É um consenso que brasileiros são apaixonados por produções do gênero “true crime”. Para quem cresceu assistindo “Linha Direta” – aliás, já está na hora do programa ter seu espaço no Globoplay -, é instigante acompanhar a propagação deste nas plataformas de streaming, seja em séries como “Caso Evandro” e “Elize Matsunaga: Era uma vez um Crime” ou nos podcasts “Fábrica de Crimes” e “Modus Operandi”. Logo, a proposta de um filme que apresentasse o caso Suzane von Richthofen chegou ao público com entusiasmo.

Dirigidos por Maurício Eça, “A Menina que Matou os Pais” e “O Menino que Matou os Meus Pais” acompanha o envolvimento de Suzane von Richtofen (Carla Diaz) e Daniel Cravinhos (Leonardo Bittencourt) até o momento em que os dois, junto ao irmão de Daniel, Cristian (Allan Souza Lima), matam os pais da moça. O roteiro assinado por Ilana Casoy e Raphael Montes se baseia no depoimento dado pelos réus em seu julgamento em 2006 e é a partir desse alicerce que as produções encontram seus principais problemas estruturais.

A escolha narrativa

“A Menina que Matou os Pais” e “O Menino que Matou os Meus Pais” falha em se ater apenas à narrativa contada nos julgamentos, especialmente por esse ser um caso baseado na manipulação de fatos dos depoentes. Não há outra visão que não seja do casal e da dinâmica do relacionamento deles.

Compreendo que para os roteiristas, talvez, o aspecto mais interessante desse caso esteja no envolvimento de jovens tão discrepantes socialmente, contudo, quando isso é visto no audiovisual, perde força e apreço enquanto retrato histórico, estudos de personagens e reflexões.

Torna-se mais enfraquecido ainda dado a escolha de ter dois filmes apresentando os pontos de vistas de ambos, já que não há contra-argumentações em nenhum deles. Os roteiros se equilibram com o famoso “a palavra de um contra o outro”, quando, na verdade, o depoimento de Andreas von Richthofen, irmão da ré, foi fundamental para desmascarar as más intenções de ambos.

Assim, a trama se sabota alcançando um resultado menos crível e interessante do que as produções já citadas.

O gosto agridoce tupiniquim

A contraposição das duas narrativas deixa um gosto insatisfatório. A forma como o roteiro é arquitetado preocupando-se com a relação tóxica dos namorados em detrimento de aprofundar-se em outros elementos da vida deles – por exemplo, Daniel foi campeão sul-americano de aeromodelismo, Suzane foi faixa marrom em caratê -, assemelha-se muito a melodramas cujo foco único é o romance e as outras histórias paralelas ficam em suspensão. Tais escolhas não fazem jus à fama e produções de seus roteiristas, conhecidos por seu trabalho enquanto escritores e pesquisadores criminais.

Para completar há a defasagem da obra: estamos diante de um filme que não explora nada de novo sobre o crime, pelo contrário, se preocupa em apresentar relatos que foram descartados pelos próprios investigadores.

A sensação é de ter assistido produções que poderiam entregar bem mais, mas optam por ficar no lugar comum e se apoiar na fama que o caso lhe traz. “A Menina que Matou os Pais” e “O Menino que Matou os Meus Pais” falham em todas as suas melhores intenções.

As luzes de Bittencourt e Diaz

Quanto aos quesitos técnicos, a fotografia de Jacob Solitrenick (“Durval Discos”, “É Proibido Fumar”) se diferencia por trazer alguns ângulos e takes diferenciados como nas cenas em que o casal está na praia ou sob efeito de entorpecentes. Outro fator interessante é o uso de cores.

A personagem de Carla Diaz está sempre envolta de uma cor avermelhada e tonalidades mais vivas, mesmo na versão em que se passa por inocente. Já os irmãos Cravinhos são retratados por duas tonalidades que mudam de acordo com a perspectiva de quem narra a história. Enquanto Daniel é o narrador, tons amarelados estão sempre presentes nos ambientes mais fechados, já quando Suzane assume o piloto, o namorado é envolto de uma áurea azul que parece guerrear com o vermelho que acompanha. Essas três combinações exortam o envolvimento deles em cada fase narrativa, sendo a protagonista constantemente lembrada ao espectador sobre o seu papel no crime, mesmo que apenas imageticamente.

Por falar na dupla, Leonardo Bittencourt é o grande nome do elenco. Sua atuação parece natural: ele cresce tanto quanto o garoto que ama a namorada e quer ajudá-la a sair dos abusos, quanto como o garoto que a manipula para assassinar os pais. Como a ele cabe as cenas mais pesadas, consegue transparecer com êxito tanto a vilania quanto a responsabilidade afetiva. Já Carla Diaz soa estranha como a mentora da morte dos pais. Ela parece não se encontrar na personagem e está levemente destoante. Apesar disso, a química entre os dois é inegável.

“A Menina que Matou os Pais” e “O Menino que Matou os Meus Pais” são filmes presos às próprias ideias. Tendo condições para ser um marco na produção “true crime” nacional, desperdiçam suas narrativas pela obviedade, resultando em uma trama genérica sobre dois adolescentes que querem viver uma história de amor morna e sem graça. Algo bem distante do crime que abalou o país e até hoje rende pauta para discussão. Nem mesmo o fato de haver duas versões torna o processo mais interessante, pelo contrário, salienta as falhas presentes no roteiro de forma geral.

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