Durante os 153 minutos de projeção, “Os Suspeitos” aparenta que vai ser um grande filme. A presença de ótimos atores, a história bem-amarrada pelo roteirista Aaron Guzikowski e a atmosfera de tensão criada pelo diretor Dennis Villenueve sugerem diversas camadas da trama a serem abordadas. Porém, com o passar do tempo, a sensação se torna de que o potencial da obra diminui, terminando por se contentar em ser mais um suspense com reviravoltas no final, deixando o sutil subtexto no meio da história.

A produção começa quando as famílias Dover e Birch  se reúnem para o almoço do Dia de Ação de Graças. Em determinado momento da festa, as duas filhas menores dos casais vão para outra casa e acabam sumindo. A partir daí, o pai de uma das garotas, Keller Dover (Hugh Jackman em atuação excelente), resolve agir por conta própria para encontrar a filha, enquanto o detetive Loki (Jake Gyllenhall) segue outra linha de investigação.

Ambientar a trama na gelada cidade de Brockton se mostra um acerto de Villeneuve. Voltada para famílias de classe média, a região traz aquela percepção de local tranquilo e ideal para se viver com a família, o que para um filme de suspense já aumenta a tensão e coloca o espectador como se pudesse ser a própria vítima do crime. A fotografia quase sem cores e as opções por ambientes fechados e escuros contribuem para a criação da atmosfera sombria semelhante ao regular “Zodíaco”, de David Fincher.

Para dar contornos mais dramáticos a esse visual carregado, a trama decide explorar o desespero de Dover para encontrar a filha. Antes, porém, o roteiro traz elementos da personalidade dele, como, por exemplo, a religiosidade e a leve paranoia, abordada pelo estoque de alimentos em um porão e pelo lema ‘reze pelo melhor, espere pelo pior’. Isso tudo acaba explorado no melhor momento da trama quando ele decide trancar e torturar um dos suspeitos do crime, interpretado de maneira excelente por Paul Dano.

Mesmo sem ter a certeza da culpa do refém, o protagonista insiste em acusar o suspeito como forma de se agarrar na única possível pista de achar a garota. O dilema perpassa também para o casal Birch (Viola Davis e Terrence Howard, ambos muito bem), que mesmo não concordando com a situação, não impede que aquilo pare. Semelhante a Breaking Bad, questões a moralidade dos personagens evoluem durante a história de forma que vemos os personagens se despindo das próprias crenças de certo e errado diante do desespero da morte das filhas.

Infelizmente, a investigação conduzida pelo detetive Loki para encontrar o culpado sempre se mantém um tom abaixo do drama vivido pelos pais das vítimas. Em uma trama que procura se manter realista, ver o policial agir sempre sozinho, como se não tivesse outras equipes atuando no caso, chega a ser risível. Para piorar, o erro cometido durante a cena do interrogatório deveria tirá-lo da corporação imediatamente, pois, somente um principiante seria capaz de tal ato. Desta maneira, toda a tensão da parte familiar acaba sendo diluída para saber quem é o culpado, se transformando no cansativo jogo de reviravoltas com as revelações feitas pelo vilão ao final da história. Pelo menos, Villeneuve se mostra um diretor elegante ao evitar os flashbacks, tendo respeito à inteligência do espectador.

“Os Suspeitos” passa bem longe de ser “O Silêncio dos Inocentes” e “Seven”, como alardeava a imprensa americana. Trata-se, sim, de um suspense com bons momentos e atuações seguras. Porém, com o potencial do material em mãos era possível trabalhar questões mais psicológicas em vez do velho jogo de adivinha o culpado.

NOTA:6,5

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