Deixar de fazer parte de um grupo do qual pertenceu durante tempo suficiente para que este tivesse papel importante nas decisões da sua vida, certamente é um baque forte na vida de qualquer pessoa. Muitas vezes, nossa rotina é totalmente determinada por essa dinâmica, e se ver fora disso, ao mesmo tempo que apresenta-se como uma liberdade sem precedentes, é uma situação verdadeiramente aterrorizante, pois diversas coisas serão vistas e sentidas pela primeira vez.

O impacto, certamente, é maior ainda quando se tratam de pessoas que vivem em função de uma religião fundamentalista que visa impedir qualquer tipo de contato com informações de fora da religião. Internet, literatura, ou qualquer tipo de produto que apresente outra interpretação de mundo está proibida.

One Of Us, produção original Netflix, novo filme das documentaristas Heidi Ewing e Rachel Grady, do premiado Jesus Camp (2006), trata de uma situação dessas. Mostra o cotidiano de três pessoas que decidiram sair da comunidade judaico hassídica de Nova York, e as duríssimas consequências que este ato trouxe para as suas vidas.

Ari é um jovem prestes a chegar aos 20 anos, que se viu angustiado com o rumo que a sua vida estava tomando, e se viu em dúvida se tinha real afinidade com esse estilo de vida imposto a ele desde sempre. Luzer, já na casa dos 30 e tantos, abandonou esposa e filhos para seguir uma carreira de ator em Los Angeles, pois também não se sentia totalmente realizado com a vida dedicada à religião, e privado de tantos desejos. E por fim, a história de Etty, que se casou jovem a partir de um casamento arranjado (tradição da comunidade), e com menos de 30 já tinha 7 filhos, a partir de relações sexuais também indesejadas, e era recorrentemente agredida e humilhada pelo marido,  levando uma vida absolutamente submissa, e dedicada à família. Decidiu pedir o divórcio e a guarda das crianças, ato considerado criminoso por sua antiga religião.

As tramas já possuem conflitos tensos e relevantes por natureza, principalmente envolvendo a história de Etty, o que faz com que One Of Us ocupe a nossa atenção com autoridade, sendo uma experiência tensa e pessimista. Os líderes hassídicos estabeleceram um tipo de sociedade que está lá para amparar o outro, e oferecer apoio incondicional, desde que se siga os ditames da religião. A saída é tratada com verdadeiro desprezo, e faz com que os próprios membros criem um verdadeiro banimento desse dissidente, que vai se ver pela primeira vez tendo que se relacionar com pessoas de fora, e sem o conhecimento de coisas mínimas para se viver em sociedade.

Através de uma decupagem suja, com câmera na mão, imagens desfocadas, distanciadas, enquadradas de maneira não convencional, as diretoras evocam de maneira eficiente o deslocamento que essas pessoas vivem em Nova York, e o quanto elas estão despreparadas para seguir os seus objetivos, e como são incompatíveis com o mundo ao redor.

Também por entender que tem algo relevante a dizer, as diretoras claramente fizeram questão de não entrar em falsas polêmicas, nem em estabelecer mocinhos e vilões. Sim, sem dúvida os membros da religião criam situações praticamente criminosas para atrapalhar a vida dessas pessoas que querem apenas seguir com a vida adiante, mas ainda assim, o filme apresenta personagens que demonstram que não se tratam de uma comunidade 100% desumana. Afinal, aquelas pessoas tiveram a missão de reerguer as suas tradições depois dos horrores do holocausto, e talvez só com essa forma ultra integrada e fechada em si, que essa iniciativa daria resultado.

Também há pessoas ali mais abertas ao diálogo, ou então que se sentem verdadeiramente realizadas em ter a vida dedicada a religião, que se sentem plenos. Um não deslegitima o outro, lição que o documentário compreende bem.

Os personagens são interessantes e seus conflitos, variados, são bem delineados, embora claramente Etty sofra com questões mais urgentes e abusivas. Também é importante ressaltar o quanto as diretoras não exploram o seu drama de maneira fácil, e acompanham com segurança e olhar rigoroso os desdobramentos da mulher praticamente sozinha que embarca numa jornada impossível, que é a de enfrentar os bem relacionados líderes hassídicos nos tribunais.

Com uma verdadeira enxurrada de novas produções chegando aos serviços de streaming, One Of Us mostra-se como um potente documentário, que provavelmente vai ficar escondido nas prateleiras de baixo, mas que certamente não deve em nada ao que de melhor foi produzido pela Netflix em 2017.

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