A nomenclatura “cineasta” é cercada de muita pompa, principalmente quando se está iniciando nas descobertas do cinema. Ouvia muitas frases feitas sobre os supostos pré-requisitos que um diretor audiovisual precisa atender para ser considerado um cineasta, que vão desde uma quantidade mínima de obras, até a uma caminhada dentro do cinema, desenvolvendo um lastro de alguns anos de experiência na função.

Um filme como Lavoura Arcaica, adaptação da obra de Raduan Nassar, contraria essa regra. Seu diretor, Luiz Fernando Carvalho, era – e é, continua sendo – diretor de novelas na Globo, função que por meio do método de trabalho, e da abissal diferença na quantidade de material para ser gravado por diária de filmagem, assemelha-se relativamente pouco ao fazer cinematográfico, ainda mais em 2001, ano de lançamento do filme.

Mesmo vindo de um meio com métodos diferentes, Carvalho fez um clássico instantâneo, cinema puro, experiência visual lírica e poética completa, densa, com consciência de texto, espaço cênico, fotografia e montagem que pouco se viu antes e depois no cinema brasileiro. Com seu primeiro e único filme (até hoje o diretor não retornou ao cinema, seguiu carreira apenas na Globo), Luiz Fernando Carvalho marcou seu nome como um dos grandes cineastas brasileiros, pois a sua direção, seu filme, falam por ele, falam em nome de alguém com uma compreensão diferenciada sobre linguagem cinematográfica, mesmo que fora do meio.

Na trama, acompanhamos André (Selton Mello) filho do meio de uma família tradicional conduzida a pulso firme pelo patriarca, Yohana (Raul Cortez). O jovem tem uma relação complexa com a irmã mais nova, Ana (Simone Spoladore), a quem nutre uma paixão. Por conta da implacável disciplina imposta pelo pai a todos da família, André decide fugir de casa e adquirir suas próprias experiências. É procurado pelo irmão mais velho, Pedro (Leonardo Medeiros), que tenta lhe convencer a retornar ao lar.

Logo na primeira cena temos um resumo do que é a experiência de assistir a Lavoura Arcaica. A câmera desliza lentamente, desfocada, por uma superfície que não é possível de identificar, criando uma imagem abstrata. Por fim reconhecemos André deitado no chão se masturbando, e ao fundo o som de uma locomotiva. A câmera passeia, sem foco, pelo corpo do personagem enquanto a locomotiva ganha velocidade, força, até que chega ao orgasmo. Desfruta silenciosamente da paz que o gozo traz. Apenas parte do seu rosto é visível, não é necessário ver nada além daquilo. Por fim é acordado por fortes batidas na porta. É seu irmão, é sua vida de antes chamando-lhe de volta. Sua vida poderia ser o gozo, a abstração das imagens sem foco, mas acaba sendo o despertar, o encarar o rosto duro do irmão atrás das sombras.

Cada imagem ilustra por uma ótica muito própria a maneira como o protagonista enxerga sua relação com a família e o mundo. O fato do narrador, André, ter a voz do próprio Luiz Fernando, e essa narração ser emotiva, e falar de dentro da história, faz com que a direção de Carvalho ganhe ainda mais peso, somada ao texto de Nassar. Através de movimentos de câmera ousados, mas planejados nos pequenos detalhes, Carvalho cria um ritmo visual diferenciado, desconcertante, sempre no limite entre o lirismo belíssimo com a abstração exacerbada. A direção apropria-se da fotografia, arte e montagem para estabelecer uma poesia em que tudo se funde para expressar o desajuste de André. É excessivo, transborda a tela, é maior que a soma das partes.

E disso vem o “único” problema do filme: a duração. São duas horas e cinquenta minutos. É claro que a proposta da direção é que o filme seja realmente uma experiência que precisa de um tempo maior para que os conflitos sejam estabelecidos com outra dinâmica, valorizando o lirismo, conferindo outro peso aos desajustes das personagens. Mesmo assim acaba afastando o público de uma imersão ainda maior. Por mais que seja um deleite sensorial incontestável, 170 minutos com tanta dureza e contundência na tela pesam.

Falar de Walter Carvalho é chover no molhado. Mas ouso dizer que este é seu trabalho mais destacado, em que a direção de fotografia não apenas torna possível a poesia visual da direção, como adquire função narrativa imprescindível através das sombras que representam as trevas que tomam conta dos personagens, da relação da família, da incomunicabilidade entre eles. Mas também representa o expandir de horizontes, cores, perspectivas quando está ali para demonstrar os desejos, lembranças e ambições das personagens. É uma simbiose com a direção e a direção de arte de Yurika Yamasaki que faz com que tudo seja uma coisa só, no melhor dos sentidos.

Também é muito importante falar do elenco, outra potência do trabalho. Leonardo Medeiros, Simone Spoladore e Juliana Carneiro da Cunha, irmão, irmã e mãe de André, respectivamente, formam uma base que é ambicionada por qualquer coadjuvante. Cumprem papel discreto, mas fundamental na trajetória da família, são pessoas com dramas visíveis pelo olhar entristecido, pela dor de uma vida excessivamente rigorosa, pela ternura que ainda resiste aqui e ali.

Mas, em atuação, o filme é de Selton Mello e Raul Cortez, sem dúvida. Num de seus últimos papeis no cinema, Cortez traz o peso de toda uma carreira na arte de representar para fazer de Yohana uma figura de incontestável autoridade apenas com sua presença, olhar contundente. Quando fala tem magnetismo, demonstra valores que considera inegociáveis, e exige paciência dos filhos. O tipo de autoritário que fala baixo, não preciso de grito, basta o olhar. É o ator que faz o filme crescer automaticamente quando aparece na frente da câmera, traz credibilidade, uma verdadeira âncora moral.

Já Mello… é o tipo de atuação que, confesso, me causa espanto. Onde foi parar esse ator tão brilhante? Um ano antes ele fizera outro clássico, O Auto da Compadecida, junto daquele elenco (talvez) inigualável no cinema brasileiro, e imortalizou Chicó junto de seus também imortais parceiros de cena. Em Lavoura é ainda mais forte, impressiona. André é um personagem dificílimo que, além de abarcar um linguajar de difícil controle, possui emoções complexas, sentimentos contraditórios, uma fúria muito grande por conta dos afetos reprimidos, mas ao mesmo tempo pureza, doçura, amabilidade. Das grandes atuações do cinema brasileiro. E por mais que ele permaneça sendo um ator interessante, integrante de filmes brasileiros relevantes, claramente foi pra um caminho na atuação mais contido, em que aparentemente se preserva mais. Em Lavoura é perceptível que todos os atores rasgaram a carne pra fazer o trabalho, e o jovem Selton Mello foi o que fez isso com mais beleza, talvez nunca repetindo esse nível de entrega posteriormente.

É um trabalho importante de rever. Pela sua estética e duração, parece ser o filme que as pessoas adoram odiar, ou adoram não ter paciência. Mas cinema não consegue ser muito melhor que este filme. E cineastas, por melhor que sejam, não costumam demonstrar mais aptidão do que Luiz Fernando Carvalho demonstrou aqui. O tempo vem fazendo bem a este filme, e a tendência é que ele cresça ainda mais nas nossas mentes.

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