Apesar de todos os estigmas que ainda rondam a atuação no Amazonas, nos últimos anos, vimos jovens atores regionais despontarem no cenário nacional. Dentre eles, um nome que tem se destacado é Isabela Catão

Com uma caminhada marcada por peças teatrais e interpretações viscerais e consistentes, Catão esbanja magnetismo e talento por onde passa. Agora, ela chega ao tradicional Festival de Gramado com o curta-metragem amazonense “O Barco e o Rio”, segundo parceria dele com o diretor Bernardo Ale Abinader.

No filme sobre a história de duas irmãs antagônicas que herdam o barco da família, Isabela Catão interpreta a Vera, uma mulher conservadora que vê no patrimônio toda a vida dela, passando os dias transportando mercadorias e passageiros. Já Josi (Carolinne Nunes) não gosta das restrições da irmã; possui cabeça aberta, mas vê a vida mudar devido a uma gravidez inesperada. A dinâmica da relação entre as duas é o ponto de conflito do curta.

O Cine Set aproveita a oportunidade para entrevistar Isabela Catão sobre a parceria com Abinader, os desafios para mais atores chegarem no audiovisual e projetos futuros.

Cine SET – Vamos falar sobre sua parceria com Abinader. Como vocês se conheceram e a experiência de fazer “A Goteira”, o primeiro curta juntos? 

Isabela Catão – Eu e Bernardo nos conhecemos quando ele fazia o curso de audiovisual e eu teatro na UEA. Quanto à “A Goteira”, foi um trabalho bom, carrego boas lembranças dele, pois, foi a oportunidade que tive de conhecer melhor como funciona fazer cinema. Os ensaios e leitura de roteiro me aproximaram mais da equipe e do próprio Bernardo.

Cine SET – Como surgiu o convite para participar de “O Barco e o Rio”? 

Isabela Catão – Eu lembro que um amigo havia comentando sobre o novo projeto da Fita Crepe (produtora criada por Abinader em parceria com Ana Oliveira e Valentina Ricardo) que seria gravado em um barco. Lembro que fiquei encantada. Por acaso, encontrei Bernardo em uma de minhas saídas pela noite e ele comentou que queria conversar comigo a respeito de um projeto. Fiquei super feliz quando, alguns dias depois, ele disse que o projeto era de um curta-metragem e que me queria no elenco. Fiquei bem feliz com o convite.

Cine SET – Como funciona a direção de Abinader: o que você acha mais interessante? 

Isabela Catão – Trabalhar com o Bernardo é um privilégio. Eu amo trabalhar com ele. Ele é uma pessoa que escuta, clareia as ideias do roteiro, é presente e respeitoso. Eu o admiro muito como pessoa e profissional.  Além de saber muito bem o que quer dentro das condições que nossa cidade apresenta.

Cine SET – Sobre “O Barco e o Rio”, como você compôs sua personagem? 

Isabela Catão – A Vera veio a partir das conversas sobre o roteiro com o Bernardo, dos laboratórios que fiz nas Igrejas, dos exercícios de preparação e construção da personagem com a Ana Oliveira. Tudo isso foi me dando ferramentas necessárias para que eu pudesse bancá-la.

 

Cine SET – Quais foram suas principais referências? Que influências e experiências trouxe para o trabalho?

Isabela Catão – Não fui muito longe nas referências. Busquei observar as mulheres que convivem comigo, conversar com aquelas que encontrei quando visitava as igrejas. Olhei para mim e tentei buscar algo para que pudesse contribuir para Vera, afinal, estamos falando de crenças limitantes da personagem, não é? Vera é uma mulher incrível, mas que carrega dentro de si convicções que só a aprisionam. Então, eu buscava não só em mim, mas também em outras mulheres quais eram suas crenças limitantes e como é que o corpo e olhar delas expressavam isso, direta ou indiretamente. Acho que isso ajudou bastante.

Cine SET – Como foi o processo de gravação? 

Isabela Catão – O processo de gravação é sempre um aprendizado. Para mim, enquanto atriz de teatro com algumas experiências no cinema e TV, foi uma maneira de encontrar outras possibilidades de atuação, uma espécie de aperfeiçoamento a partir da prática. Tudo fluiu bem, a equipe estava muito bem alinhada e estávamos muito a fim de fazer isso, contribuir para que esse processo fosse finalizado com primor e amor.

Filmar na Amazônia é mágico. A atmosfera que existe aqui nos coloca em outro lugar, para mim, foi uma das melhores experiências que já tive na vida.

Cine SET – Fale um pouco sobre a parceria com a Carolinne Nunes, a intérprete da Josi, irmã da Vera em “O Barco e o Rio”.

Isabela Catão – Carol é uma mulher inteligente, alto astral e talentosa. Filmar com ela foi uma experiência leve, apesar do conflito que existe no filme entre as duas irmãs. Durante os ensaios podemos nos aproximar mais uma da outra gerando uma espécie de cumplicidade que nos ajudou a levar as atuações para um lugar interessante, acredito.

 Cine SET – Vamos falar sobre sua trajetória artística: como tem sido as oportunidades no audiovisual local?

Isabela Catão – As oportunidades no audiovisual tem partido de amigos ou produtores daqui que me conheceram do teatro. Isso é incrível e generoso, visto que em relação ao audiovisual nacional, não vejo que existem tantas oportunidades para papéis com um certo grau de relevância. Eu não digo isso só em relação a mim: é também em relação aos outrxs. Não sei se esse desinteresse tem a ver com a ausência de formação que temos na cidade em relação a atuação para cinema ou se é outra coisa.

Converso muito com amigxs que formaram comigo na faculdade de teatro ou que já estão formando e vejo que eles têm muita vontade de se experimentar no audiovisual. Também converso com alguns produtores locais e eles dizem que é difícil encontrar material de atores – tipo selftape (autogravação feitas pelos atores para enviar às agências) – quando estão em busca de referências na cidade.

Acho que precisamos rever essas questões. Já pensei em criar uma plataforma catalogando essas selftapes com atrizes daqui, inclusive, é um projeto pessoal que tenho muita vontade de fazer.

Cine SET – O que tem buscado ao escolher os projetos que participa? 

Isabela Catão – Eu tenho buscado primeiramente o mote do trabalho e, em segundo lugar, a escolha da equipe, não só no sentido profissional. Eu tenho Mercúrio em Câncer, então eu preciso trabalhar com pessoas que admiro, se não, não me sinto motivada, sei lá. Acho que faço essas escolhas mais por proteção mesmo.

Cine SET – Você é a protagonista do novo curta-metragem dirigido pelo Diego Bauer, “Enterrado no Quintal”. Fale sobre a experiência sobre o trabalho. 

Isabela Catão – “Enterrado no Quintal” foi um SUPER aprendizado. Desafiador e, ao mesmo tempo, excitante. Eu sou apaixonada pelo ofício de ser atriz então quando um trabalho me instiga dessa forma, me sinto incrivelmente realizada. Sou apaixonada pela forma como o Diego Bauer confia no meu trabalho, como nós dois, junto com a equipe, conduzimos bem o curta, sabe? Eu acho que fiz a escolha certa quando disse sim ao convite dele.

Cine SET – Quais são seus próximos projetos? 

Isabela Catão – Tem a estreia de um curta chamado “Joycilene”, dirigido pela Hanna Gonçalvez e fotografado pela Larissa Martins. O roteiro narra a história de uma jovem vendedora que trabalha no Centro da cidade e que tem muita vontade de sair de Manaus.

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