A atriz Fernanda Montenegro vem à Manaus para a apresentação do monólogo teatral “Nelson Rodrigues por ele mesmo” por ocasião do aniversário da cidade. Em uma das entrevistas exclusivas mais ilustres do Cine Set, a atriz dos palcos e cinema brasileiros fala sobre o novo espetáculo, a relação entre sua carreira cinematográfica e os textos de Nelson Rodrigues, do inevitável peso de “Central do Brasil” para sua carreira e para a produção nacional e de seus projetos futuros na tela grande. Confira:

Cine Set: Qual a expectativa para o espetáculo em Manaus? Já veio à cidade antes? O que o público pode esperar do monólogo?

Fernanda Montenegro: A minha expectativa é de festa, tenho as melhores expectativas. Manaus é uma cidade onde já estive antes, nos anos 1990, e fui muito bem recebida. Eu tenho muito orgulho do material que estou levando, que é baseado num livro de crônicas nunca publicadas do Nelson Rodrigues. Trabalhei na organização de biografia e temática para a construção do monólogo, com ajuda direta da filha dele. Temos na peça questões como os sonhos, os posicionamentos políticos de Nelson. É um trabalho com o qual tenho muito cuidado, e que já foi “testado”; foram 20 apresentações já, a maioria nas periferias das cidades, tendo em vista que, depois de 70 anos de vida pública, o teatro ainda é pouco visibilizado. Na peça, trago um tratamento direto, uma forma de travar uma relação mesmo comigo e a plateia, além, claro, do texto do Nelson.

Cine Set: Sua carreira no cinema também foi marcada por Nelson Rodrigues, com os longas como “A falecida” e “Traição”, lançado após “Central do Brasil”. Em uma entrevista antiga, a senhora afirmou que esses filmes a aproximaram mais espiritualmente do cinema. Como avalia hoje o impacto deles na sua carreira, especialmente com “Central do Brasil”?

Fernanda Montenegro: Nelson entrou na minha vida através do teatro. Pedi dele e foram três peças, mais duas novelas, e praticamente estreamos o formato na tevê brasileira, algo pouco falado hoje, aliás. Tem-se, nesses filmes, visões de mundo parecidas. Com o “Central do Brasil”, vem também a retomada de um cinema novo com visão social e posicionamento político. Se na peça “A falecida”, por exemplo, temos uma representação muito lírica, no filme, o texto de Nelson foi trazido para uma visão mais realista. Já a experiência com o “Central do Brasil”, só não teve mais repercussão porque parou no Oscar. É algo de que me orgulho, inclusive com minha indicação, já que foram poucas as atrizes estrangeiras que já concorreram, como Sophia Loren e Anna Magnani. Hoje penso que há filmes brasileiros com atuações muito impactantes, como a Sônia [Braga, em “Aquarius”] e a Regina [Casé, em “Que horas ela Volta?”], que merecem reconhecimento e prêmios internacionais e nacionais.

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Cine Set: A senhora foi a única atriz brasileira indicada ao Oscar. Para a senhora, qual a importância do prêmio para o cinema brasileiro?

Fernanda Montenegro: O Oscar é um fetiche. É uma premiação extremamente americana, dentro de uma visão que, como podemos dizer, é capitalista. Com a força de anos e anos, não só na América, mas para o mundo todo, ele se construiu assim e os outros prêmios acabam o imitando, com o tapete vermelho, os longos, os breaks para a publicidade. Num plano maior, quem tem que impulsionar o nosso cinema é a gente mesmo, apesar de a exibição e muito da projeção da imagem dos filmes estar na mão dos americanos, naquela semana de “vida ou morte”, quando o filme deve gerar o máximo de receita nos primeiros dias de exibição para continuar sendo exibido. Enquanto não tivermos mais poder sobre a exibição, esse é o sistema atuante, do qual o Oscar é uma parte. 

Cine Set: Além do monólogo com os textos e Nelson Rodrigues, quais os seus planos futuros? Há projetos de filmes em vista?

Fernanda Montenegro: Sim, há projetos futuros. Estou com dois filmes: um é um projeto com o Andrucha [Waddington], com roteiro da Fernanda Torres. O outro é com o Cláudio Assis, em Pernambuco. Serão dois dramas. Além disso, tem “Mister Brau”, que ficou para abril. Esse foi um ano de muito trabalho, apesar de minha idade, e sou muito agradecida.

Cine Set: Puxando o gancho com esse projeto novo com Cláudio Assis, como a senhora avalia o panorama do cinema brasileiro hoje, que se tornou mais descentralizado? Acompanha a produção dos estados fora da região sudeste?

Fernanda Montenegro: Essa é uma coisa fundamental: que cada região tenha suas temáticas, seus atores e que se amplie o fazer cinema. Nós, bem dizer, estamos sempre em locação, não necessariamente somos do local onde acontece a história. Vemos o caso de Pernambuco, no filme com o Cláudio, e lá há uma vida de cinema muito importante. O complicado é ter os espaços para esses filmes de tantos lugares virem à tona.

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Cine Set: E a senhora conhece algo do cinema amazonense?

Fernanda Montenegro: Não, admito que não tenho conhecimento. Talvez exista até um polo interessante de produção que eu ignore. Dadas as devidas proporções, penso que todo o Brasil tenha seus focos de arte, mas é o querer fazer cinema que toca a vida do cinema no país mesmo, assim como é com o teatro e a cultura em geral. Há um descaso político com a cultura, que sempre é adiada por conta de outras prioridades que, no entanto, nunca são atingidas, vide o saneamento básico, por exemplo, e o investimento em cultura fica ainda muito atrás disso. Mas a cultura, juro, e sou testemunha, pode mudar muitas coisas. Se se cuidasse mais dela, o país estaria melhor.