Em São Paulo, na última semana de abril, para ministrar os cursos ‘Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica’ e ‘A Arte do Filme’, o crítico de cinema Pablo Villaça deu uma breve “escapada” entre os compromissos em sala de aula e falou ao Cine SET sobre cinema, política e, claro, Manaus. Em 2010, a capital amazonense entrou no roteiro de cidades contempladas com o curso de crítica cinematográfica, que já teve mais de 60 edições em diversas capitais do Brasil.

Além de relembrar seus momentos em terras manauaras, Villaça falou ainda sobre o processo de regionalização da produção nacional, o que esperar da gestão da Agência Nacional do Cinema (Ancine) nos próximos anos, suas idas aos principais festivais de cinema do mundo, o alcance de seus textos políticos e de como arrancou uma bela gargalhada de uma das atrizes hollywoodianas mais premiadas de todos os tempos.

Cine Set: No seu curso, você fala bastante sobre o papel do crítico nos tempos atuais, o fato de as pessoas terem cada vez menos interesse em ler e de não saberem o tipo de texto que estão consumindo, como no caso de lerem uma crítica pensando se tratar de uma resenha.

Pablo Villaça: Ou achar que estão lendo uma crítica e não ser uma crítica.

Cine Set: Exato. Como você vê esse cenário?

Villaça: Eu vejo com preocupação, porque eu acho que nada substitui a crítica escrita. Não que o vídeo não tenha seu potencial, e tem, tem muito potencial. Eu acho que você pode fazer grandes trabalhos de crítica e análise, inclusive trabalhos didáticos, com vídeo. Tem alguns canais que são muito bons, até recomendo o Every Frame a Painting, que eu acho muito bacana. Agora, o que boa parte dos youtubers faz, e não quero generalizar, estou falando apenas dos que eu vi, não é crítica. Como é fácil hoje em dia ter um canal no YouTube, a pessoa pega uma câmera e grava um vídeo falando o que achou do filme, mas falar o que você achou do filme, simplesmente, ou o que você sentiu ao ver o filme, não é crítica. Isso é resenha. A crítica tem que ter um embasamento teórico de história do cinema e linguagem cinematográfica. Eu não vejo isso com muita frequência e, o que é pior, com o passar do tempo, essas pessoas se convencem de que elas são críticas. Elas acham que não há necessidade de aprender e que a crítica é só ver um filme e reagir a ele. Isto é muito preocupante. As pessoas que estão consumindo isso acham que estão aprendendo sobre cinema, mas não estão, elas estão aprendendo apenas sobre a pessoa que gravou aquele vídeo.

Cine Set: Diante dessa situação, você se sente pressionado a fazer mais vídeos?

Villaça: Engraçado, é uma boa pergunta… Não. As pessoas têm me pressionado para fazer mais vídeos, porque é o futuro e é importante. Eu me dou bem com vídeo, de modo geral. Eu tive um programa de TV, em Belo Horizonte, que durou dois anos. Eu escrevi e apresentei todos eles. Quando eu gravo, eu acho que eu tenho uma linguagem boa e me comunico com facilidade, não é aquela coisa engessada. Mas, tecnicamente, não é algo que eu saiba fazer. Os meus vídeos têm conteúdo interessante, mas são muito ruins, do ponto de vista técnico. Não são vídeos que eu veria. Se eu botasse em um canal e visse aquilo, eu diria: “Nossa, esse cara é muito ruim. Que coisa horrível. Olha isso, esse som, que merda”. Então, assim, eu me sinto mal de fazer uma coisa que, se eu fosse consumir, eu não consumiria. Ou eu dou um jeito de melhorar tecnicamente, ou eu vou parar de fazer vídeos eventualmente. Não sei ainda para onde vou caminhar com isso.

Cine Set: Gostaria que você falasse um pouco do seu público mais antigo, porque há pessoas, até mesmo alguns dos membros do Cine Set, que cresceram lendo o Cinema em Cena.

Villaça: Ok, eu já entendi que sou velho [risada]. É uma sensação curiosa e muito gostosa, de verdade. Ver pessoas adultas e profissionais falarem: “Eu te leio desde os 13 anos”, por exemplo. Eu brinco que sou velho, mas repito o que o Woody Allen diz: “Envelhecer é melhor do que a alternativa”. Eu acho que sou um profissional e ser humano melhores hoje do que eu era há 15 anos. Então, envelhecer tem suas vantagens.

Cine Set: Você enxerga o Cinema em Cena como uma referência para essa geração que eu citei?

Villaça: É difícil falar de você mesmo. É algo curioso. Às vezes alguém fala: “Ah, mas você é famoso”. Não, eu não sou famoso. Se a percepção é: “Você tem certo nome na área”, tudo bem, mas até isso é difícil. Eu não percebo o alcance de certos textos. Às vezes eu escrevo sobre um assunto no Facebook e, quando eu vejo, o negócio já virou matéria no Brasil 247. Quem sou eu ou por que estão falando de mim? Na crítica, é a mesma coisa, eu vejo muita gente falando: “Eu te leio desde que era criança e você é referência e tal”. É complicado você julgar o seu próprio alcance e importância, a não ser que você tenha um ego do tamanho de um bonde. Por mais que eu não seja modesto em vários aspectos, eu não sou tão ególatra a ponto de achar que eu sou importante para toda uma geração. O que eu quero dizer é que não sei responder a sua pergunta. A minha esperança é que eu tenha feito e continue a fazer alguma diferença para algumas pessoas, pelo menos.

Cine Set: Ainda sobre o seu público, você tem uma nova leva de seguidores, por conta dos textos políticos. Os comentários políticos foram algo pensado ou apenas uma necessidade pessoal de escrever sobre o assunto?

Villaça: Eu sempre escrevi sobre política, não é algo recente.

Cine Set: O alcance é recente.

Villaça: Porque, profissionalmente, eu cresci. Mas, quando o filme me permite, eu sempre falo de política, até nas críticas mais antigas. Faz parte da minha formação. Eu sou de uma família que sempre militou. Minha mãe e tio lutaram contra a ditadura, minha tia foi torturada e eu cresci ouvindo casos da ditadura em festas e almoços de família. Eu acho que, como cidadão, é meu papel e minha obrigação discutir política. Eu tenho um certo público e me consideraria muito irresponsável, omisso, se eu visse o tanto de absurdo que acontece e não falasse nada. Profissionalmente, me prejudica muito. Se fosse caso pensado, eu não falaria, porque eu perdi leitor demais por causa de política. Eu mais perdi do que ganhei. E os leitores que eu ganhei nem sempre têm interesse no cinema, e eu ganho a vida falando sobre cinema. Honestamente, se eu escrevo um post sobre política e vejo no Facebook que o post foi lido cinco milhões de vezes, pode ser legal pelo alcance, mas ser lido cinco milhões de vezes não faz a menor diferença, profissionalmente. Eu escrevo e vou continuar falando sobre política porque eu preciso.

Cine Set: Você fala muito sobre discursos de ódio nas redes sociais, mas, ao mesmo tempo, precisa se expor nessas ferramentas. Como você lida com essa contradição?

Villaça: Eu já lidei pior. Antes, me afetava muito alguém mandar uma ameaça de morte, por exemplo. Ameaça de morte é algo que, hoje em dia, e é até triste dizer isso, eu já me acostumei. Eu vejo uma mensagem dizendo: “Se eu te vir na rua, torça para eu não estar armado” e penso: “Ah, ok, bloquear”. Antigamente, era algo que me deixava mais preocupado. Até hoje, se eu percebo uma diferença no tom, eu denuncio, faço queixa-crime. As pessoas têm o hábito de dizer “morra”, na Internet, como se não tivesse uma pessoa do outro lado lendo aquilo. Enfim, eu lido com tristeza, mas não uma tristeza pessoal, por estarem fazendo isso comigo. É a tristeza de ver que tem tanta gente intolerante e que não entende que o debate político tem que ser, de fato, um debate. Você não é dono da verdade e, principalmente, não tem o direito de calar a outra parte porque você discorda dela. As pessoas não lidam mais com divergência, elas acham que a opinião delas tem que ser definitiva.  Então, eu lido com preocupação e tristeza, mas, infelizmente, já acostumei.

Cine Set: Em 2014, você anunciou o fim do Cinema em Cena e houve toda uma comoção na Internet, a ponto de os leitores se mobilizarem para colaborar financeiramente com o site. O que é e como está o Cinema em Cena hoje em dia?

Villaça: Primeiro, quero dizer que sou extremamente grato aos leitores, porque é muito bonito ver o amor que muitas pessoas têm pelo Cinema em Cena, a ponto de colaborarem financeiramente. Infelizmente, a colaboração dos leitores corresponde a 20% do que a gente gasta. Quando eu vou para festivais, eu pago passagem, hospedagem e alimentação do meu bolso. Além disso, eu pago o salário de todo mundo, além do servidor. Honestamente, o que sustenta o Cinema em Cena, hoje em dia, sou eu.  Não é o Cinema em Cena que me sustenta, que é o meu sonho. O que me sustenta são os cursos. Então, o Cinema em Cena, hoje, é um site que trata de cinema de maneira independente. A gente não se preocupa em falar só sobre filme de super-herói ou em trazer notícias sobre a ultima superprodução estrelada pelo Leonardo DiCaprio. O objetivo é discutir cinema, tanto o comercial quanto o “alternativo”, embora eu não goste desse termo. A minha preocupação é sempre a seguinte: se o cara está me dando quatro minutos do tempo dele para ler meu texto, o mínimo que eu devo a ele é escrever um texto consistente. É um site que gerou uma comunidade, pela qual, inclusive, tenho um carinho imenso.

Antes o Tempo Não AcabavaCine Set: O que você conhece de cinema amazonense? Qual é a sua opinião sobre a regionalização da produção nacional nos últimos anos?

Villaça: Conheço pouco, porque se produz relativamente pouco. Pelo menos é a percepção de fora. No ano passado, em Berlim, teve um filme produzido em Manaus, chamado “Antes o Tempo Não Acabava”, que foi, inclusive, um dos meus filmes favoritos do festival. O filme é belíssimo e responde sua pergunta sobre regionalização. Eu acho que a regionalização é muito importante, porque permite que você conheça culturas e lógicas de vida e sociedade que você normalmente não conheceria. O cinema é ótimo para te apresentar novas formas de enxergar o mundo. Esse filme conta a história de um índio que se descobre gay, algo que eu nunca tinha visto antes. Como é que um índio se descobre gay e como a comunidade dele vai reagir a isso? É muito diferente em relação ao resto? Como é que ele vai lidar com isso? No caso dele, o filme trata, por exemplo, do fato de que a comunidade dele não era mais “pura”, porque ela já tinha sido absorvida pelo grande centro urbano. A trama mostra, inclusive, a condição de vida miserável deles, porque a gente destrói o que eles tinham, mas não oferece a possibilidade de ter algo novo. Então, é um filme que, ao mesmo tempo em que é um estudo de personagem, é um drama e um comentário político-social que só é possível porque foi feito no Amazonas. Isso é importantíssimo. O Brasil tem características que outros países não têm. É um país de dimensão continental e se a gente faz filme no Sul, Sudeste, Centro-Oeste, Norte ou Nordeste, cada um desses vai trazer sensibilidade própria. É isso que torna o cinema brasileiro tão rico.

Cine Set: Quais são as suas lembranças do curso em Manaus? Você pretende voltar com um novo curso?

Villaça: Eu tenho vontade de voltar a Manaus. Agora, o curioso em Manaus, e eu não sei explicar porque, é que eu não consigo achar lugar para fazer o curso. Todos os lugares são caríssimos. De todos os lugares em que faço curso, no Brasil, aqui [em São Paulo] é o mais caro, mas é um auditório na Av. Paulista, onde tudo é caro, e com uma infraestrutura bacana. Os lugares que eu achei em Manaus são mais caros que a sala de São Paulo. Então, eu quero voltar, mas tenho dificuldade em conseguir um espaço. Sobre a turma, eu só tenho lembrança carinhosa. Foi uma turma divertidíssima, lembro de rir muito ao longo da semana. Como já estava lá, aproveitei e fiz o turismo também. Fiquei encantado. É uma cidade muito rica, do ponto de vista histórico-cultural.

sergio sá leitão

Cine Set: Como você avalia a chegada do Sérgio Sá Leitão na Ancine?

Villaça: Pavorosa. Péssima. Horrível.

Cine Set: E qual sua análise do trabalho do Manoel Rangel? 

Villaça: O Manoel Rangel fez um trabalho sensacional. Não foi um trabalho perfeito porque é difícil trabalhar com arte em qualquer lugar do mundo, você tem que lidar com uma série de limitações orçamentárias e até culturais. As pessoas ainda acham que investir em cinema é perda de tempo e dinheiro. O Manoel Rangel fez o que foi possível e fez um trabalho muito bom. Ele ajudou a fomentar a produção brasileira e, principalmente, a distribuição e alcance do cinema brasileiro lá fora, de maneira quase inédita. Aí, você bota um cara como o Sérgio Sá Leitão, que é um péssimo profissional e não é respeitado nem pela própria comunidade. É um cara que, quando trabalhou na RioFilme, permitiu que a Globo Filmes dominasse ainda mais o mercado, inclusive, fazendo coprodução com dinheiro público, como se a Globo precisasse de dinheiro para fazer ‘Se Eu Fosse Você 3’. Sérgio Sá Leitão botou dinheiro público em um filme chamado ‘E Aí… Comeu?’. É para isso que existe incentivo? Tudo bem, se você tem um cineasta independente que quer fazer um filme chamado ‘E Aí… Comeu?’, a gente tem que permitir a diferença. Mas não precisava. É um filme protagonizado por globais e produzido por gente que não precisa de dinheiro. Enquanto isso, você tem outro cara querendo fazer um filme sobre um menino de rua, de maneira independente, e ele não vai ter verba para isso porque gastaram o dinheiro. E aí o cara [Sérgio Sá Leitão] ainda ficou puto porque o filme, que é uma merda, foi criticado. Além disso, evidenciando toda a sua maturidade, respondeu dizendo que crítico de cinema é uma comunidade de mal comidos. É esse homem que vai conduzir a política do cinema brasileiro agora, com essa mentalidade? Essa escolha do Sérgio Sá Leitão para a Ancine reflete o “governo” Temer, de modo geral. Sempre falo governo com aspas porque, para mim, é um governo golpista, e a escolha de um sujeito despreparado, incompetente e eticamente questionável reflete a incompetência e a canalhice desse governo em todas as áreas.

Cine Set: De todos os festivais para os quais você já foi, tem algum preferido?

Villaça: Os festivais são um momento de imersão no cinema. Eu posso ficar 12 ou 14 dias vendo filmes o dia inteiro, filmes de todos os países, gêneros e correntes. Acho que são experiências importantes para eu me renovar como profissional e cinéfilo. Eu gosto muito da Mostra de Cinema de São Paulo, do Festival do Rio, Berlim, Cannes, Tribeca, cada um tem a sua personalidade, mas o que eu sempre gosto é a oportunidade de ver filmes tão diversos. Eu acordo, vou ao cinema, vejo cinco ou seis filmes, um atrás do outro, chego ao hotel à noite, escrevo, durmo umas cinco horas e acordo cedo para estar no cinema de novo. A rotina é de desgaste absoluto.

Cine Set: Só você, sem equipe.

Villaça: Só eu. Tanto que o Cinema em Cena não publica entrevistas durante o festival. Não quero perder tempo com isso. Eu não tenho interesse em conhecer a Cate Blanchett, eu quero ver o filme da Cate Blanchett. Eles [nos festivais] até oferecem: “quer conversar com ela?”. Não, não quero. Legal, mas não precisa. Eu quero ver filme.

Meryl StreepCine Set: Algum caso inusitado de festivais para compartilhar?

Villaça: Eu já fiz a Meryl Streep rir. Eu estava no Festival de Berlim, ano passado, e ela era a presidente do júri. Tem um cinema lá [o Cinemaxx], onde também funciona um café grande e a rádio oficial do festival.  Eu estava nesse café, entre uma sessão e outra, e vi uma comoção tomar conta do ambiente. Ao lado de alguns seguranças, surgiu a Meryl Streep, porque ela ia dar uma entrevista para essa rádio. Eu pensei: “Ah, legal”. Eu não tenho essa coisa de… Talvez seja criação, mas eu não tenho essa coisa toda com celebridades, nunca tive. Eu fiquei emocionado até hoje, de verdade, tremendo, três vezes na vida: quando eu conheci o [crítico de cinema norte-americano] Roger Ebert, o [diretor Martin] Scorsese e o Lula, que não tem nada a ver com cinema. Vi a Meryl Streep, foi legal, bacana. Ela chegou, pediram para ela sentar enquanto preparavam a entrevista e ela veio e sentou do meu lado. Era um banco longo, que ficava no canto da sala. Neste caso, é diferente. A Meryl Streep sentou do meu lado, não vou agir como se não fosse nada, mas eu não ia também iniciar uma conversa, porque eu sou péssimo para isso. Eu não ia virar e falar: “Oi, Meryl!”. Enfim, o crachá em Berlim pode ser de imprensa ou indústria, que é o pessoal que vai lá para comprar filmes. E aí ela, acho até que pelo fato de saber o efeito que provoca nas pessoas, olhou para mim, viu o meu crachá, que estava virado ao contrário, e perguntou: “Imprensa ou indústria?”. Eu respondi: “Imprensa”. Ficou um silêncio e depois de alguns segundos eu perguntei: “E você?”. Aí ela deu uma gargalhada boa, aquela gargalhada de Meryl Streep. Depois disso, nos abraçamos, ficamos amigos… Mentira. Na verdade, não consegui falar mais nada. Chamaram ela para a entrevista, ela disse “bye” e foi embora.