A maior questão a respeito do retorno do sucesso Narcos, da Netflix, para uma terceira temporada era saber se a série resistiria à ausência do todo-poderoso Pablo Escobar, trazido à vida pela atuação já icônica de Wagner Moura. A resposta a essa questão fica logo clara para quem continuar assistindo: Sim, estes novos dez episódios provam que há vida em Narcos para além de Escobar. A terceira temporada é nervosa, envolvente, complexa e amplifica o retrato da guerra contra as drogas que vinha sendo construído até então. A qualidade dela chega até a surpreender, visto que esta nova temporada não deixa de representar uma sutil “apertada do botão reset” dentro do seriado, um expediente que pode ser usado para o bem ou para o mal dentro de uma produção televisiva.

Para suprir o vácuo deixado por Escobar, a realidade (e a ficção) trouxeram para o centro do narcotráfico os personagens do Cartel de Cali que já vínhamos acompanhando, de forma periférica, no seriado. E é uma ótima decisão da parte dos roteiristas e produtores de enfatizar, a princípio, o quanto esses sujeitos eram diferentes de Escobar: Enquanto este era implacável, chamativo e de maneira distorcida até se via como um herói, os “Cavalheiros de Cali” são caracterizados como homens de negócios, nem sempre dispostos a recorrer a violência. Os atores Damián Alcázar, Francisco Denis (os irmãos Rodriguez) e Alberto Ammann (Pacho) interpretam personagens bem definidos e que possuem mentalidades frias, mas não beirando a psicopatia como acontecia com Escobar.

Os Cavalheiros de Cali são tão racionais e orientados ao business que rapidamente trazem uma surpresa para o público: Eles querem se render, desistir do tráfico e acumular o máximo possível de riqueza em seis meses; para em troca cumprir penas simbólicas junto ao governo colombiano. Mas há alguém que deseja pôr agua no chope (ou na coca) deles, o agente do Departamento Anti-Drogas Javier Peña, pois agora Pedro Pascal é efetivamente promovido ao posto de protagonista da série. Dos três bigodudos que disputavam os holofotes nas duas temporadas anteriores – Moura, Boyd Holbrook que fazia o agente Murphy, e Pascal – foi este último quem saiu vitorioso.

Peña é a âncora do espectador, o elemento estável que navega em meio a um universo caótico e com tons de cinza – ele é também um personagem meio cinzento, como suas atitudes na temporada anterior demonstraram, mas é um sujeito disposto a tudo para fazer a coisa certa, o que no mundo de Narcos é um refresco. É através da luta do personagem que a série expõe a hipocrisia da guerra contra as drogas e dos países que em público combatem o narcotráfico, mas privadamente negociam com os narcotraficantes. A situação continua clara para o espectador: obviamente, nesta temporada já não vemos eventos tão espantosos quanto aqueles provocados por Escobar ou a sua caçada, mas isso não significa que o panorama criado pelo seriado fique menos espantoso. Em dado momento, o sombrio contato da CIA diz a Peña que a guerra “já foi perdida”, e é difícil não concordar com ele.

Mas além da visão crítica e histórica, Narcos permanece um ótimo entretenimento. A segunda temporada elevou bastante o nível de tensão no seriado com a caçada a Pablo Escobar, mas a terceira não deixa o nível cair com diversos momentos cheios de suspense. Os episódios 4 e 9, que envolvem a perseguição a líderes do Cartel de Cali, são eletrizantes e conduzidos por uma montagem ágil, uma câmera na mão sempre nervosa, e pelo fato de nos importarmos com o que vai acontecer.

Entra aí a arma secreta da temporada: o ator Matias Varela no papel do chefe de segurança do Cartel, Jorge Salcedo. Ele aceita colaborar com a agência anti-drogas dos Estados Unidos, e o desempenho minucioso e preciso de Varela, aliada à caracterização do personagem como um homem que se importa com a sua família e com um fundo de decência, ajudam o espectador a se importar com o seu destino. Salcedo é o pivô de muitas cenas tensas neste terceiro ano e, se Pascal é o cérebro que conduz a ação em Narcos, Varela é o coração desta temporada.

Nem tudo são elogios, porém. Os roteiros lançam mão de alguns elementos que acabam não sendo realmente desenvolvidos ou não cumprem uma finalidade. Como a homossexualidade de Pacho, apenas jogada lá sem ser realmente explorada – no contexto onde ele vive isso deveria chamar a atenção, mas os bandidos ao seu redor parecem nem ligar – e a personagem Maria Salazar (Andrea Londo), cuja subtrama junto a Miguel Rodriguéz acaba não servindo a nenhum propósito narrativo, apesar dos atores trabalharem bem. Porém, o saldo geral da terceira temporada de Narcos é muito positivo. De certa forma, é a maturidade da série, pois agora não existe mais o “bicho papão”, o grande vilão na dianteira do combate às drogas. Mais do que nas temporadas anteriores, o escopo se amplifica nesta: Narcos agora, mais do que nunca, envolve nações, o mundo, e mostra como falhamos como um todo ao lidar com a questão das drogas. As cenas finais apontam para o futuro do seriado, e mesmo sem o marcante Pablo Escobar esse futuro parece bem promissor.

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