mistura explosiva de sensibilidade, alienação e egoísmo martirizado. Seu apelido faz parte de sua insistência em se auto identificar de maneiras diferentes das impostas a ela pela família e pela escola – para a irritação intensa de sua mãe, ela não responderá mais a Christine, apenas a Lady Bird. Onde ela conseguiu essa ideia, nós não sabemos. O que sabemos é que o que mais deseja é ir fazer faculdade longe de Sacramento, Califórnia, ideia rejeitada por sua mãe, Marion (Laurie Metcalf). Mas ela não se dá por vencida e leva o plano de ir embora adiante mesmo assim. Enquanto a hora não chega, ela se divide entre as obrigações estudantis no colégio católico, o primeiro namoro, típicos rituais de passagem para a vida adulta e inúmeros desentendimentos com sua mãe.

Esse é um filme simples – um movimento contrário ao cinema pirotécnico hollywoodiano que está no auge atualmente. O que torna o filme impecável é a poesia e a delicadeza em que os assuntos são tratados. Lady Bird é um filme de identificação rápida (todo mundo já passou pelo drama de se tornar adulto), mas ele vai muito além ao falar de famílias universais e reais – é uma obra que ignora as famílias de margarina e passa o olhar para uma menina que está inserida numa família disfuncional à margem da classe média estadunidense, mas que ainda tem sonhos e desejos.

A estrutura do filme se parece com uma poesia, calma, forte e bonita. Acalenta a alma em inúmeras reflexões sobre nossas próprias condições enquanto pessoas que cresceram limitadas pela família disfuncional e tradicional, mas que encontraram amor e ordem nos momentos mais tristes e difíceis da vida. Amadurecimento é a palavra-chave para esse filme que é tão otimista, mas ao mesmo tempo muito realista.

Essa identificação com o filme talvez tenha sido o grande responsável pelos tantos elogios e a enorme repercussão do filme, que inclusive entrou para a história ao se tornar um dos mais bem avaliados da história do Rotten Tomatoes, site que reúne críticas globais. Além de render cinco indicações ao Oscar 2018, incluindo de Melhor Filme do Ano.

Nessa estreia de Greta Gerwig, como escritora e diretora, podemos logo ver nas primeiras cenas e diálogos sua capacidade em histórias com delicadeza, mas ao mesmo tempo com força emocional.  Isso tem a ver com o fato dela se inspirar em sua própria experiência. Lady Bird e Greta tem muito em comum: ambos nasceram em Sacramento e ambas têm mãe que era enfermeira. Mas, como acontece com toda a ficção autobiográfica, há um prazer sutil em saber quais pedaços são tirados direto da vida e quais foram alterados subitamente. O que nos resta é identificar o filme como uma carta de amor para a cidade natal de Sacramento.

O centro emocional do filme é a relação entre mãe e filha. De certa forma, é sobre como é impossível para os adolescentes imaginar a vida emocional de seus pais ou para reconhecer o sentimento devastador de abandono e inutilidade dos anciãos atingidos quando a criança sai de casa e eles têm que reprimir os sintomas de raiva e perda. Marion ainda está descobrindo uma verdade grande e não reconhecida: ter filhos faz você perceber que não é tudo sobre você, mas você realmente não percebeu até que essa criança cresça e saia de casa. Dizer adeus sob essas circunstâncias leva um gesto de auto sacrifício. Essa relação faz o filme ter atuações tão bonitas de Metcalf e Ronan, que são muito emocionantes como mãe e filha aprendendo com a angústia e o amor.

Esse é um filme que vale a pena porque é uma obra de arte. O filme é extremamente sensível sobre o caos que é se tornar adulto e fazer escolhas difíceis. É permeado de situações, imagens e sequências maravilhosas que nos transportam para a vida da personagem e nos fazem entender suas angústias e a forma como tenta driblá-las. Lady Bird é um ensaio sobre como a vida é difícil e como é preciso discutir essas dificuldades que aparecem ainda na adolescência – que podem, inclusive, gerar uma vida adulta de estresse e depressão. O filme é uma carta aberta sobre acreditar em si mesmo para alcançar os sonhos.

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