Drama histórico do Netflix dirigido pela norte-americana Dee Rees, diretora de Pariah (2011) e do premiado Bessie (2015), narra dentro do contexto do pós-guerra e da segregação racial, as tragédias enfrentadas por pessoas em lados distintos da moeda, e mesmo com excessos conta com uma narrativa rica dentro do que se propõe.

O longa desenvolve-se no sul dos Estados Unidos, pós Segunda Guerra Mundial, onde sob as leis de Jim Crow duas famílias têm suas vidas cruzadas pelo destino. De um lado, os McAllan tentam refazer suas rotinas na nova propriedade na área rural do Mississippi. Do outro, a família Jackson que trabalha há gerações nas terras que agora pertencem aos recém-chegados. Os filhos das duas famílias ao retornar da guerra, enfrentam os efeitos dos campos de batalha confrontado com a realidade antes esquecida, e uma amizade que floresce meio a isso. Divididos pela hierarquia imposta e o racismo latente, as famílias tentam superar as provações de cada realidade.

O longa-metragem inicia com os irmãos Jamie (Garrett Hedlund) e Henry McAllan (Jason Clarke) sob forte chuva forjando a cova para enterrar seu pai. A conversa entre os dois é o prólogo daquilo que será o foco do drama.

Baseado no romance homônimo de Hillary Jordan e adaptado pela diretora para as telas de cinema. Rees constrói um mosaico de tramas paralelas que, em dado momento, formam uma narrativa maior e única. A medida que a enredo avança a audiência é brindada com monólogos feitos pela maioria dos personagens principais. Conforme esses narradores recontam as histórias, são refletidos seus pontos de vista e suas reflexões a respeito das questões levantadas.

Apesar da narrativa tomar como pano de fundo o fim da guerra e a segregação racial, os seus efeitos têm pouca influência de fato no desenrolar da trama. O ponto principal é as relações humanas e o que une dois extremos. A vida no campo também exerce função fundamental. Esse é o ambiente que atua. É aqui que acompanhamos o desenvolvimento das relações homem e mulher, negro e branco, senhor e criado. Como o próprio nome do filme sugere e na explicação de Dee Rees, a lama serve como um símbolo para raça e tempo, exerce a ligação entre eles, como se todos estivessem atolados e presos a ela.

É disso que vem o poder do longa, das diversas perspectivas expostas pelos seus protagonistas. O enredo funciona como um pano de retalhos que compõe um complexo jogo de personagens. As famílias se dividem entre atitudes racistas e tentativas de transcender a hostilidade enraizada. E por mais separados que estejam, a terra os conecta, pois dela vieram e dela se vão.

Os Jackson rebaixam-se para que nenhuma atitude errada cause danos à família diante do racismo manifesto, porém mesmo tentando, demonstram resistência à opressão em pequenas atitudes, principalmente por parte de Florence Jackson, a matriarca e o elemento mais forte do núcleo. Vale ressaltar a atuação surpreendente de Mary J. Blige. Irreconhecível e dominante, a cantora e atriz é com certeza, o ponto alto do elenco, que conta ainda com Carey Mulligan no papel de Laura McAllan.

Embora todos esses aspectos positivos, o filme tem alguns problemas, principalmente no seu final. A diretora introduz plots que não chegam a lugar algum, morrem onde começam, por exemplo: as traições que envolve a outra família de meeiros da fazenda, bem como a tensão entre Laura e Jamie. Além de conceitos genéricos e repetitivos inseridos na trama. O final é desastroso, completamente novelesco e previsível, não mostra nenhuma cautela em dar aos personagens um desfecho coerente com o que até então foi feito. Ainda assim, com promessa de ser forte concorrente ao Oscar, Dee Rees merece a atenção e o espaço que está ganhando e ‘Mudbound’ com certeza é outro bom indicativo do que esperar da diretora.

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